Camus e a Ética Anticristã

Camus e a Ética Anticristã (2001)*
Andre Stangl

O que podemos entender como ética na obra de Albert Camus? Seria possível dizer que em sua obra persiste uma profunda crítica da ética católica. Livros como A Queda (1956), A Peste (1947), O Estrangeiro (1942) e O Exílio e o Reino (1957) parecem descrever com agudeza os contra-sensos da fé católica. Em A Peste, Camus metaforiza a natureza humana na crítica à redenção da razão pela fé, como se a fé trouxesse o sentido para além do real, mas no entanto é no real, mesmo que este seja absurdo, que está o sentido da fé.

”Quem podia afirmar que a eternidade de uma alegria podia compensar um instante da dor humana?” (CAMUS, 1947:196)

A situação desenvolvida por Camus na narrativa de A Peste parece simbolizar como a moral cristã separou-se da realidade quando aboliu de si o absurdo. O aparecimento de ratos mortos, negando à rotina seu sentido. A explicitação do absurdo no cotidiano: ratos, peste e mortes. Camus mostra como se sustentam nossas crenças quando se chega numa situação limite. A verdade não se sustenta ante o absurdo da vida e morte, seja uma verdade científica ou religiosa.

Em seu último romance, A Queda, Camus através do longo monólogo inquisidor e auto-penitente espelha os labirintos da ética cristã. Onde a razão se pacifica na fé, mas o homem não pode se acomodar na aparente tranqüilidade, deve, sim, buscar no absurdo o que lhe faz reviver. Ou seja, sem a sensação de urgência, náusea ou peste, o homem periga esquecer-se de si mesmo. Para Camus, a fé católica funciona como uma lavanderia, onde se limpa a consciência do homem de sua responsabilidade.

“A única utilidade de Deus seria garantir a inocência, mas eu vejo a religião antes de tudo como uma grande empresa de lavanderia (…). Desde então, falta sabão, andamos com o nariz sujo e nos assoamos mutuamente. Todos culpados, todos castigados, (…), e pronto: já para o desconforto. (…) Não espere pelo juízo final. Ele se realiza todos os dias”. (Idem., 1956:84)

Neste sentido pode se falar de fé católica como disfarce da razão e da fé funcionando como uma justificativa moral para nossos atos. No caso do romance A Peste, o Padre Paneloux vê sua fé ser abalada pela morte de um inocente, pois até então ele acreditava no merecimento da peste, como castigo para uma sociedade perdida. Após a morte do menino, o padre busca uma justificativa racional que lhe mantenha a fé, mas acaba por se contaminar. Em O Estrangeiro, Meursault está prestes a ser executado por um crime que não compreende, quando surge em sua cela a possibilidade de redenção oferecida por um padre. Os dois então debatem suas certezas e dúvidas, mas não importa quem tem a razão, pois nada mudará a situação. Meursault é condenado por não buscar justificativas para seus atos.

Para Camus, mesmo sem um porque claramente definido, o homem não pode nunca deixar de se revoltar. Assim, pode se dizer que a ética católica opõe-se ao espírito de revolta camusiano. A ética camusiana opõe-se à cristã, o cristianismo esconde por trás do perdão a covardia, por trás da bondade a hipocrisia, por trás do sentido o absurdo. Da mestiçagem cultural de Camus (sua ótica terceiro mundista), talvez tenha vindo sua visão crítica do cristianismo, pois em nome da fé muita coisa se faz e se fez. Ele que, em seus primeiros anos de vida, habitou a Argélia, bem sabe dos abusos de uma fé sobre outra. Judeus, Islâmicos ou Cristãos: qual é de fato a verdadeira fé?

Com suas narrativas, Camus derruba no chão alguns dos ícones do pensamento ocidental: verdade, igualdade e justiça, entre outros desabam. De sua reflexão não escapa nenhum dos frutos da tradição greco/cristã/judaica. A moral cristã de redenção poupa o homem do confronto com a parte negativa de sua essência, a peste. A sociedade que se desenvolveu sobre essa negação desconhece seus limites, pois ofusca-se com a luz de suas lâmpadas e de sua moral.

