Etnodescentrismo

Etnodescentrismo: A Construção Digital da Identidade (2004)*
Andre Stangl

Resumo: o presente artigo trata das reconfigurações da etnicidade no ciberespaço. Partindo da análise do software social conhecido como Orkut, que nos últimos anos tornou-se palco das mais acirradas manifestações de afirmação e negação de identidades étnicas. O que se propõe é uma recontextualização do conceito de identidade que leve em conta as especificidades da sociedade de rede.

No começo de 2004, começou a ganhar fama no Brasil um software social de gerenciamento de redes de relacionamento, o Orkut. O ingresso no sistema se dá através de um convite, uma vez dentro do sistema você passa a fazer parte uma rede orgânica, onde a navegação se dá através de pessoas. O sistema ainda está em fase experimental, mas em 10/10/2004 já tinha 1.987.705 usuários, estando agora com 14.174.821 usuários (12/03/2006). Antes de começar a usá-lo, no entanto, se deve preencher um cadastro. Mesmo não sendo necessário preencher todos os dados, há até quem os invente. Para representar sua imagem, você pode usar uma foto ou uma gravura (aqui surge uma das formas mais curiosas de auto-representação).

Figura 1 – auto-representação imagética no Orkut

orkut

No Orkut você também pode criar comunidades de interesse e essas comunidades acabam sendo um tipo de etnicidade, pois reúnem pessoas entorno de um compartilhamento de sentido e de espaço (ainda que virtual). Podemos aqui visualizar claramente como funciona a etnicidade digital, ou o e-tno (2).

Vejamos a descrição, as principais características e alguns trechos dos debates gerados por algumas comunidades intencionalmente “étnicas”.

A Beleza Negra se descreve como “uma comunidade para aqueles que marcaram Black no seu profile do Orkut”. Essa é uma excelente definição de etnicidade digital, você é aquilo que você escolheu quando preencheu os dados de seu perfil (profile). Apesar de estar na categoria de romance e relacionamentos, os temas de seus debates nem sempre foram muito românticos. Criada e moderada por Garcia Black, ela é do tipo público (todos podem ler), mas não permite posts anônimos. Foi criada em 10 de Junho de 2004, tinha 65 membros em 11/06/2004 e em 10/10/2004 já contava com 1.238 membros. É uma comunidade de ação-afirmativa e usa estratégias para a elevação da auto-estima de seus membros.

Um dos tópicos (topic) mais polêmicos dessa comunidade foi o “Cotas para Negros nas Universidades” (3), iniciado pelo membro “Ricardo” (4) em 11/06/2004, que trazia a pergunta: “O que vocês estão achando dessa “polêmica” com relação a esse assunto?”. A partir de então desenvolveu-se o debate que pode ser visto no anexo. É interessante observar a referência ao espaço criado pela comunidade – por exemplo quando “Lisandra” diz que “Se aqui eu não for “acolhida com minha ignorância”, onde vou ser?” – ou ao fenótipo dos argumentos, quando “Ayra-on” diz: “É realmente ótimo ver os argumentos dessa negritude”. Um momento particularmente significativo é quando surge a referência a uma outra comunidade, a Anti-cotas para negros (5). “Ayra-on” diz: “O Anti-Cotas pra negros está cheinho de gente. Grante quantidade mais nenhuma qualidade argumentativa. É bom evitar usar instrumental (ou seja, nossa eloqüencia) em foruns assim, pois além de banalizar algo importantíssimo, deixamos forte o lado contrário”. Isso ilustra um problema recorrente nas comunidades, parece que não existe mais a possibilidade de convencimento argumentativo. Apesar de extensos debates, dificilmente os oponentes mudam de opinião. Por exemplo, sobre isso “Spk” afirma: “Eu participei daquela comunidade (6) por algumas semanas, defendi o sistema de cotas com unhas e dentes, mas cheguei a conclusão de que é uma briga inútil, pelo menos aqui dentro do Orkut, pois eu não vou mudar a opinião deles e eles não mudarão a minha. No máximo, vai rolar um bate-boca gratuito e nenhum entendimento a respeito, pois para haver mudanças, é preciso estar com a mente aberta, fato que não ocorre com determinadas pessoas daquela comunidade.” Logo a seguir “Leo” comenta demonstrando grande abertura mental: “Eu ia entrar nessa comunidade, mas comecei a ler os post e decidi q nao ia perder meu tempo com esses idiotas. Eles podem pensar e escreverem o q bem quiserem, PQ AS COTAS VAO SER IMPLANTADAS SIM. Quero q eles e seu pensamentinho racista se fodam”. É uma característica recorrente nesses fóruns públicos o uso de palavrões e xingamentos, o que parece detonar uma variedade etária nos debates, mas também uma inconseqüência, já que não existe o risco de agressões físicas ou proteções legais.

