A história da trupe do Teatro Mágico é um belo exemplo do poder transformador dos sonhos coletivos. Junte a promessa do imponderável, a alegria do desejo, a vertigem do simples e eis a magia que une essa trupe e seus fãs na busca de uma nova trilha para a relação entre arte e sociedade. Mais que a tentativa de reinvenção de um modelo de negócio, esses “doidos” ousam tentar reinventar a vida. A trupe, na estrada e nas redes desde 2003, se prepara para dar mais um importante passo: em breve vão lançar o terceiro CD, “A Sociedade do Espetáculo”. A referência ao clássico livro de Guy Debord no título cabeçudo se justifica, pois a trupe do TM é conhecida por suas posições políticas, sendo uma das mais emblemáticas defensoras das bandeiras da cultura livre. (leia mais)
a década digital
pontos-de-cultura
Pontos de Cultura – por uma politica cultural mestiça, digital, tropicalista e global
Andre Stangl (Atopos – ECA/USP)
O povo sabe o que quer/Mas o povo também quer/o que não sabe - Gilberto Gil
Para compreender o alcance, a profundidade e as dificuldades de um programa como os Pontos de Cultura, implantado pelo Ministério da Cultura (MinC) do governo do Brasil, primeiro será necessário contextualizá-la dentro do cenário da cultura local. O Brasil é um país com uma realidade social complexa e desigual, um povo mestiço, uma geografia descomunal e uma Continue lendo
O valor da música 2.0
Reflexões sobre o valor da música na cultura digital* (2008)
Andre Stangl
“Sem a música, a vida seria um erro”
Friedrich Nietzsche
“O vaso dá forma ao vazio e a música ao silêncio”
Georges Braque
Lembrando de ouvir
Pouco se sabe sobre a origem da música. A produção de sons não é uma característica exclusiva dos seres-humanos. Provavelmente o nosso primeiro instrumento musical foi a voz e a nossa primeira composição foi cantada. Mas não foi o som produzido que gerou a música. O mistério do nascimento da música está na primeira vez que ouvimos um som como música, o momento em que a reconhecemos como tal. Na infância da humanidade o som fez sentido e o sentido se fez música. É bem possível que a organização dos sons e a criação dos primeiros instrumentos envolvessem formas rituais e significados místicos. A música, enquanto forma de expressão, está muito próxima do pensamento mítico e até hoje temos dificuldade em expressar o que sentimos quando ouvimos e fazemos música. A mitologia pode nos oferecer algumas possibilidades de compreensão do sentido da música, muitos são os mitos que explicam o seu surgimento e muitas são as tradições que relacionam a sua origem a alguma manifestação do divino.
McLuhan, cibernética e pós-humanismo
A Natureza Artificial do Homem: McLuhan, cibernética e pós-humanismo (2008)
Andre Stangl
A ciência excitada
Fará o sinal da cruz
E acenderemos fogueiras
Para apreciar a lâmpada elétrica.
Tom Zé
Na atual relação dos homens com as máquinas, existe um misto de carinho, esperança, desconfiança, impaciência, distância, intimidade, perigo e alegria. Um fenômeno curioso ocorre com a maioria de nós durante a infância: não distinguimos com clareza a diferença entre objetos inanimados e seres vivos. Nossos brinquedos andam, conversam, sentem frio, fome, podem sentir emoções, alguns até morrem. Tampinhas e canetas podem virar naves espaciais. O punho com o indicador em riste vira uma arma laser. Podemos conversar com qualquer coisa a nossa volta. De travesseiros a sandálias havaianas, qualquer coisa pode falar. Em algum momento de nosso desenvolvimento somos convencidos a ignorar os apelos de nossas caixas de brinquedos e nossos amigos imaginários começam a se dissolver no ar. Então, quando pensamos já estar longe daquele mundo encantado, entramos numa loja de equipamentos eletrônicos e digitais e, sem saber porquê, começamos a ouvir as vozes de um passado distante, falando em uma língua esquecida.
Etnodescentrismo
Etnodescentrismo: A Construção Digital da Identidade (2004)*
Andre Stangl
Resumo: o presente artigo trata das reconfigurações da etnicidade no ciberespaço. Partindo da análise do software social conhecido como Orkut, que nos últimos anos tornou-se palco das mais acirradas manifestações de afirmação e negação de identidades étnicas. O que se propõe é uma recontextualização do conceito de identidade que leve em conta as especificidades da sociedade de rede.
