Jackson de Figueiredo

O Pensamento de Jackson de Figueiredo (1999)
Andre Stangl

VIDA E OBRA

O filósofo sergipano, Jackson de Figueiredo*, trilhou o caminho da polêmica, sua filosofia foi sua luta pela revitalização da fé. Nascido em 09 de Outubro de1891, estudou entre 1904 e 1908 no colégio protestante Americano e no Ateneu Sergipano. Em 1908, passa a estudar em Maceió no Liceu Alagoano e publica seu primeiro livro de poesia – “Bater de Asas”. Em 1909, já matriculado na Faculdade de Direito, passa a viver em Salvador. Nesta época envolve-se com o grupo estudantil Nova Cruzada que promove algumas reuniões literárias e alguns atos públicos, como sua famosa polêmica com a polícia no Teatro Politeama e uma tentativa de expulsão dos jesuítas portugueses. Também nesta época conhece o escritor baiano Xavier Marques, sobre quem, mais tarde, Jackson escreveria seu terceiro livro – “Xavier Marques” (1913). Antes, ainda publica mais um livro de poesias “Zíngaro” (1910) e em 1918 publica outro: “Crepúsculo Interior”, neste à influência boêmia de Baudelaire e Antero de Quental, soma-se a influência agônica de Nietzsche e Pascal. Influências estas, vindas, de sua amizade com Pedro Kilkerry, poeta que seria redescoberto na década de 70 pelos concretistas, irmãos Campos.

Conclui o curso de Direito em 1913 e no ano seguinte se muda para o Rio de Janeiro. Em 1915 escreve um ensaio sobre o poeta sergipano Garcia Rosa e conhece o filósofo cearense Farias Brito que marcará profundamente seu formação intelectual e espiritual, e, no ano seguinte casará com a cunhada deste. Em 1919 conhece Alceu Amoroso Lima (o Tristão de Athayde ou Dr. Alceu) com quem inicia intensa correspondência, nesta época integra-se na vida sacramental da Igreja.

Em 21 publica “Humilhados e Luminosos”, dedicado a seu amigo Kilkerry e edita a revista A Ordem, em seguida funda o Centro Dom Vital, estas duas ferramentas acentuam sua fase mais polêmica, seus artigos também são publicados na Imprensa, Gazeta de Notícias e O Jornal; o material depois será reunido e publicado nas coletâneas: Em Defesa de Sergipe (1918), Boa Imprensa (1919), Do Nacionalismo na Hora Presente (1921), Afirmações (1921), A Reação do Bom Senso (1922), Literatura Reacionária (1924) e A Coluna de Fogo (1925). Ainda publica dois estudos literários: Auta de Souza (1924) e Durval de Morais e os Poetas de Nossa Senhora (1925).

Morre em 4 de Novembro de 1928, afogado na Barra da Tijuca, na Gruta da Imprensa, pescando num domingo de sol maravilhoso, diante do filho e de um amigo. Deixa duas obras póstumas: Aevum (1932) que significa “o tempo dos anjos”, um romance semi-autobiográfico e Correspondências (1946) que reúne as cartas que escreveu a Alceu entre outros. Sua obra filosófica, propriamente dita, se resume a três livros: Algumas Reflexões Sôbre a Filosofia de Farias Brito (1916), A Questão Social na Filosofia de Farias Brito (1919), e, seu principal livro, Pascal e a Inquietação Moderna (1922).

FILOSOFIA E VIDA

O pensamento de Jackson e sua conversão ao catolicismo estão imbricados à sua juventude boêmia e poética, niilista e anarquista. Nesta época era a poesia que lhe servia de linguagem, e para seus pensamentos de então, o mundo parecia um triste caos. Em uma entrevista Alceu Amoroso da Lima, comenta:

“não saber exatamente a linha anarquista adotada por Jackson, mas conta que um amigo comum lhe disse certa ocasião que encontrou Jackson e este carregava um livro chamado The Unique Man and his Own, de Max Stirner, ‘que foi um anarquista violento’ (…) Jackson era portador de um nacionalismo intrínseco, violento, bravo…”[1].

Era a época do “mal-do-século”, Freud e Nietzsche; a rebordosa da culpa cristã importando-se e sofrendo pelo ‘porque’ das coisas. Era o choque entre o poder do indivíduo e a felicidade da coletividade:

“Quem me dera ser nuvem, quem me dera/Ser qualquer coisa, indiferente mesmo…/Ser pedra, pó ou flor da primavera,/Não cogitar do fim e andar a esmo…”[2].