Vamos ver agora o que pensam os membros da Anti-cotas para negros. A comunidade se descreve assim: “SE VOCÊ TAMBÉM ACHA NOJENTO CLASSIFICAR GENTE POR COR EM NOME DE QUALQUER CAUSA, ENTRE NESTA COMUNIDADE DANÇANDO MICHAEL JACKSON”. Foi criada em 11 de abril de 2004, por Natércia Pontes. Tinha 24 membros em 25/06/2004 e já contava com 2.888 membros em outubro de 2004.

Nesta comunidade “Ayron-on” tem papel fundamental na contraposição às opiniões dos outros membros. “Esse achismo de vocês não é o que está em questão aqui. Se lerão o documento, lá tem explicação pras ações afirmativas. Quero debater idéias fundamentadas, não achismos pré determinados”, desafia ele. Em outro momento “Francisco” se irrita: “Como é fácil de se irritar quando se entende só o que se quer. Isso aqui não é salinha de bate-papo, claro que não. Mas eu não conheço ninguém que mude de opinião apenas porque viu um fórum no Orkut. Esse espaço serve para cada um mostrar o seu ponto de vista, porque é a favor ou contra as cotas, explicar os motivos e tudo mais. Agora, se tu quiser sair, é problema teu, meu caro. Mas eu aprecio um bom debate, e enquanto se mantiver o nível da conversa, vai ser sempre um prazer ler as tuas idéias”. “Ayra-on” rebate: “Então a tua finalidade aqui Chico é só bater papo com teus amigos sobre o quanto é louco o governo federal e ignorantes os que são a favor das cotas? Eu tenho vontade sim, de que, com argumentos embasados, mude essa opinião. Se o objetivo aqui é só bater papo sobre coisas que já estão soldadas… me avise que eu saio com prazer.” A dificuldade em se alcançar um consenso é uma característica do debate digital, também observamos isso nas listas de discussão. A questão se agrava quando não se quer nem ser associado a determinada comunidade para não transparecer algum tipo e adesão. “Eva” sobre isso afirmou: “to saido dessa comunidade pq to vendo q aqui tem um bando de gente q necessita de ajuda psiquiatra e pq se alguem entra no meu perfil e ve o nome desta comunidade vai pensar q eu estou contra as cotas, vai queimar meu filme”. Isso de alguma forma indica uma tendência no Orkut, muitos usuários aderem a algumas comunidades demonstrando sua posição ou complementando seu perfil, através desse pertencimento.

A comunidade 4P – Poder Para o Povo Preto que se descreve como um “grupo para discutir temas como racismo e outras formas de discriminação, estereótipo da raça negra e as cotas de ‘reparação histórica’. Os Afro-descendentes – descendentes dos africanos trazidos como escravos – ainda hoje são vítimas da sociedade. Historicamente, em tempos não tão longínquos, negros e mulheres foram impedidos de ascender socialmente e isso ainda perdura. Este grupo será a voz do negro em um sentido estrito e das minorias de uma forma geral. > Batendo de frente contra a defesa branca do status; > Batendo de frente contra o racismo e todas as formas de discriminação; > Batendo de frente contra os estereotipo atribuídos à raça negra; > A favor das cotas de ‘reparação histórica’;”. Inclusive classificada como “atividade” (Activities), ou seja “ação”. Criada por Ayra-on de Castro. Tinha 23 membros em 29 de maio de 2004 e 665 membros em outubro de 2004. Seu fundador tem papel ativo em diversas comunidades “opostas”, integrando grupos como TFP, 100% branco, orgulho branco, anti-cotas para negros, etc.

Como a comunidade é composta predominantemente por “negros”, o “Saulo” comenta: “Acho que a única forma real de promovermos a ascensão (ou inserção) social do negro é atravéz da promoção da convivência entre as diferentes raças (etnias, melhor dizendo).” Aqui, “Sônia” pode afirmar: “Ao meu ver as duas versões estão erradas. Não gosto da história de cotas para negros, pra mim isso continua sendo um racismo disfarçado e vai acabar piorando a situação. A solução seria outra, talvez um pouco mais complicada, mas que ninguém do governo tá afim de meter a mão… enfim.”. Como está entre “amigos”, ninguém lhe agride por manifestar uma posição contrária às cotas, nem vice-versa. A sensação de estar entre “iguais” parece facilitar o diálogo.

