Policentrismo Cultural

O Policentrismo Cultural nas Cidades Digitais (2002)*
Andre Stangl

Sobre as cidades, tudo já se disse, e, no entanto, nada se compara a (de)morar-se nelas. Um pedaço de rua, uma lembrança, uma janela, um dia. Cada coisa na vida de uma cidade tem um sentido próprio, somos sua substância, nossa rotina corre em suas veias. Assim, quando algo muda em nosso olhar, desloca-se também o que vemos. E se a forma como vemos a cidade muda, isso sobre ela se reflete. Uma nova perspectiva é como uma nova avenida. Se nosso olhar sofre hoje uma transformação com a mudança nos sistemas de comunicação da sociedade contemporânea, o objeto de nosso olhar acompanha essa reconfiguração. Revelando-se então, num novo instante, um outro tempo e um outro espaço. A cidade que hoje vemos, com os olhos de quem se vê numa rede que nos une a todos e ao todo, é a cidade de quem já não tem uma cidade, mas todas as cidades.

A cidade mosaico se redescobre como fluxo, em sua nova estrutura não existe mais um centro, mas multicentros. Com o crescimento das redes digitais nas grandes cidades urbanas, o consumo se descentraliza, mas em contrapartida o capital se concentra. William Mitchell, pesquisador do MIT, observa um paradoxo no sistema de serviços via rede digital, ela gera simultaneamente tendências descentralizadoras e recentralizadoras. Podendo quebrar assim o elo local entre a demanda e a oferta de serviços e fortalecendo ainda mais as grandes prestadoras de serviços dos centros comerciais (cf. MITCHELL , 2000). O paradoxo dessa concentração é que ela não depende mais do lugar. Estando esse mesmo capital em permanente fluxo, somente as corporações que detêm esse capital ainda lucram com as fronteiras cambiais. As fronteiras físicas também ainda servem para manter o “bem estar social” de alguns países, evitando que os mesmos sejam invadidos por uma enorme massa de imigrantes de países menos desenvolvidos. Mas, com os sistemas de comunicação via redes digitais, a fronteira simbólica das diferenças culturais esta cada vez mais tênue.

As cidades digitais, ou ciber-cidades, segundo André Lemos, seriam “construções digitais de cidades reais, na tentativa de aproveitar o potencial das novas tecnologias de comunicação para lutar contra a exclusão social, regenerar o espaço público e promover a apropriação social das novas tecnologias” (LEMOS, 2002). E apesar de ainda não existir um padrão definido, pode-se dizer que os principais objetivos de uma cidade digital seriam: “Estabelecer um espaço de exercício da cidadania; permitir a manifestação política e cultural; possibilitar o contato e a comunicação entre a administração pública e os cidadãos; criar um acervo de informações diferentes sobre a cidade e fortalecer os laços sociais entre os moradores.” (MORAES, 2002). Assim, pelo menos em projeto, as cidades digitais pretendem também comportar a diversidade cultural de suas correspondentes no mundo físico.

A grande questão é se saberemos usar as potencialidades das redes digitais para ajudar a melhorar a vida nas cidades. Ou elas serão apenas mais um meio a serviço dos interesses do capital privado? Segundo McDowell, as relações entre a economia, a cultura, a tecnologia e a política de desenvolvimento de diferentes estâncias geográficas têm confundido os pesquisadores e os teóricos das ciências sociais, especialmente durante o processo de globalização dos últimos 30 anos (cf. MCDOWELL, 2000). A distinção entre global e local foi profundamente abalada pela progressiva expansão das redes de comunicação, surgindo então uma espécie de glocalização dos serviços de comunicação. Ou seja, a interdependência dos processos locais e globais de prestação de serviços e de desenvolvimento de novas tecnologias de telecomunicação. A complexidade desse fenômeno está no fato de que, por um lado, processos similares de transformação local ocorrem no mundo inteiro, mas por outro as particularidades de cada local influem no processo como um todo. Para McDowell, o termo ‘cidade mundial’ (world city) ilustra bem a tensão entre os aspectos globais e as particularidades locais do processo de globalização das redes de comunicação. A produção local, segundo ele, está sob o crivo da economia global e essa fase de transição pode ser considerada um tipo de produção pós-fordista, onde a acumulação de capital não é mais ancorada no patrimônio físico local da empresa, assumindo uma característica mais flexível e móvel. Segundo Manuel Castells:

“A maior transformação urbana de nosso tempo é a formação de megacidades. Estas são aglomerações de grandes dimensões (10 milhões de habitantes, às vezes mais, às vezes menos), que concentram o essencial do dinamismo econômico, tecnológico, social e cultural dos países e que estão conectadas entre si numa escala global. (…) Não há cidades globais. Toda grande cidade é algo global, em proporções diferentes. E muito local ao mesmo tempo. A maioria dos bairros e pessoas vive vidas locais. O que é global são as funções direcionais da cidade. (…) A cidade global não é concreta, é uma rede interterritorial de espaços locais conectados em uma rede global de capital e informação, onde estão Wall Street, a City de Londres, Ginza de Tóquio e a Avenida Paulista, entre outros.” (Castells, 1999)

Para Castells, o dilema não é a globalização em si, mas sim a inclusão, nesse processo, de todos os vetores sociais envolvidos. Sendo que essa questão não passa somente pela viabilização do acesso à tecnologia, mas também por uma melhoria da qualidade da comunicação entre os participantes dessa rede de relações. Participantes estes que muitas vezes convergem de tradições culturais diversas e que, na rede, encontram a possibilidade de experimentar uma nova identidade cultural, mas que por ser nova ainda confunde. Confusão (com + fusão) esta que está na base física das grandes metrópoles, com suas ruas e avenidas em permanente expansão, indo de lugar nenhum ao infinito. As redes digitais hoje também assumem a responsabilidade pela possibilidade de uma reconfiguração do espaço público, seja por servir de veículo da diversidade de opiniões, seja pelo potencial de otimização do tempo, seja pela aglutinação de comunidades com interesses em comum ou seja pela virtualização dos serviços. O crescimento das redes digitais já não pode ser ignorado no plano diretor das grandes cidades, mas resta saber como incorporá-lo.

Planejamento, reconfiguração e entropia urbana

Um dos problemas do urbanismo contemporâneo é não saber incorporar a demanda da própria cidade a seu planejamento. O urbanista deve aprender a escutar o que a cidade pede, pois de nada adianta impor uma reforma estrutural, se não existe vontade social que a acolha (cf. PULS, 2000). Em “Morte e Vida de Grandes Cidades” (1961), a urbanista Jane Jacobs desenvolve com bastante clareza sua crítica às escolas clássicas do urbanismo. Pioneiros como Ebenezer Howard (1850-1928) demonstravam desencanto com os rumos das grandes cidades (subúrbios, exclusão e poluição). Segundo ela, esse desencanto gerou tentativas frustradas de reformismo no planejamento urbano:

“Conjuntos habitacionais de baixa renda que se tornaram núcleos de delinquência, vandalismo e desesperança social generalizada, piores do que os cortiços que pretendiam substituir (…); centros cívicos evitados por todos, exceto desocupados (…); passeios públicos que vão do nada a lugar nenhum e nos quais não há gente passeando; vias públicas que evisceram as grandes cidades” (JACOBS citada por PULS, 2000)

Foi a época do planejamento urbano que separava a cidade em setores de acordo com suas funções (industrial, comercial ou residencial). Princípio este mantido por seus sucessores Le Corbusier (1887-1965) e Daniel Burnham (1846-1912). Segunda ela, esta vertente não enxergava a cidade como ela é, mas sim tentava projetar sobre ela o ideal de uma cidade perfeita.

“O erro desses planos reside precisamente na tentativa de separar cada uma das principais atividades (morar, administrar, produzir e distribuir bens e serviços), solapando assim o fundamento mesmo da vida urbana, que é a coexistência de funções diversas (porém complementares) num mesmo espaço social.” (Ibid.).

Para ela, a separação das funções provoca os engarrafamentos, dificulta o intercâmbio entre comércio e indústria, gera grandes espaços sem vida urbana e desumaniza a cidade. A questão então seria como ouvir o que a cidade pede. Como não desviá-la de seu próprio fluxo de crescimento e como ajudá-la a crescer sem excluir, sem poluir e sem morrer.