O homem moderno, já nem tão moderno assim, incide numa gloriosa derrota. Condenado ao vazio efêmero de seu sentido social, impotente ante ao caos, este homem desce em busca de sua pedra. Esta derrota é prenunciada em O Mito de Sísifo e revivenciada em A Queda. O sentido humano, no Mito de Sísifo, está justamente no momento em que descansado e desgraçado, o homem desce em busca do sentido absurdo de sua existência. No mito, o homem está condenado a subir uma montanha empurrando uma pedra, chegando lá esta pedra cai e ele desce sabendo que terá de retornar ao topo com ela, para que de novo ela caia. Camus aceita o paradoxo, não se importa com isso, muito pelo contrário, considerava isso uma dádiva, saber-se incoerente, como Sísifo, e sorrir:

“As mentiras não conduzem finalmente ao caminho da verdade? E minhas histórias, verdadeiras ou falsas, não tendem todas para o mesmo fim, não têm o mesmo sentido? Que importa, então, que sejam verdadeiras ou falsas se, em ambos os casos, são representativas do que fui e do que sou? Pode-se, às vezes, ver mais claro em quem mente do em quem fala a verdade. A verdade, como a luz, cega. A mentira, ao contrário, é um belo crepúsculo, que valoriza cada objeto” (Ibid., 90-1).

Camus não ignora o contraditório, sua ética está nos contrastes, ilumina um lado, subentendendo o outro. Dominar pressupõe servir: o racionalismo europeu se impõe, enquanto exercício de domínio e controle. Por traz da ética cristã, se esconde uma vã tentativa de justificativa dos atos ante a razão. Camus desmascara a hipocrisia da moral católica quando nos revela nossa auto-indulgência. Em A Queda, a impossibilidade, da indiferença, nada esquecemos. Segundo ele, nada pode abolir a responsabilidade/culpa do homem moderno. A culpa para Camus é saborosa, sem ela não há consciência, não há sabor. A verdade se revela na mentira, como a luz nas trevas.

“Aceitei a duplicidade, em vez de ficar desolado com ela. (…) No fundo, errei ao dizer que o essencial era evitar o julgamento. O essencial é poder permitir-se tudo, mesmo se for preciso proclamar, de vez em quando, em altos brados, a própria indignidade” (Ibid., 106).

Entre as possibilidades da ação humana, está o erro, mas luta-se contra os desvios como se o destino se desse a conhecer, fosse previsto por um código ético de conduta. Julga-se sob a sombra da razão, a lógica oprime, então condenando o erro ao absurdo. A princípio, Camus volta-se contra o julgamento da razão, o discernimento que insiste em decidir-se sobre si mesmo. Para, então, demonstrar que mesmo o julgamento tem a liberdade de ser arbitrário.

Camus criticava a indiferença, fruto do medo e da confortável solidão. Para ele, o egoísmo do pensamento europeu – o eurocentrismo – expressava o absurdo implícito e recusado da ética cristã, uma moral de fundo pequeno burguesa. A ética cristã a tudo impregnou, a ótica egóica de uma relação não mediada com Deus, o ideal de perfeição, o pecado e a redenção e, por fim, a superioridade ante aos pagãos. Justificando-se assim a condenação, a punição ou mesmo a Inquisição.

O pensamento de Camus está além do pessimismo ou do otimismo, encontra seu caminho na revolta. Não se pode evitar a culpa, somos impotentes por almejarmos o passado idílico. Camus desconstrói a promessa marxista, científica ou cristã de um retorno ao paraíso, enquanto qualidade de viver ou morrer. O pensamento se desnuda ao se esconder por trás da arte. O absurdo, o sonho, tudo o que lhe habita, se revela. Camus segue a tradição ensaísta que integra literatura e pensamento como uma coisa só. Assim, sua obra filosófica confunde-se com seus livros de ‘ficção’: a literatura para Camus não está a serviço da razão, ela é o pensamento pela forma (Pinto, 1998:123).

“Gozava a minha própria natureza e todos nós sabemos que é aí que reside a felicidade, se bem que, para nos tranqüilizarmos mutuamente, demonstremos, por vezes, condenar estes prazeres sob o nome de egoísmo”. (CAMUS, 1956:17).

O pensamento dito racional, oculta o homem do homem, esquece-se do poder, de tudo que se esquece. Para Camus, a indiferença não é boa nem má, ela pressupõe uma razão que não tem sentido. Age-se e pronto, não há razão para a ação. O viver é sem mais que o viver, a culpa é inútil, pois não existe inocência. Convive-se com a contradição, oprime-se com a verdade. Inocência e culpa, verdade e mentira, certo e errado: toda polaridade se faz na moral, Camus metaforiza o paradoxo da existência na peste. A peste é o limite humano, nós nos encarregamos de ocultá-la, mas ela se revela. Na linguagem camusiana, a peste se traduz no medo e horror da morte. Para Camus, o único problema filosófico realmente importante é o suicídio, a morte como alternativa geradora de sentido, somente o suicídio pode nos desmascarar o absurdo por trás da existência humana.. Se não se pode conviver com o absurdo, para que então viver? Ou seja, para Camus, o suicídio significa o estágio máximo a que pode chegar a busca de racionalidade, a incapacidade de aceitar o absurdo inerente à vida.

