Heidegger e o Questionar

O Ser? eis a Questão: O Questionar para Heidegger (1999)*
Andre Stangl

Tentaremos aqui, entender um pouco mais o que é o questionar no pensamento heideggeriano. Nos limitaremos a buscar referências sobre o questionar em dois de seus textos, a saber, a conferência Que é Isto – a Filosofia? (1955) e a conferência O Fim da Filosofia e A Tarefa do Pensamento (1966), mas antes precisaremos entender onde se insere, no pensamento de Heidegger a importância do questionar. Assim, primeiro revisaremos alguns de seus conceitos centrais, mesmo sabendo das limitações que a brevidade de nossas reflexões impõe, arriscaremos conjeturar algumas relações entre o pensar e o questionar sobre o ser no pensamento heideggeriano.

Heidegger, na conferência Que é Isto – a Filosofia?, questiona sobre a ‘questão’ que empresta um título a sua conferência: “A questão: que é filosofia? Não é uma questão que uma espécie de conhecimento se coloca a si mesmo (filosofia da filosofia). A questão também não é de cunho histórico; não se interessa em resolver como começou e se desenvolveu aquilo que se chama ‘filosofia’. A questão é carregada de historicidade, é historial, quer dizer, carrega em si um destino, nosso destino. Ainda mais: ela não é ‘uma’, ela é a questão historial de nossa existência ocidental-européia.” (Heidegger, 1955:16).

Aqui, então, temos duas ‘questões’, uma: que é filosofia? E outra: que é questionar? A primeira é tratada diretamente, no texto, e, é considerada por Heidegger, como a questão historial central do pensamento ocidental. A segunda, não é diretamente tratada por ele, mas é demonstrada no decorrer da conferência em seu próprio discursar, ou seja, no uso que Heidegger faz do questionar para meditar sobre o que é a Filosofia.

“Perguntamos: que é isto….? Em grego isto é: tí estin. A questão relativa ao que algo seja permanece, todavia, multívoca. Podemos perguntar, por perguntar, por exemplo: que é aquilo lá longe? Obtemos então a resposta: uma árvore. A resposta consiste em darmos nome a uma coisa que não conhecemos exatamente.” (Ibid.: 15)

Na tradição cartesiana, o questionar-se, tem um papel norteador do pensamento. Assim, a certeza derivaria do inquestionável cogito ergo sun. Em Heidegger, observamos um deslocamento da certeza do sujeito, não sendo, então, este um pressuposto de validade do pensamento. No trabalho inicial de Heidegger a polêmica com Descartes e Kant, era tentar reverter a idéia que os dois faziam do que é o ser e as confusões criadas pelas imagens cartesianas e kantianas. O ser é um ente, e isto se dá a partir da compreensão do próprio ser como Sendo. Esta compreensão vem da presença do ser-no-mundo; é a partir desse ser-no-mundo que se abrem as possibilidades de ser no tempo e é mediante essa cotidianidade que o ser se re-vela.

O Sendo é a própria essência do ser, enquanto que o ser-no-mundo é a sua contingência, a identidade está na singularidade do próprio ser. O ser possuído pelo Sendo é capaz de compreender os outros entes como uma totalidade, porém, é através dos outros entes que o ser se vela enquanto ente. É a própria existência que vela o ser, o mundo é uma constituição necessária, mas não determina o ser. É na mundaneidade que o ser enquanto identidade confronta-se com a alteridade de outro ser. Desta divergência converge a unidade do Sendo que é o ser do ente. Todo ser é, assim, sempre alteridade, mesmo que seja na solidão ou no isolamento, pois a pre-sença é sempre compartilhada e estar no mundo é viver em con-vivência.

No pequeno trecho recolhido ao acaso: “Mas não é isto tudo mística infundada ou mitologia de má qualidade; em que todo caso funesto irracionalismo e negação da Ratio?” (Idem., 1966:81); trecho, este, extraído da conferência O Fim da Filosofia e A Tarefa do Pensamento, Heidegger abre, após todo um percurso discursivo, o espaço para uma severa crítica ao seu próprio discurso. Nesse sentindo, o questionar abre nos o ouvido a uma presença, a uma alteridade crítica, o que descentra o discurso centrado num sujeito.

Nesta dimensão do questionar, em Heidegger, o ato de recorrer a um questionar-se, enquanto se discorre, re-insere o dialogar no discorrido. Se enquanto falamos, afirmamos, segundo nossa tradição, algo sobre algo; ao nos questionarmos, sobre este algo, já não tentamos seu aprisionamento a uma imagem do sujeito que discorre e abrimo-nos à perspectiva diversa da alteridade que é o próprio discorrer.