Michel Mitchell, em seu livro E-topia, demonstra que muitos dos aspectos da nova urbanidade que nasce com as redes digitais, já são visíveis. Para ele, são cinco as principais conseqüências do crescimento das redes digitais: a desmaterialização, a desmobilização, a personalização, as operações inteligentes e as transformações suaves (MITCHELL, 2000:147-55). A Desmaterialização (Dematerialization), para ele, é a desmaterialização dos processos de comunicação: ao invés de cartas e jornais feitos de papel, as informações circulam em bits, evitando o desgaste de recursos naturais, a poluição ambiental, etc. A virtualização de alguns espaços públicos, como por exemplo bancos, também ajuda na economia de energia elétrica e na transformação deste espaço numa nova área de convivência. A Desmobilização (Demobilization) é o gerenciamento econômico da necessidade de locomoção: podendo-se evitar o deslocamento também se evita os congestionamentos, o consumo de combustíveis, a perda de tempo, etc. Com a economia da presença, as pessoas têm mais tempo para caminhar pelas redondezas de sua casa e assim construir relações mais sólidas com vizinhos, por exemplo. A Personalização (Mass customization) é a sofisticação das possibilidades de personalização dos produtos de consumo. Um carro, por exemplo, já pode sair da fábrica com todos recursos que você escolher, evitando assim o desperdício da padronização. As Operações inteligentes (Intelligent operation) são os softwares de gerenciamento de espaços: em uma casa, por exemplo, ajuda a evitar desperdícios típicos, como luzes acesas sem necessidade, excesso de refrigeração ou aquecimento, vazamentos, etc. Os softwares de monitoramento em veículos podem evitar acidentes por descuidos mecânicos e até gastos com revisões fraudulentas. E as Transformações suaves (Soft transformation) são as transformações menos evidentes, portanto, mais discretas, causadas pela revolução digital. Por exemplo, a diminuição da poluição visual provocada por fios e postes, a redução do numero de mortes por acidentes com aviões e carros (já que estaremos em casa), etc.

A questão que então hoje se coloca é qual o papel do planejamento urbano no sentido de aproveitar as potencialidades do sistema de comunicações por redes digitais. Como democratizá-la, como expandi-la sem burocratizá-la, como torná-la ágil sem torná-la inacessível, como desenvolvê-la sem desumanizá-la e principalmente como incorporá-la no desenvolvimento urbano.

“A sociedade de informação é uma sociedade em que as fontes de poder e riqueza dependem da capacidade de geração de conhecimento e processamento de informação. Capacidade que depende da geração da interação entre recursos humanos, infra-estrutura tecnológica e inovação organizacional e estrutural. Nesse sentido, todas as sociedades estão conectadas globalmente em redes de informação que condicionam toda a sua dinâmica. Mas há sociedades majoritariamente conectadas e outras em que somente um pólo dinâmico pertence a essas redes globais informacionais” (Castells, 1999)

A LT[1] de 1996 gerou uma ampla discussão sobre o papel dos subsídios estatais: não se pode duvidar que estes são de fundamental importância no desenvolvimento social das telecomunicações, já que o mercado por si só não cuida da democratização do acesso às redes de comunicação. Segundo McDowell, entre os diversos dilemas gerados pelo processo de mundialização das redes de comunicação estão as questões relacionadas à natureza dos deveres, ao direito de propriedade e à jurisdição local (McDowell, 2000:120). O problema central para McDowell é se as vias informacionais (right-of-way) devem ter seu acesso assegurado ao público. Se sim, como fica o setor privado? Estas vias, então, são propriedade do poder público que tem que agir de acordo com o interesse público, mesmo que isso signifique prejudicar o setor privado? As vias informacionais dependem de altos investimentos para o desenvolvimento de seu suporte físico, o que obriga o setor privado das telecomunicações a uma negociação com o governo local e vice-versa. Mas o que se observa é que a LT 96 privilegiou as grandes empresas de comunicação que podem então estender suas malhas onde lhes interessa, englobando as pequenas empresas locais e redirecionando o fluxo de produção e consumo para seus cofres virtuais.