Rede Mestiça
A rede mestiça: notas sobre Cibermestiçagem e hibridismo digital (2003)*
Andre Stangl
Resumo
Este artigo trata das transformações da identidade cultural contemporânea facilitadas com o advento das redes digitais. Este novo estágio da interconexão planetária está gestando um novo tipo de mestiçagem, a cibermestiçagem. Para entender mais profundamente o sentido da nossa relação com as máquinas, precisamos refletir um pouco mais sobre conceitos basilares como nossas idéias sobre: o que é humanidade, o que é natureza, o que é cultura, o que é natural, o que é artificial. Também precisamos voltar-nos sobre a origem de alguns desses conceitos, para, em seguida, tentar entender como esses conceitos se desenvolveram e, em alguns casos, se transformaram em opostos. Boa parte dos conceitos que ainda hoje usamos para compreender nossa relação com as tecnologias estão descritos na obra do canadense Marshall McLuhan (1911-1980). A mestiçagem tem uma lógica própria aos objetos híbridos, portanto, faz-se necessário uma revisão do modo como reconhecemos a relação entre sujeito e cultura. A malha de redes digitais que se espalha pelo planeta permite a troca e a transformação cultural numa velocidade nunca vista antes. O nosso esforço aqui é reunir alguns dos aspectos envolvidos nessa transformação do sujeito e de sua identidade.
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Policentrismo Cultural
O Policentrismo Cultural nas Cidades Digitais (2002)*
Andre Stangl
Sobre as cidades, tudo já se disse, e, no entanto, nada se compara a (de)morar-se nelas. Um pedaço de rua, uma lembrança, uma janela, um dia. Cada coisa na vida de uma cidade tem um sentido próprio, somos sua substância, nossa rotina corre em suas veias. Assim, quando algo muda em nosso olhar, desloca-se também o que vemos. E se a forma como vemos a cidade muda, isso sobre ela se reflete. Uma nova perspectiva é como uma nova avenida. Se nosso olhar sofre hoje uma transformação com a mudança nos sistemas de comunicação da sociedade contemporânea, o objeto de nosso olhar acompanha essa reconfiguração. Revelando-se então, num novo instante, um outro tempo e um outro espaço. A cidade que hoje vemos, com os olhos de quem se vê numa rede que nos une a todos e ao todo, é a cidade de quem já não tem uma cidade, mas todas as cidades.
Gilberto Freyre e a Identidade Cultural Pós-Moderna
Gilberto Freyre e a Identidade Cultural Pós-Moderna (2002)*
Andre Stangl
Resumo
Aqui [1] se busca compreender o percurso da teoria de Gilberto Freyre (1900-87) sobre a mestiçagem. Traçando um paralelo entre o que Freyre descreveu e as teorias contemporâneas sobre o hibridismo cultural. A Obra de Freyre pode ser vista como percussora, muitas vezes ignorada, destas novas teorias de hibridação cultural e das discussões sobre a identidade cultural na pós-modernidade. Revela-se então a atualidade de sua reflexão sobre a mestiçagem num mundo cada vez mais misturado entre fronteiras imaginárias.
Wittgenstein e a Terapia Filosófica
Wittgenstein e a Terapia Filosófica (2001)
Andre Stangl
Por que palavras?
“Um monge aproximou-se de seu mestre — que se encontrava em meditação no pátio do templo à luz da Lua — com uma grande dúvida: “Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?”
O velho sábio respondeu: “As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta.”
O monge replicou: “Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?”
“Poderia,” confirmou o mestre, “e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio.”
“Então,” o monge perguntou, “por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?”
“Porque,” completou o sábio, “da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário.”
O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.”
Introdução: Uma Terapia para o Pensamento
Este trabalho se apresenta como uma tentativa de reunir algumas das idéias presentes na obra de Ludwig Wittgenstein (1889-1951) que nos levariam a formular uma discussão sobre a possibilidade ou não da existência de uma Terapia Filosófica. Estaremos defendendo aqui uma perspectiva da filosofia de Wittgenstein como a busca do equilíbrio entre o poder e o desejo de nosso pensamento, ou seja, entre aquilo que podemos dizer e aquilo que queremos expressar. Como sabemos, ele próprio caracterizou sua filosofia como uma terapia [1] . O termo é empregado freqüentemente também pelos autores que estudaram sua obra quando pretendem defini-la [2] . Wittgenstein acreditava ter desenvolvido o tratamento para um modo de pensamento – o modelo seguido em boa parte da filosofia de sua época – e do qual, curiosamente, foi um dos maiores representantes, na primeira fase da sua obra. Um modo de pensar que, segundo ele, poderia levar ao solipsismo, ao sofrimento e ao isolamento.