A comunidade 100% Branco (7) descreve-se assim: “Não é uma comunidade racista ou com fins discriminatórios.Mas sim, uma comunidade para todas as pessoas que representam a raça branca. Sabemos de pessoas que defendem os direitos dos negros, dos indios. Pois bem esta é para defender os brancos, que de tanto medo das acusações de racismo pararam de se defender para defender outros ideais, que nada tem a ver com seus descendentes”. Criada por Alexandre Lioncourt em 07 de julho de 2004. em 03/08/2004 contava com 176 membros e em outubro chegou a 212 membros. Invertendo o argumento do movimento negro, os brancos agora também podem se afirmar. Apesar de muitos membros confundirem o “orgulho branco” com nazismo e discriminação, para alguns a defesa da etnia ou raça branca é também necessária. Respondendo ao discurso nazista de um membro, “Bocasseca” diz: “Foi com um imenso desprazer que li o seu post. Esse não é um grupo que prega a soberania de uma raça em detrimento de outra. Muito menos um grupo de propaganda anti-semita. Peço que você retire imediatamente esse tópico do site, pois branco não é o mesmo que ariano, e o coloque em um grupo dedicado a isso. Como há muitos no Orkut, basta procurá-los”. A defesa da branquitude, assim como a defesa da negritude, parece não combinar com a mestiçagem. Veja o que “Bruno” afirma: “Se não tomarmos providências, essa onda de miscigenação, grandemente influenciada pela mídia, acabará com nossa raça. Aliás, não só com a nossa como também com as outras. É triste ver casamentos interraciais… Eu nunca me casaria com uma mulher de outra raça, teria filhos que nada teriam a ver comigo, não se pareceriam nem um pouco comigo nem com a mãe, e com quem não me identificaria. Eu sou caucasiano pq todos meus antepassados tiveram seus descendentes com caucasianos. Porque eu haveria de mudar isso?? (…) Essa onda de miscigenação seria impensável até umas poucas décadas atrás e hoje infelizmente parece se alastrar. E depois dizem que nós que somos a maioria… Eu só quero minha raça e minha cultura preservada para o futuro e meus descendentes”. Se não fosse trágico, seria cômico, mas ao que parece a afirmação de uma cor ou raça justifica conceitualmente a afirmação de outra. Assim, não é de se estranhar que vejamos argumentos dos negros sendo usado por brancos, mesmo guardando-se as devidas proporções históricas.

No anexo estão registradas mais comunidades e discussões, será interessante revê-las daqui a alguns anos. Inclusive, porque as comunidades mais agressivas acabam por ser retiradas do ar. Existe um mecanismo de reclamação (report as bogus) e a intensidade de reclamações é o termômetro usado pelos funcionários do Orkut para censurar uma comunidade. É uma pena, pois assim perdemos a oportunidade preciosa de estudá-las. Lembro aqui o que propõe o site FUSÃO RACIAL: “A censura é ineficaz no combate ao racismo. (…) práticas racistas devem ser punidas conforme a Lei, o que não deve ser confundido com restrições a liberdade de expressão”. A distinção é válida, considero de fundamental importância a possibilidade de saber o que o mais odioso racista pensa, pois só assim poderemos descobrir, compreender e transformar os mecanismos que sustentam o preconceito.

As cotas, por mais justificáveis que sejam seus motivos, podem ser equivocadas em sua estratégia, pois ao invés de desestimular o racismo, talvez o estimulem. A base do pensamento que me leva a tentar rever a proposta das cotas pode parecer banal, mas é uma constatação incômoda. Como podemos eleger a cor como um critério se cegos também podem ser preconceituosos? Qual o sentido de ter um de nossos sentidos como elemento central de um problema conceitual? Como já diz a palavra, pré-conceito é preconceber algo. O preconceituoso, um racista, por exemplo, não reconhece nenhuma alteridade que não lhe espelhe a crença em seus próprios conceitos. Ele é incapaz de se abrir para um novo significado, o seu enfeitiçamento (cf. STANGL, 2001) é tamanho que não lhe ocorre em nenhum momento tentar perceber a nova possibilidade de significação que o outro lhe oferece. Para ele, basta um estímulo visual, a cor negra, para uma reação de estranheza. Agindo assim, o preconcebido ignora qualquer renovação de seu entorno, reacionário cognitivo, ele empobrece sua existência. Mas como combater essa visão torpe? Parece que de nada adiantaria reforçar o signo sensorial da cor da pele, pois a questão não é consertar os sentidos. Mas sim estimular uma nova percepção do sujeito negro, reconhecendo sua identidade como uma construção complexa de significados sociais e culturais. Não limitada pela cor, mas ampliada pela voz. Pelo cheiro, pela alma, pela emoção, pelo amor, pelo tato, pelo sabor e pelo saber.