Na conferência citada, por sinal, Heidegger que discorre sobre a tarefa do pensar, medita ou melhor questiona como se dá a presença na clareira, o apresentar-se da Alétheia, seu desvelamento que não seria o que chamamos, hoje simplesmente, o desocultamento da verdade; com a pergunta sobre o fim da Filosofia no momento presente, Heidegger pensa o ente metafísico como fundamento fundado na representação, pois a Filosofia e a Metafísica são o mesmo.

O caso é compreender esse fim como um momento de (re)união, onde se dá a metamorfose final da Filosofia. Não é seu esgotamento, pelo contrário, é seu desdobramento no mundo da técnica. A Ciência preenche o espaço vago pelo fim da Filosofia, mas é a Filosofia quem engendra esse preenchimento. Cada época da Filosofia teve sua importância própria, não é o caso quando se fala de seu fim, julgar o passado como um erro.

Com o fim da Filosofia, como se apresenta o pensar no presente? Este lugar surge através da meditação sobre o caminho percorrido pela Filosofia até aqui, ou seja do re-trilhar de sua história repensamos o seu fim. E este “todo mostra-se, primeiramente e apenas, em seu tornar-se” , essa ‘escuta’ não deve ser confundida, “tema e método tornam-se idênticos” (Ibid.: 75), mas não cabe ao homem fundar o novo. O pensamento deve deixar se transformar pelo próprio pensar, sem com isso cair num polo objetivo ou subjetivo. Deste diálogo surge a clareira que acolhe o pensamento e lhe revela o ser.

Para Heidegger, na linguagem de-mora o ser. O Sendo só pode se re-velar através da linguagem, se o pensamos ele ‘é’, pois o pensar aproxima o ser da Clareira (onde sua pre-sença contrapõe-se ao ente). A imagem de uma floresta assemelha-se à existência humana, vários são os caminhos possíveis para se chegar a uma Clareira. Os gregos falavam do ser com o ser e para o ser, pelo menos até racionalizarem o falar, associando a Alétheia à retidão argumentativa da lógica; a Alétheia originalmente recolhia a verdade transcendente do Sendo. A lógica da técnica prendeu a verdade ao ente e fala do ente como se do Sendo falasse.

A contemporaneidade enxerga a tudo com os olhos da técnica, o efeito conta mais que o sentido, há uma primazia da razão sobre o ser, que aliena o homem de seu sentido, “esta relação (o pertencer originário da palavra ao ser) permanece oculta sob o domínio da subjetividade que se apresenta como opinião pública” (Idem, 1973:349). A sociedade domina o significado possível de um termo e conduz seu uso a um fim específico, destruindo, assim, a essencialidade ontológica da língua. Os gregos nem ‘filosofia’ usavam para designar o pensar, a dimensão do agir ultrapassa as concepções de um tempo sobre si mesmo, as palavras quando perdem seu poder de ser, tornam-se técnicas, correspondem ao instituído (dicionários, gramáticas), não trazem mais ao homem a alteridade instauradora do real.

A consciência advém do fato da língua permitir identificar o ser como ente ‘ec-sistente’ (ser revelado) e dependente da linguagem. Mas o que entendemos como linguagem não nos leva ao ser, no máximo indica-nos o Caminho da Clareira. “A libertação da linguagem dos grilhões da Gramática e a abertura de um espaço essencial mais originário está reservado como tarefa para o pensar e poetizar”(Ibid., 1973:347), nossa relação com a linguagem deve ultra-subjetivar-se (ir além do sujeito), nada deve comandar a linguagem, pois na Clareira impera o inefável, ante o qual nossa língua e nossa identidade nada são.

Da relação entre o poetar e o pensar, ressurge a atenção com a linguagem que hospeda o Sendo. Quando Parmênides, em seu poema nos deixou a mesmidade do pensar e ser, o elo entre poetar e pensar ainda não havia sido esquecido. O pensamento ainda correspondia ao Sendo, a linguagem que velava re-velava e o mistério, ainda, era aceito no apelo da poesia e do pensamento. Sobre a presença clara e obscura da Alétheia disse Parmênides: “É necessário que tu experimentes tudo, tanto o ânimo intrépido (ou coração de pedra) da verdade bem redonda, como as aparências (ou opiniões) dos mortais, nas quais não há uma confiança desvelante (ou no desvelado)” (Parmênides, 1991:45).