Numa cidade pesteada compreende-se o sentido/absurdo das fronteiras, das culturas, da vida em sociedade. Não se pode viver, claramente, sem que a peste se apresente no horizonte. Sua possibilidade possibilita-nos a organização, a civilização, até mesmo a linguagem. Sem peste não teríamos consciência. A peste cria-nos uma eterna lembrança, uma sombra que nos serve de espelho. No mundo sem Deus, Camus prega a iluminação do mal como única saída da indiferença. A luz não pode ser diminuída, mesmo fraca ela mostra seu brilho, enquanto a peste se irradia como luz negativa. Camus encontra apoio para sua narrativa na denegação da luz divina, pode se dizer que ele é um teólogo ao contrário: como um físico que estudasse uma força por suas reações, Camus estuda o mal.

Uma boa metáfora da crítica camusiana ao pensamento está na personagem de Grand, o escritor que perde sua vida na busca da forma que domine o sentido. Para Camus, a coalizão entre vida e arte nos redime da busca de um sentido. Mesmo a arte ainda é uma tentativa simbólica da existência, mas dela não se elimina o absurdo.

No conto A Pedra que cresce, um engenheiro europeu descobre na força da selva tropical uma resposta a seus conflitos éticos. Numa procissão, ele assume o lugar do penitente e lhe revela o destino de sua penitência, que não está numa Igreja Católica, junto às imagens de seus santos, mesmo que pudesse estar, pois a metáfora não tem um sentido excludente quando diz que seu destino está no próprio lar do penitente. Sagrado e Profano, Ética e Estética, para Camus, coabitam e são o mesmo. A estética predominante no ocidente oculta uma ética cristã em sua forma. Camus se opõe a essa predominância, sua estética seria assim pagã, como sua ética. Na estética/ética pagã os conceitos são como mitos, não se pode separar forma de conteúdo, ação de regra. Camus provoca com sua obra uma reflexão sobre o etnocentrismo, coloca em xeque nossas certezas e põe nosso saber ao lado dos mitos.

BIBLIOGRAFIA

CAMUS, A. A Queda (1956) – 10ºed. Rio de Janeiro: Record, 1997.

_________. O Exílio e o Reino (1957) – 6º ed. Rio de Janeiro: Record, 1997.

_________. O Mito de Sísifo – ensaio sobre o absurdo (1942). Lisboa: Livros do Brasil, s/d.

_________. A Peste (1947) – 12ºed. Rio de Janeiro: Record, 1999.

_________. O Estrangeiro (1942) – 19ºed. Rio de Janeiro: Record, 1999.

PINTO, Manuel da Costa. Albert Camus: um elogio do ensaio. São Paulo: Ateliê Editorial, 1998.

*Aqui agradeço a orientação de Prof. Lourenço Leite

2 comentários sobre “Camus e a Ética Anticristã

    • astangl disse:

      meu caro Guilherme,

      tentei encontrar alguma explicação p/ sua pergunta via twitter: “A que período histórico o A.C. faz referência no A queda, quando diz que a religião foi por 3 anos uma empresa de lavanderia!?”

      No trecho a que vc se refere:
      “E então? Então, a única utilidade de Deus seria garantir a inocência, mas eu vejo a religião antes de tudo como uma grande empresa de lavanderia, o que, aliás, ela foi, mas por um breve tempo, precisamente durante três anos, e não se chamava religião. Desde então, falta sabão, andamos com o nariz sujo e nos assoamos mutuamente. Todos culpados, todos castigados, escarremo-nos, e pronto! Já para o desconforto! Basta ver quem escarra primeiro, eis tudo. Vou contar-lhe um grande segredo, meu caro. Não espere pelo Juízo Final. Ele se realiza todos os dias.”

      não encontrei uma resposta explícita, mas acho que Camus se referia aos três anos do ministério de Cristo, do batismo até sua crucificação. (Ainda que exista alguma discussão sobre a duração precisa desse período).

      abçs

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