Vamos combater a exclusão revendo absurdos como condicionar o mercado de trabalho a canudos de papel, vamos repensar o papel da universalidade do saber. Quais são as faculdades do pensamento que ainda não foram incluídas no seleto grupo dos saberes socialmente aceitos pela academia? Qual é o valor social da verdade instituída? Como podemos pluralizar essa verdade?

O problema é quando alguém é discriminado. Pois a causa da discriminação é a justamente a justificativa usada pelo discriminador. Uma justificativa que nos confunde e embaça nosso alvo. O mal do racista não é sua crença na existência de raças, posso ser “racista” e mesmo assim respeitar meu próximo. O alvo que esquecemos, quando elegemos a justificativa como causa, é o desamor. Como alguém pode se iludir achando que o desamor tem explicação ou justificativa? A beleza da poesia é que muitas vezes ela não sabe a causa de sua beleza. Assim também é o desamor que não precisa de explicação para ser horrível. Nosso alvo é então essa falta de carinho. Crenças, conceitos e gostos não são suficientes para impedir o amor. Só o medo, a falta de esperança e a solidão alimentam o desamor. Só a alegria, a tranqüilidade e o diálogo podem reverter esse nebuloso prisma.

Fronteiras Digitais da Identidade

As novas expressões identitárias, que esse ambiente permite, chamei-as de e-tno, ou etnicidade digital. Estas são re-afirmações discursivas, livres dos inconvenientes fenotípicos ou das restrições geográficas. Nossa sociedade é estruturada simbolicamente pela linguagem, sendo assim qualquer alteração no fluxo de informações que forma a rede de pessoas moradoras de qualquer cidade no mundo, interferirá e transformará essa própria estrutura. A percentagem de pessoas de uma cidade conectadas determina a velocidade da transformação, quanto mais pessoas conectadas a nova informação maior será o número de pessoas não-conectadas que poderão ser informadas por seus amigos, parentes, colegas, etc. O sistema Orkut pode ser entendido como um espaço de convivência onde podemos rever alguns amigos. No entanto há quem acredite que o estimulo à amizade e às expressões públicas de carinho e amor, no Orkut, podem influenciar na sociabilidade “física”.

A comunicação pressupõe a diferença. Não há comunicação na mesmidade. Quem comunica se diferencia e entre o que ouve e o que fala se estabelece um elo. Um link de memória como o que está representado no Orkut no scrapbook. Ali está expressa a memória coletiva da comunicação entre seres que se diferenciam. Nas comunidades estão as expressões daqueles que se identificam, é um espaço para se entrar em sintonia, onde se afina o diapasão comum do sentido comunitário. Por isso nessas comunidades se não existir variação de elementos ou participantes o assunto se esgota. Dando-nos a impressão de consenso implícito. Já nas comunidades onde se observa a renovação constante de topics identificamos ou uma renovação de membros ou uma variação também do objeto de reunião cognitiva (tema).

A comunidade de estatísticas do Orkut (Orkut Statistics) (8) tem uma regularidade média de topics, pois seu objeto varia medianamente. Quando ocorrem novos fatos, a freqüência de topics aumenta proporcionalmente à relevância social do fato. O discurso de afirmação identitária no ambiente do Orkut transmite um panorama da percepção identitária do planeta, pessoas diversas arriscam-se diariamente expondo ao máximo os motivos de suas escolhas estéticas, políticas ou sociais, listando músicas, filmes, livros, comunidades e amigos.