No entanto porque a presença do desvelante não é sentida enquanto tal? Por que só as garantias que lhe representam a presença são notadas? A está questão Heidegger propõe como tarefa do pensar.

“(…) nem os poetas nem o uso ordinário da linguagem, nem mesmo a Filosofia, se vêem colocados diante da tarefa de questionar [1] em que medida a verdade, isto é, a retitude da enunciação, só permanece garantida no elemento da clareira da presença.” (Heidegger, 1966:80)

Heidegger retoma o percurso do pensar no ocidente e nos propõe algumas questões, sobre o esquecimento do ser, sobre a essência da linguagem e sobre a presença na clareira que se vela. Suas questões parecem nos conduzir por um caminho sem fim, em momento algum há um porque como causa, sua busca está no movimento, no trilhar, e não no chegar. Seu pensamento propõe o re-viver da tradição ocidental, não se limitando a uma historigrafia que estacione o passado no passado. Se há todo um niilismo tecnicista do mundo contemporâneo que almeja sempre o novo em detrimento do Mesmo, Heidegger o questionara não por não ter onde ir, mas por se recusar ao caminhar/pensar/ser.

“Se penetrarmos no sentido pleno e originário da questão: Que é isto – a filosofia? então nosso questionar encontrou, em sua proveniência historial, uma direção para nosso futuro historial. Encontramos um caminho. A questão mesma é um caminho.” (Ibid., 1955:16)

Qual seria então, a relação entre o pensar e o questionar? Se o caminhar é semelhante ao pensar, então, da mesmidade entre pensar e ser, surge a mesmidade entre o questionar e o ser? Não encontramos em Heidegger essa afirmação explicitada, mas a relação parece ser clara. Feita a devida distinção entre o questionar cartesiano e o questionar em Heidegger, podemos no segundo sentido, estabelecer uma relação mais profunda entre o questionar e o pensar.

Quando nos aproximamos da Alétheia, no caminho de seu desvelamento e revelamento, segundo Heidegger, nos aproximamos da clareira do ser. Este percurso se torna mais claro quando nos questionamos sobre o ser. O que sabemos sobre o ser? A esta pergunta não devemos buscar uma resposta, seu papel é pôr em movimento o nosso pensar. O questionar, em Heidegger, pode, então, ser considerado como ontológico. Se o entendermos com o fundamento fundado de pensar o ser como Sendo.

Mas então, estaria Heidegger retomando os passos de Socrátes? Se primeiro nos faz questionar nossas verdades, para em seguida desmonta-las, sem com isso pre-ocupar o ‘lugar’ vago, mas sim, para nós desafiar a tentar encontrar esse ‘lugar’ [2] ?

“Podemos, entretanto, questionar mais: que é aquilo que designamos ‘árvore’? com a questõa agora posta avançamos para a proximidade do tí estin grego. É aquela forma de questionar desenvolvida por Socrátes, Platão e Aristóteles. Estes perguntam, por exemplo: Que é isto – o belo? Que é isto – o conhecimento? Que é isto – a natureza? Que é isto – o movimento?” (Idem, 1955:15)

A ‘questão’, para Heidegger, “não é uma delimitação mais exata do que é”, mas sim como entendemos esse ‘que’ (tí), se em Platão este ‘que’ poderia ser entendido como idéa (Ibid.). Acreditamos que este “Mesmo” ‘que’, em Heidegger, passa a ser entendido como o Sendo de que falamos quando questionamos sobre o ser. A ‘maiêutica’ heideggeriana seria, então, um diálogo com a presença que se re-vela na clareira. Pois, não pensar o ser como Sendo, nos impede de ouvir e ver o que de originário persiste e se mantém no cotidiano. O cotidiano, continuamente extraordinário. O extraordinário no ordinário, como disse Heráclito.

Bibliografia:

HEIDEGGER, M. Que É Isto – A Filosofia? (1955). In: Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1989.
____________. O Fim da Filosofia e A Tarefa do Pensamento (1966). In: Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1989.
____________. Sobre o “Humanismo”: carta a Jean Beaufret, Paris. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
PARMÊNIDES et all. Os Pensadores Originários: Anaximandro, Parmênides e Heráclito. Trad. E.C.Leão. Petrópolis: Vozes, 1991.

Notas

[1] O negrito é nosso.
[2] O próprio Heidegger usa a metáfora de uma clareira quando evoca esse lugar.

*Agradeço aqui a preciosa inspiração das aulas da Profa. Nancy Mangabeira Unger.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s