Instituições como a UNESCO acreditam que as redes digitais podem ser ferramentas de aproximação e convívio entre cidadãos. No III Congresso Mundial de Redes Ciudadanas de La Era Digital se discutiu o papel que estas redes podem ter numa transformação das relações cívicas nas cidades. Hoje, com o auxílio das redes telemáticas, o cidadão pode ter uma maior participação nos rumos de sua cidade. Tornando-se este um espaço para o exercício democrático, dando voz a quem antes não era ouvido.

Policentrismo cultural

Segundo o psicólogo James Hillman, é justamente “no meio de muitos, apertado nos estádios, a individualidade fundida com milhares de espectadores, que estou mais na cidade e sou mais da cidade, na raiz de seu significado, do que quando estou só em meu apartamento atrás de portas trancadas.” (HILLMAN, 1993:75). Segundo ele, é caminhando nas ruas, vendo e sendo visto que definimos nossa identidade e nossa relação com o lugar. A própria etimologia da palavra grega polis expressa a idéia de multiplicidade, aglomeração, multidão. Está na raiz do conceito grego de cidade a aglomeração urbana, a diversidade, o outro que encontramos sem esperar no meio da rua. Talvez o conceito de cidade mude, se cada vez menos pessoas saírem as ruas (como aliás já ocorre em algumas cidades projetadas, principalmente, para a locomoção com carros) e será nas redes que este encontro com o outro se tornará mais provável. No caso das populações urbanas, já é considerável o número de pessoas que usam os serviços disponibilizados pelas redes telemáticas. Mas isso não significa que as formas tradicionais de convivência serão substituídas ao se incorporar a seus antigos hábitos esse novo modelo de circulação e atuação. Pelo contrário, segundo Mitchell, a economia da presença pode até reforçar a sociabilidade, pois agora se tem mais opções quanto a melhor forma de se gastar o tempo (cf. MITCHELL, 2000). Podendo-se assim otimizar nossas rotinas de forma a usufruir de mais tempo para o convívio com familiares e vizinhos.

Numa nova sociabilidade menos fechada em si mesma, se antes havia guetos, no futuro podem existir cada vez mais misturas e as redes podem servir de facilitadoras dessa nova convivência. Segundo o historiador Jacques Le Goff, o homem das cidades terá que se preparar para a convivência com outras culturas.

“Agora temos consciência de que um dos grandes problemas do século 20 será o das relações entre as culturas, sendo este um dos aspectos de mais longo alcance daquilo a que se convencionou chamar globalização. Os movimentos migratórios e os contatos entre as culturas, um fato que começou no século 16, estão a ponto de se acelerar. Felizmente, as ondas migratórias são menos agressivas, menos guerreiras que no passado, mas podem chegar a gerar situações perigosas e dramáticas. Este será, sem dúvida alguma, um fenômeno essencial. E se quisermos solucionar esse problema, se quisermos evitar a incompreensão, a guerra, o genocídio, é preciso preparar os povos e as culturas para a única via possível de paz e justiça, que não é outra senão a da mestiçagem.” (LE GOFF, 1997).

Ainda segundo Le Goff, o desenvolvimento urbano hoje caminha para o policentrismo. Falando-se aqui principalmente de cidades européias, que originalmente tinham o centro bem definido, geralmente numa praça onde se situava também a catedral (LE GOFF, 1998:145). Hoje, cidades como Los Angeles já nascem sem centro. Autoras como Celeste Olalquiaga defendem que vivenciamos hoje uma sociabilidade pós-moderna, “a cultura urbana contemporânea é comparável a um altar, onde a lógica da organização é tudo menos homogênea, a saturação visual é obrigatória e a esfera pessoal é vivida como um pastiche de imagens fragmentadas vindas da cultura popular.” (OLALQUIAGA, 1998:73). Para Olalquiaga, as grandes cidades assemelham-se a mosaicos “onde os elementos se unem não para se dissolver, mas para, juntos, construir um panorama.” (Ibid., 115). A convivência só se torna possível porque os signos deixam de ser fixos, passando a ser recontextualizados numa resignificação constante. A identidade cultural pós-moderna é como um nó na imensa rede de interconexões sociais de uma cidade. Essa identidade, não sendo exclusiva, assimila suas novas possibilidades numa incessante miscigenação de sentidos e possibilidades.