No entanto, nem tudo é escolha. Muitas vezes somos forçados a pertencer a determinadas comunidades por “educação”. Quando um amigo cria uma comunidade e mesmo sem ser um assunto de seu interesse você se inscreve na mesma para prestigiar a iniciativa. Assim, mesmo no Orkut, qual o grau de interferência do olhar do outro sobre mim? Tudo o que fazemos no Orkut, fazemos por que o outro irá ver. Quando nos conectamos a sistemas como o Orkut, assumimos que não estamos sós. Esse é o princípio de toda conexão à rede, o reconhecimento de que alguém está lá do outro lado alimentando a conexão, seja através de conteúdos ou de interações. Alguém responde ao nosso chamado quando se clica em um link, não existe mais um vazio quando perguntamos algo. Se algo dá errado, uma página fora do ar, uma linha congestionada, percebemos novamente o vazio (notfound).

Tecnologias, como Orkut, estão aí para nos mostrar novamente a relevância da existência do outro. Sem o outro não há rede. O sentido da rede é a colaboração, sem essa consciência a rede perde sua dinâmica. A Inteligência Coletiva ou a sociedade de rede, o que virá inegavelmente será uma imensa força de agregação social. Os exclusivismos, os pequenos círculos de pertencimento enfraquecem suas fronteiras. A partir do momento em que todos estiverem conectados, todas as relações estarão explícitas, os seis graus serão públicos, a coerção solidária será mais forte que o isolacionismo segregacionista. Parece que, apesar de tudo, ainda buscamos uma saída para o caos que as sociedades urbanas criaram. Acredito que fenômenos como o Orkut representam nossa esperança nos rumos de uma sociedade mais justa e solidária.

Estamos, então, realizando a utopia da aldeia global, prenunciada por McLuhan? Qual são, dentro desse novo/velho mundo, os rumos de nossa identidade cultural? Se não separarmos mais cultura e natureza (9) a noção de identidade perde seu caráter de igualdade, A=A, pois aqui se abandona também o uso da referência (diga-se também o abandono da distinção entre significado e significante), em prol da noção de identidade como fluxo de consciência. O trânsito de nossa mente constrói o sentido da rede sócio-digital, somos o que trilhamos. A rede é como uma imagem fractal, cada um dos nós reflete o todo. A fragmentação do sentido é também distribuição do poder de significação entre elos de sentidos. Cada nó reflete em si mesmo o sentido global da rede. O sentido da conexão é a consciência do instante, pois é atualizando que sentimos e é quando nos conectamos que atualizamos o sentido. Atualizar é andar sobre uma piscina de signos. O mestre Heidegger já falava da potência civilizacional de um trecho caminhado dentro de uma floresta escura, um rastro que guia o homem entre seu passado e seu futuro. Ser é permanecer no sendo, estar em rede é ser múltiplo e o múltiplo mantém vivo o uno. Nossa identidade enquanto seres da consciência é fruto da visão dessa rede, dessa raiz (rizoma). Nietzsche já dizia que somos a ponte entre o animal e o super-homem (ou pós-humano), uma ponte é uma passagem, assim como um sentido.

O sentido da comunicação sempre espera pelo último signo para ser compreendido. Se fizéssemos a etnografia do convívio social através das janelas dos centros urbanos teríamos um interessante esqueleto do processo de socialização na Internet, pois em uma janela urbana nunca sabemos com certeza se alguém na infinidade de janelas da paisagem está agora a nos olhar. Como em um pan-óptico, existem apartamentos muito devassados, neles agimos ouvindo o censor interno que age de acordo com os olhos imaginários (ou não) da sociedade, um olhar que nos impõe um tipo de postura comportamental baseada numa silenciosa imagem de consenso quanto ao que é certo. Quando deveríamos sentir o que é certo em nossa própria consciência.

O que nossa antiga independência ética impunha era uma implacável crise de consciência pela eterna incapacidade de atender e conciliar os desígnios do coração com os da razão. Na ética de hoje vivemos em busca da sobrevivência da imagem que estimamos ser a nossa identidade na vida social.