No Brasil o desesperança elegeu o Materialismo do Positivismo e do Comunismo, preocupava a Jackson que o fim da transcendência matasse a esperança, pois o legado do cristianismo estava sufocado pela arte. Os modernistas ironizaram e relativizavam o Positivismo e o Catolicismo abrindo o diálogo com as tradições populares de origem africana e indígena: antropofagia e mestiçagem (Oswlad de Andrade, Mário de Andrade, Gilberto Freire, etc.). O Catolicismo brasileiro ainda estava enfraquecido após a nuvem negra do romantismo (Junqueira Freire, Álvares de Azevedo, Castro Alves, etc.). O niilismo nietzscheano era a única forma ocidental e racional de chegar a Deus, só que o matava para isso; a frase “Deus está morto”, fala de um Deus que existiu.

O romantismo niilista de Jackson negava o racionalismo, o paradoxo, o individualismo, o ego, o livre arbítrio. Após a conversão suas posições não mudam, mas a forma de expor seu pensamento muda; abraçando o dogma católico, Jackson continuava negando o egocentrismo de sua época, como diz no prefácio a “Cartas à Gente Nova” (1924), de Nestor Vítor:

“troquei toda veleiadde de construir por mim só ou com ajuda deste ou daquele grande espírito uma filosofia da ação. Preferi ser o humilde soldado que sou da Igreja Católica, e me sinto tão orgulhoso disto como se fora um rei”[3]

Jackson era antimodernista e contra o liberalismo, anti-democrático e hierárquico, converteu-se por pragmatismo, a ciência lhe parecia perigosa e a fé, para ele, não precisava de adornos humanos, a qualidade da moral está na ação e não na justificativa racional da ação. O Comunismo queria paz através da guerra, o Positivismo queria ordem através do progresso, o Catolicismo, para Jackson, deveria lutar (guerra) pela lei (ordem) divina onde a paz seria o supremo progresso. Jackson achava que “o mal-do século” era fruto da pretensão racional e a felicidade só seria encontrada quando a mente descansasse.

“não acredito numa ciência sobre a essência de Deus. Penso, como Jacobi, que o que imaginamos conhecer do infinito não tem ‘logicamnete’ nenhum valor”[4].

Segundo Guilhermo Francovivh, Jackson foi uma das mais fortes oposições ao intelectualismo no pensamento brasileiro. Podemos dizer que seu pragmatismo católico de inspiração pascalina e profundamente nacionalista, defendia a essência religiosa da alma brasileira da desilusão importada de alguns de nossos acadêmicos. Em “Algumas Reflexões Sobre a Filosofia de Farias Brito”, Jackson desafiava o pensamento relativista da época, de forma apaixonada e pouco metódica, mas mesmo assim erudita. Foi somente em “Pascal e a Inquietação Moderna” que teve o tempo suficiente para burilar sua crítica à modernidade:

“A liberdade humana tal como na obra de Pascal fica reduzida teoricamente a quase nada, mas esta mesma teoria reserva um cantinho de onde jorra a luz de uma outra realidade, amoral, cuja força toda reside no amor…”[5].

A força da argumentação de Jackson estava em demonstrar como o extremo da dúvida pode gerar a certeza tranquila da fé, ou seja da angústia de Pascal vem a força de sua esperança.

“Pascal é apontado como o avô gigante dos modernos individualistas. Mas é preciso não esquecer que ele, se o foi, pelo menos, deu ao individualismo uma solução digna do homem como ser moral, isto é: fazer-se consciente para negar-se a si mesmo, reconhecendo que é muito em face do universo, e nada diante de Deus. O individualismo será, assim, a demonstração por absurdo dos verdadeiros fins da nossa vida: conhecimento e caridade, de que a religião é a prática mais alta. O homem, queira ou não queira, é um escravo da lógica”[6].