“Uma parte substancial do atual debate sobre a condição pós-moderna da cultura contemporânea – se ela deve ser considerada anarquista ou totalitária – gira em torno dessa rearticulação do verbal pelo visual, pressupondo uma possível reconstituição da linguagem e, por extensão, da hierarquia de poder que ela acarreta. (…) e que uma tal subversão se origine de algo que num primeiro momento foi visto como uma ameaça – o estilhaçamento das referências perceptuais pela alta tecnologia.” (Ibid., 27).

Para Michel Maffesoli, “o ideal do poder é a imobilidade absoluta”, pois foi o sedentarismo que permitiu a configuração do Estado-Nação e do poder centralizado (MAFFESOLI, 2001:25). Segundo ele, vivemos hoje a potencialidade de reviver o nomadismo, seja ele no plano físico ou no plano semiológico das redes digitais. Podemos voltar à percepção do mundo como uma encruzilhada de fluxos de sentido. Esta jornada arquetípica, segundo ele, confunde-se com a interminável busca do si mesmo. Algo que somente a noção de alteridade e complementaridade pode ajudar a entender.

“O minitel e o avião, a ‘internet’e as diferentes redes eletrônicas, a televisão e as auto-estradas da informação, tudo isso, para o bem ou para o mal, permite viver, em tempo real e sobretudo coletivamente, experiências culturais, cientificas, sexuais, religiosas que são, justamente, o próprio da aventura existencial. As potencialidades do ‘ciberespaço’ estão longe de se esgotar, mas já testemunham o enriquecimento cultural que está sempre ligado à mobilidade, à circulação, quer sejam as do espírito, dos devaneios e até das fantasias, que tudo não deixa de induzir. Sendo de um lugar, o homem da tecnópolis não existe a não ser na relação (nas relações).” (Ibid., 30)

O futuro das cidades digitais é o futuro do desenvolvimento urbano. Cada ponto/ser atravessado pelas infovias de comunicação e sistemas de cognição compõe um elo fundamental na compreensão do mundo, o elo que se esperava na universalização (sem padronização) do saber. Este elo se concretiza com a Internet, uma raiz comum para a humanidade, um rizoma construído como se sob a ótica de uma árvore da genealogia do ser. Árvore esta onde estaria descrita a história da evolução das espécies, como viu Darwin.

A teoria do evolucionismo é uma das chaves para a compreensão da civilização ocidental. Com ela institui-se uma hierarquia gnoseológica calcada numa visão etnocêntrica do método científico que distinguia povos como mais civilizados (evoluídos) que outros. O que se questiona, disse muito bem Walter Benjamin, é a necessidade de um sentido exclusivo na interpretação do percurso histórico. Nossas memórias culturais são o conjunto de nossos crimes contra outras culturas, “nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie” (BENJAMIN, 1985:225). Um monumento de vitória, uma bandeira, ou mesmo, uma música podem ter sido os instrumentos da colonização cultural e formas sutis de aculturação. Mas o que Benjamin nos lembra é que quem atribui valor a determinados fatos históricos é sempre quem no passado venceu. A história dos vencidos é sublimada, e a identidade do vencedor, reafirmada nas datas históricas, nas estátuas, nos nomes de ruas e praças. O desenvolvimento da antropologia cultural trouxe outros insumos à narrativa historiográfica do homem moderno. Para alguns autores, essa relativização criou o que hoje se chama pós-moderno.

“O termo pós-modernismo pode ser entendido como algo que aponta para o processo de fragmentação cultural e para o colapso das hierarquias simbólicas que (…) ganha muito do seu ímpeto a partir da percepção de uma modificação do valor simbólico e do capital cultural do Ocidente, mais do que um direcionamento para um novo estágio de história, a ‘pós-modernidade’, a qual se baseia em um movimento desenvolvimentista da tradição e da modernidade, construído a partir da experiência ocidental. Este é, portanto um conceito importante, no qual o pós-modernismo aponta para a descentralização da cultura e a introdução de complexidade cultural.” (FEATHERSTONE, 1997:30-1).