O principal sistema operacional usado hoje no mundo também é uma janela, o windows. A janela é um dos principais signos espaciais da civilização, uma espaço entre dois ambientes distintos, o dentro e o fora. A experiência urbana nos ensina que podemos usar as janelas para ver como está o lado de fora de nossas casas. Através dela também vemos o que está dentro. Também usamos essa distinção entre dentro e fora para compreender os nossos pensamentos, que estão “dentro da cabeça”. Alguns até dizem que os olhos são as janelas da alma. Por analogia podemos dizer que a casa é um tipo de corpo, onde se entra. Como a casa do caramujo (sua concha), nossas casas também são extensões de nosso corpo, podendo ser inclusive extensões coletivas (por exemplo, as casas de família, ou mesmo as repúblicas). Usamos metáforas semelhantes para compreender os computadores e as mídias de comunicação. No uso de in e out nas tvs e nos videocassetes, por exemplo, mandamos imagens para dentro do vídeo (in) ou mandamos imagens para dentro da tv. Para conectar aparelhos diversos também precisamos sempre sair de um (out) para entrar em outro (in). Aqui percebemos mais claramente a diferença entre estar conectado e estar ligado (se pensarmos na gíria, muito usada pelos jovens “ligado” também aqui é estar em atenção, pronto para a ação, diferente de conectado ou “antenado”, ou seja, quem transita por informações e conceitos). A conexão é mais percebida espacialmente, “entro” nos sites, “saio” das salas de bate-papo, etc.

Superando, então, a oposição entre cultura e natureza, podemos desconsiderar também a oposição entre artificial e natural. Assim podemos até humanizar as máquinas, amando-as como outrora amávamos brinquedos. Conviver com artefatos é a própria essência da idéia de cultura, cultivar a terra, alterá-la. Na etnicidade digital, a rede é entendida como uma extensão de nossa consciência. Homens e animais interagem, com outros corpos orgânicos ou não, no intuito de uma ação ou significação específica. Com uma pedra posso cortar, moer ou escrever. Um João-de-barro molda o barro para a confecção de seu ninho, símios usam ferramentas, o castor constrói represas. Não existe uma distinção conceitual profunda entre, por exemplo, uma pedra lascada e um palm-top. As transformações do imaginário humano são espirais semânticas, não por acaso Lao Tse e Heráclito reúnem a totalidade dos sentidos na universalidade da unidade.

Qual é o valor social da verdade instituída? Como podemos pluralizar essa verdade? Como criar o espaço em nossa sociedade, para a coexistência de diversos paradigmas? Sem excluir nenhuma negação e carinhosamente re-incluindo o terceiro excluído. Compreendendo, assim, todas as possibilidades do pensamento como reflexos sociais da sociedade. Sem relativismos, mas pela intensificação das relações humanas. Reconhecendo o outro como bem supremo de nós mesmos. Talvez, assim, dê para transformar toda forma de preconceito em apenas um, natural e saudável, instante de estranheza que não dura mais que alguns segundos, como uma nuvem branca, ou negra, enevoando por cima de nossas cabeças.

A relação com a natureza não traz nenhuma ambição de precisão, esse estudo sobre a etnicidade na rede digital aposta numa transformação em curso. A etnicidade no mundo real sofre fortes abalos em sua base epistemológica. No entanto parece que no espaço semântico da rede digital, o ciberespaço, a etnicidade ressurge. Longe do paradoxo de sua origem histórica, as etnias representadas na rede reafirmam sem receios sua pureza e permanência. Na rede podemos realizar o desejo de ser, assumimos não somente o que somos, mas o que queremos ser. No convívio face a face somos principalmente aquilo que querem que sejamos, nossa identidade no mundo real depende do olhar do outro. Assim, para ser reconhecido como integrante de um grupo identitário, devo dialogar com os símbolos de identificação relacionados a esse grupo, sejam eles fenotípicos ou estéticos.

Na rede trocamos o etnocentrismo pelo etnodescentrismo, ou seja, o pertencimento identitário não é mais determinado pela coexistência geográfica. No entanto, a delimitação espaço/étnica, a representação do que se é pelo onde se está e o regionalismo restritivo dos países do chamado Primeiro Mundo se mantêm através da ignorância da diversidade do mundo. Se eu assisto CNN, eles nem sequer conhecem a existência da TV GLOBO. Ou seja, o sujeito do chamado Terceiro Mundo, nós por acaso brasileiros, seja lá qual caso for, somos ironicamente mais informados que qualquer sujeito do chamado Primeiro Mundo. Nós conhecemos a eles e a nós mesmos, enquanto que o sujeito do Primeiro Mundo só conhece a si mesmo, pois só consome a informação que ele mesmo produz. Não vale aqui a versão estereotipada, pois o estereótipo anula o diálogo com a cegueira do preconcebido conceito.