Alceu Amaroso Lima foi provalvelmente o mais importante e conhecido intelectual da renovação católica, e, após a morte de Jackson assume a liderança do Centro Dom Vital. Ele sempre que falava de seu longo processo de conversão, citava as cartas que trocou com Jackson e o papel que elas tiveram no sentido de lhe provocar uma reação (depois foram publicadas como Correspondências). Alceu, que também foi um dos mais conhecidos críticos literários do país, era em tudo oposto a Jackson, carioca, praieiro, modernista e portanto “levado naturalmente a indiferença”; enquanto Jackson era nordestino, sertanejo e reacionário, “um homem do sim e do não, pronto a morrer por seus ideais”[7]. As cartas começaram superficiais, discutiam ‘politicagem’, mas logo ficou claro que precisavam ir além:

“então nossas cartas se voltaram para a razão de ser da vida, as origens do mundo, a existência ou não de Deus, o papel da Igreja, as posições políticas como consequência de posições filosóficas e as posições filosóficas como consequência de posições transcendentais, isto é, religiosas”[8].

Alceu considerava a conversão, de Jackson, violenta, diferente da sua que foi lenta; a de Jackson foi fruto da agonia:

“Só compreendo completamente meu cristianismo quando estou só. Principio por ter então uma grande pena de mim (….), e acabo por ter pena de todos nós, pobres homens, divididos, vaidosos da divisão, amantes do próprio orgulho e, todos, como dizia o velho Machado, todos afinal…. pontuais na sepultura….”[9].

A obra de Jackson, a primeira vista parece incoerente e de fato algumas contradições e exageros recheiam suas páginas, mas se na forma existem hesitações o mesmo não se pode dizer quanto ao alvo de suas críticas: o egoísmo moderno que em nome de uma fraca razão fecha os olhos e ignora o sofrimento alheio. Então porque, Jackson assume posições tão anti-revolucionarias, porque uma “coluna de fogo” que preservasse Brasil dos ‘destrutivos’ ideais revolucionários? Segundo Jackson, a mudança deveria ser nas consciências, pois em nada mudaria o mundo, se o reconhecimento do princípio gerador de tudo ainda fosse uma polêmica. A diferença entre aceitar a crença no dogma católico ou aceitar a crença científica, é o fundo moral sobre o qual se projetam nossas ações. O receio de Jackson quanto ao comunismo da época estava na confusão moral de seus adeptos, se olharmos prospectivamente a crítica de Gabeira nos anos 70 ao sectarismo dos militantes, ajuda nos a entender a posição de Jackson. De resto, se considerarmos que o Dr. Alceu, o principal continuador do trabalho ‘apostólico’ de Jackson, futuramente irá identificar-se com a Teologia da Libertação, assim, o próprio Jackson, tivesse sobrevivido, talvez também se juntasse a essa cruzada. Quem sabe?

BIBLIOGRAFIA

FIGUEIREDO, Jackson de. Trechos escolhidos. Rio de Janeiro: AGIR, 1958.
FRANCOVICH, G. Filósofos Brasileiros. Rio de Janeiro: Presença, 1979.
LIMA, Alceu Amoroso. Memorando dos 90. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

Notas
[1] LIMA, 1984:426
[2] FIGUEIREDO, 1958:10
[3] Ibid. p.6
[4] FRANCOVICH, 1979:80.
[5] FIGUEIREDO, 1958:45
[6] Ibid. 46
[7] LIMA, 1984:359
[8] Ibid. p. 360
[9] FIGUEIREDO, 1958:101

*Jackson era irmão de meu avó Rubens de Figueiredo.

6 comentários sobre “Jackson de Figueiredo

  1. Jackson de Figueiredo Neto disse:

    Grata surpresa encontrá-lo ao navegar pelos mares da internet a procura de textos de Jackson e, num breve momento, deparar-me com uma nota de pé de página que me pegou com alegre surpresa.
    Muito prazer. Seu primo, Jackson de Figueiredo Neto

  2. astangl disse:

    Que bom primo Jackson, o prazer é meu!
    Espero que tenha gostado do texto, esse é dos tempos de estudante.
    abraços Andre

  3. Ma. Helena V de Figueiredo disse:

    Vovô Jackson é assunto sempre atual… e por isso nos traz estas boas surpresas de podermos descobrir e conhecer (com maior facilidade, claro, pelos meios da internet) nossos tantos primos e parentes espalhados nos vários cantos deste país. Grata pelo texto, André.

  4. Gostei da postagem. Sou sergipano e graduando em História. Pretendo em minha monografa abordar o grande Jackson de Figueiredo. Pelo que entendi além de bem conhecedores vocês são parentes dele… Legal! Decobri uns aqui em Aracaju também parentes dele…

  5. carolina disse:

    Gostei do texto.
    Sugiro que seja complementada as informações sobre Jackson Figueiredo na Wikipédia.

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