Camus e a Ética Anticristã
Camus e a Ética Anticristã (2001)*
Andre Stangl
O que podemos entender como ética na obra de Albert Camus? Seria possível dizer que em sua obra persiste uma profunda crítica da ética católica. Livros como A Queda (1956), A Peste (1947), O Estrangeiro (1942) e O Exílio e o Reino (1957) parecem descrever com agudeza os contra-sensos da fé católica. Em A Peste, Camus metaforiza a natureza humana na crítica à redenção da razão pela fé, como se a fé trouxesse o sentido para além do real, mas no entanto é no real, mesmo que este seja absurdo, que está o sentido da fé.
Uma Etnografia da Prática Epidemiológica
Uma Etnografia da Prática Epidemiológica (2000)
Andre Stangl
01. objetivo
O estudo parte do acompanhamento, em campo, da prática epidemiológica desenvolvida pelo ISC (Instituto de Saúde Coletiva – UFBA) no Projeto de “Avaliação do Impacto sobre a Saúde do Programa de Saneamento Ambiental de Salvador e Cidades do Entorno da Baía de Todos os Santos”- Projeto Bahia-Azul[1]. Centrando na ótica/perspectiva dos técnicos e prestadores de serviços (entrevistadoras, motoristas, etc.), propomos um retrato antropológico do imaginário dos atores que, de fato, efetivam a ação/intervenção epidemiológica. Aqueles que, sem a visão mais teórica ou do conjunto, seguem ordens, mesmo porque, assim, acreditam estar fazendo o melhor por sua comunidade ou cidade. Utilizando para isso diário de campo, registros fotográficos e nossas próprias impressões, buscamos a reconstrução desse imaginário de ‘cura coletiva’ e a relação deste com seu alvo: a população.
Usos e Sentidos do Conceito Saúde
Usos e Sentidos do Conceito Saúde (2000)
Andre Stangl
O Projeto Integrado de Pesquisa “Uma Etnografia da Prática Epidemiológica” (1) se propôs a realizar, através do método etnometodologico, uma aproximação com a prática e a rotina dos pesquisadores em Saúde Coletiva. A pesquisa foi desenvolvida tendo como base o método desenvolvido por Harold Garfinkel que incorpora elementos da Fenomenologia e prática uma releitura do processo de produção da pesquisa científica, usando, para isso, a aplicação de técnicas etnográficas. Nesta perspectiva, pretende-se romper com o método sociológico que dava maior relevo aos aspectos macrossociais. Parte-se, então, da realidade humana, intersubjetiva dos locais onde se dão a produção, as trocas, a oferta e a procura por fatos científicos.
Heidegger e o Questionar
O Ser? eis a Questão: O Questionar para Heidegger (1999)*
Andre Stangl
Tentaremos aqui, entender um pouco mais o que é o questionar no pensamento heideggeriano. Nos limitaremos a buscar referências sobre o questionar em dois de seus textos, a saber, a conferência Que é Isto – a Filosofia? (1955) e a conferência O Fim da Filosofia e A Tarefa do Pensamento (1966), mas antes precisaremos entender onde se insere, no pensamento de Heidegger a importância do questionar. Assim, primeiro revisaremos alguns de seus conceitos centrais, mesmo sabendo das limitações que a brevidade de nossas reflexões impõe, arriscaremos conjeturar algumas relações entre o pensar e o questionar sobre o ser no pensamento heideggeriano.