O fenômeno da Internet aparece como um símbolo absoluto da distância entre nossas identidades, o espaço menor que zero. Vivemos o mesmo mundo desde de que o mundo é mundo, mas isso só conseguimos perceber quando deixamos de lado aquilo que pensamos ser nós mesmos. A identidade é um fetiche natural, precisamos dela para construir casas, para assistir balé e para desmontar as peças do imenso quebra-cabeça que vemos no espelho. A possibilidade de reconstrução identitária que o ciberespaço oferece é a deixa que nosso personagem, na trama da convivência, esperava para sua própria desconstrução.

A máquina mais antiga que o homem criou é o próprio homem – enquanto descobríamos as ferramentas das mãos, já usávamos as ferramentas dos pés. Somos a máquina vital, vivemos de “pilha” (10). “Pilha” é um conceito que me ajuda a entender porque precisamos teorizar sobre tudo, pois o sentido da teoria é ser consumida. Quando consumimos teoria alimentamos nossos sonhos. Não podemos viver sem esse motor, sem essa energia nossa engrenagem cessa o movimento (e esse sem dúvida é o belo resultado de tudo isso).

Heidegger (cf. HEIDEGGER, 1977) espreitava o conhecimento de ser no movimento fortuito das folhas ao longo de um caminho no mato. Conhecer o lugar é conhecer o caminho que o ser percorre para ser. Isso nos leva ao conhecimento do ser, ser sendo. Mas então como permaneço sendo e não sou? Não pense e será. Pensar é re-apresentação do mesmo, é re-interpretar o que sempre é. O caminho deixa de ser caminho quando tentamos limitá-lo. O pensar só tem sentido se for livre para trilhar a si mesmo, valer-se de sua própria autopoiese.

O Universal Híbrido

one race, one world (11), é assim o slogan da revista virtual BLED (12). Ela e outras, como a Mavin (13), são revistas que tematizam a misturas de raças, ou melhor, a fusão das raças e o fim das raças. Organizações como a SWIRLinc (14) promovem o intercâmbio e reafirmam aquela que parece ser a identidade do futuro. a mestiçagem. Se no próprio Alcorão já estava escrito a união de todas as tribos, sem diferenças de raças, porque ainda assim temos hoje o acirramento das diferenças? Segundo Said, a atual efervescência das identidades é fruto do período colonial, onde o colonizado se viu como diferença, justificada pela ambição do ocidente colonizador. A grande questão é: como seremos “uma raça, um mundo”? Trabalho com a hipótese de que o desconhecimento e a exotização acabam sendo ferramentas de reafirmação das diferenças. As novas tecnologias de comunicação podem, ao invés disso, servir de ferramentas de reaproximação, entendimento e reconhecimento entre povos e culturas aparentemente díspares. A divulgação e compartilhamento da produção artística através dos mecanismos de trocas de arquivos como Kaaza, Morpheu, etc. permitem inclusive o aprimoramento de produções híbridas.

A Internet, por ser um espaço virtualizado, permite a etnicidade se atualizar. No mundo físico assumir uma identidade étnica restringe a participação através do compartilhamento de signos físicos (fenotípicos), ou comportamentais, o que muitas vezes gera algum tipo de desconforto, pois reveste o sujeito da participação étnica com o estigma, que é justamente o que ele está combatendo. Assim, se estivéssemos na época da Segunda Guerra poderíamos dizer que para os judeus o estigma de participação era a estrela de David presa no braço. Para os negros, a pele e o cabelo. Para os mulçumanos, as roupas e os hábitos. Entretanto, na Internet, estes grupos étnicos se mantém, mas nada garante que seus participantes precisem dos elementos físicos para a participação. O que parece provável é que no ciberespaço o pertencimento étnico depende apenas do querer ser, seja esse querer apenas semântico ou físico.

Como vimos, o ciberespaço fomenta uma nova identidade étnica, mas esta ainda não é consciente. A Internet, como território híbrido e policêntrico, pode reunir em suas teias as mais diversas facetas da identidade étnica da humanidade, sejam grupos essencialistas ou não. No plano microcósmico, a individualidade destes grupos se mantém, mas dentro de uma perspectiva macro somem as características específicas deixando transparecer ao invés disto a imagem fragmentária de uma cultura global virtual. As transformações que esta perspectiva traz para a crescente sociedade de rede são, ao que parece, uma radical transformação do modo como o indivíduo se percebe, hoje, enquanto participante de uma cultura local.