Jackson de Figueiredo
O Pensamento de Jackson de Figueiredo (1999)
Andre Stangl
VIDA E OBRA
O filósofo sergipano, Jackson de Figueiredo*, trilhou o caminho da polêmica, sua filosofia foi sua luta pela revitalização da fé. Nascido em 09 de Outubro de1891, estudou entre 1904 e 1908 no colégio protestante Americano e no Ateneu Sergipano. Em 1908, passa a estudar em Maceió no Liceu Alagoano e publica seu primeiro livro de poesia – “Bater de Asas”. Em 1909, já matriculado na Faculdade de Direito, passa a viver em Salvador. Nesta época envolve-se com o grupo estudantil Nova Cruzada que promove algumas reuniões literárias e alguns atos públicos, como sua famosa polêmica com a polícia no Teatro Politeama e uma tentativa de expulsão dos jesuítas portugueses. Também nesta época conhece o escritor baiano Xavier Marques, sobre quem, mais tarde, Jackson escreveria seu terceiro livro – “Xavier Marques” (1913). Antes, ainda publica mais um livro de poesias “Zíngaro” (1910) e em 1918 publica outro: “Crepúsculo Interior”, neste à influência boêmia de Baudelaire e Antero de Quental, soma-se a influência agônica de Nietzsche e Pascal. Influências estas, vindas, de sua amizade com Pedro Kilkerry, poeta que seria redescoberto na década de 70 pelos concretistas, irmãos Campos.
Heidegger e o Pensamento Oriental
Reflexões sobre o Tao do Caminho: Heidegger e o Pensamento Oriental (1999)
Andre Stangl
Introdução
O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) percorreu um longo caminho até que sua filosofia amadurecesse e desse frutos. Boa parte da Filosofia dita ‘Pós-Moderna’, de Derrida, Foucault, Rorty a Latour, cada um a seu modo, é parte deste fruto. Mas não é o caroço. É interessante observar que após a intensificação do processo de mundialização, a Filosofia não ficou imune, seja por sua parente próxima a Antropologia, que lhe trouxe novos sabores, seja pela sua irmã a Arte, que lhe impregna de diferentes cores. Heidegger trouxe em sua filosofia um renascimento, a redescoberta do mesmo, passado e presente se re-encontram, Oriente e Ocidente se reconhecem. Claro que esta mútua compreensão passa também ela por um amadurecimento e, mesmo assim, ainda estamos longe de uma indiferenciação. Talvez esta só seja possível com o fim de uma perspectiva unilateral, “a apatridade que assim deve ser pensada reside no abandono ontológico do ente” (HEIDEGGER, Sobre o “Humanismo”, 1973:360). Portanto, deste processo só conseguiremos ter a visão dos que permanecem, sob a condição de ‘ocidentais’, ou seja, não nos adianta a tentativa de substituição de um pólo por outro, de uma pátria por outra. Mas enquanto pertencente a uma comunidade buscar no diálogo o mútuo reconhecimento da mesma essência entre identidades diferentes.
Rousseau in natura
Rousseau in natura (1998)
Andre Stangl
I – Usos e sentidos da Natureza
Ninguém, na História da Filosofia Política do ocidente, viveu mais intensamente o limite entre o social e o natural que J. J. Rousseau. Desde de seu primeiro “Discurso”, já defendia que a degeneração da espécie humana vinha da incompatibilidade entre virtude e ciência, antes do desenvolvimento da civilização a moral humana “era rude”, porém “natural”. No segundo “Discurso”, defende a naturalidade da bondade humana, o “bom selvagem” que teria sido corrompido pelas facilidades da vida moderna. O homem primitivo vivia em unidade orgânica consigo mesmo, diferente do homem moderno que vive alienado de sim mesmo. A natureza para Rousseau é a própria idéia de perfeição, fusão da beleza mecânica com o sentimento profundo de liberdade ontológica. No estado natural se exercia a liberdade dos desejos e impulsos sem a concorrência de seus iguais, contrariando Hobbes, nada se devia ou temia pois nada se tinha ou perdia.
teoria marxista
A Teoria marxista do Não-Estado (1998)
Andre Stangl
“de todas as coisas a guerra é pai,
de todas as coisas é senhor a uns
mostrou deuses, a outros,
homens; de uns fez escravos,
de outros, homens livres”
Heráclito
Marx, logo no início do “Manifesto do Partido Comunista”, afirma que “a história de toda sociedade até hoje é a história de luta de classes”. Desse antagonismo entre os interesses de grupos sociais diferentes é que surge a desigualdade, e, somente com a extinção das classes em luta, tal situação se reverteria. Primeiro, para que se entenda o papel do Estado nessa transformação, vamos revisitar o percurso da teoria marxiana e localizar sua originalidade. Depois a partir do que é próprio em Marx, vamos tentar compreender sua utopia.