A possibilidade de participação e contribuição efetiva nesse processo que a Internet oferece são o diferencial de seu impacto, quando comparamos a conjuntura de hoje com a de tempos atrás quando a tv e o rádio se expandiram pelo mundo. Nem a explosão da imprensa foi tão democrática quanto, ao que parece, será a explosão das redes digitais de comunicação pelo mundo contemporâneo. O sentido dos signos de nossa linguagem, que Wittgenstein (cf STANGL, 2001) localiza como sendo dado pelo contexto de seu uso, podia ser associado, e confundido, com o contexto geográfico e social. Assim o local de emissão, de alguma forma, dizia algo do signo. O seu nome, sua origem e seu remetente eram suas identificações, mas parece que no paradigma cognitivo da sociedade de rede, o sentido, como diz Lévy (cf. LÉVY, 2000), tornou-se polissêmico, pois não podemos mais determinar sua origem, seu remetente. A sua origem agora passa a ser o momento em que é lido, o seu sentido, então, pode ser o que um acaso determinar.

Bibliografia

HEIDEGGER, M. O Caminho do Campo. Petrópolis: Vozes, 1977.

LÉVY, Pierre. A Internet e a Crise do Sentido. In: PELLANDA, Nize Maria Campos e PELLANDA, Eduardo Campos. Ciberespaço: Um Hipertexto com Pierre Lávy. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000.

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem (1964).
São Paulo: Cultrix, 2001.

STANGL, André. Wittgenstein e a Terapia Filosófica (2001).

notas

* agradeço a preciosa orientação do Prof. Gottfried Stockinger

2 cf. STANGL, André. E-tno: a etnicidade digital. Dissertação, Facom,/ufba, 2004.

3 As cotas pretendem um tratamento diferenciado para os grupos étnicos historicamente desfavorecidos. A polêmica em torno de sua adoção é principalmente quantos aos critérios de inclusão. Cor, fenótipo, etnia ou classe social? Faremos algumas considerações sobre o tema mais a frente.

4 Nas análises que se seguem não incluímos as representações contidas nos perfis (profiles) dos sujeitos, pois o que tentamos analisar é o funcionamento dos discursos afirmativos no plano social. É claro que seria psicanaliticamente interessante cruzá-lo com suas auto-representações. Quem sabe em outro trabalho?

5 http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=40260&sid=3269242664240091502

6 Anti-cotas para negros.

7 http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=519712

8 http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=34264

9 Artificial ou natural, sujeito ou objeto, real ou virtual, dicotomias cognitivas.

10 Gíria muito usada na Bahia que significa tanto o “empilhamento” ou acúmulo de informação quanto o alimento dos seres sem vida ou autômatos: “robô é que come pilha”, “bla-bla demais é pilha”. McLuhan defendia que: “O estudante dos meios de comunicação não apenas deve ter em conta a gíria, como um guia para a percepção em transformação, mas também estudar esses meios enquanto introdutores de novos hábitos de percepção.” (MCLUHAN, 1964:10)

11 Uma raça, um mundo.

12 http://www.blendzine.com/

13 http://www.mavin.net/

14 http://groups.yahoo.com/group/SWIRLinc/

publicado como:

STANGL, Andre. Etnodescentrismo: a construção digital da identidade. CD-rom, II Enecult. Salvador, Bahia, 2006.  Disponível em http://www.cult.ufba.br/enecul2006/andre_stangl.pdf

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Um comentário sobre “Etnodescentrismo

  1. Ayraon de Castro disse:

    Prezado Stangl,

    A pouco li o texto de titulo Etnodescentrismo: A Construção Digital da Identidade, de sua autoria.

    No texto, o senhor tange afirmacoes que, talvez motivado pela falta de referencia bibliografica, ou mesmo desconhecimento do que pesa a questao racial em nosso pais; me causaram constrangimento. A utilizacao de, seja la qual for, minhas palavras aquem de qualquer autorizacao, por si so, ja valeria o embaraco. Porem, indo fundo e descontextualizando os discursos e demonstrando um claro vies desfavoravel (vies esse que basta passar um olhar no texto ja podemos dizer, dado a “cara de anjo” pintada na Anti-cotas para Brancos, e aos “facinoras racistas” que demarcou os frenquentadores da 4P). Bom, em se tratando de olhar… sim, o olhar e o sentido onde firmamos a sociedade. Segue referencia para o seu “preconceito de cego”. Talvez o ajude.

    The subtle transmission of race bias via televised nonverbal behavior.
    Weisbuch M, Pauker K, Ambady N.

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