Para além de uma visão desenvolvimentista, o atual estágio da civilização pode ser interpretado até como um retrocesso. É como se as regras do jogo da narrativa histórica tivessem sido mudadas. O que antes era visto como o sentido único e desejável do rumo histórico, a rua de mão única, hoje se tornou uma encruzilhada. A própria noção de tempo se transformou, o tempo hoje é um lugar.

Links urbanos

A expansão dos sistemas de comunicação por vias digitais reaqueceu a já tão desgastada fé na possibilidade de uma democracia social. A rede parece ser o suporte ideal para o exercício de uma nova cidadania, calcada na inclusão de todas as vozes. Os sistemas de comunicação assincrônico (e-mails, listas de discussão, etc.) permitem a manifestação das mais diversas opiniões, relembrando a antiga ágora grega, praça onde os cidadãos gregos discutiam os rumos de sua sociedade. A ágora digital estaria representada, ou melhor dizendo, estaria linkada nas cidades digitais.

Mas, apesar de todas as possibilidades que as cidades digitais abrem, ainda são poucas as experiências no Brasil que têm de fato alguma funcionalidade (cf. MORAES, 2002). Alguns projetos às vezes parecem esbarrar no desinteresse do governo local. Mas um fator que sem dúvida ainda prejudica a implementação de tais projetos, no caso do Brasil, é a dificuldade de acesso a tecnologia. Como se não bastassem as dificuldades estruturais, existe também uma hierarquia de problemas sociais no Brasil (saúde, educação, emprego, moradia, etc.) que empurra a questão do acesso as novas tecnologias de comunicação para o fim da fila.

Serviços como o “Salvador Atende[2]” parecem gotas num oceano de dificuldades. Mas podemos tomá-lo como um exemplo, dentre as diversas possibilidades da cidadania digital. O serviço é quase como uma urna de sugestões, mas oferece meios de se acompanhar o percurso de sua solicitação. Todos podem participar, bastando para isso acessar o site. Mas, o risco é que esse serviço se torne apenas uma ferramenta para burocratas, que não terão mais nem que desgastar-se no face a face com os cidadãos.

Assim fica para nós uma questão, como seria de fato a interação democrática por vias digitais? E como estaria nela representada a diversidade cultural da própria cidade? Parece que a multicentralidade das cidades digitais está na própria rede. Se catalogássemos a totalidade dos sites de cidadãos soteropolitanos não teríamos aí um reflexo da própria cidade? Farmácias, garotas de programa, adolescentes, artistas, instituições, espaços, etc. Os excluídos sociais continuariam excluídos digitais, mas com certeza com muito mais possibilidades de inclusão e participação.

Ações como a da associação comunitária “Espaço Jovem Cibersolidário”, nos bairros da Pituba e Jardim Armação em Salvador, ilustram bem o que se pode fazer com as potencialidades das redes digitais. A mobilização de esforços no sentido de permitir o acesso dos ‘excluídos’ às novas tecnologias, pode ainda ser rara, mas é sem dúvida parte do caminho necessário para a viabilização das potencialidades de transformação que as redes oferecem, principalmente em cidades do chamado terceiro mundo, como Salvador.

Talvez as tentativas de transposição organizada dos serviços da cidade física para um site oficial que represente essa mesma cidade na Internet tenha algo do sonho dos urbanistas que esperavam salvar a cidade e acabaram por prejudicá-la. A complexidade das possibilidades de uma cidade só encontra paralelo na complexidade da própria rede. O sonho da ágora virtual talvez se concretize nas pequenas ágora nos múltiplos centros da cidade e nos múltiplos nós da rede. O território de um site, ou seja o seu lugar, é o seu sentido semiológico e cultural.

O liberalismo da LT de 96, por um lado, abriu espaço para os conglomerados multinacionais, mas por outro desburocratiza a forma de expansão das redes digitais. Assim, evita-se o risco da burocratização de uma centralização administrativa. De forma semelhante, este risco parece rondar o projeto das cidades digitais. O contraponto a isso, no entanto, seria o despertar da sociedade para a sua capacidade de mobilização, o que não deixa de ser também utópico. Mas não há quem viva sem utopia…

Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de História. In: _____. Magia e técnica, arte e política: Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985.
CASTELLS, Manuel. Um mundo ligado. Folha de São Paulo, 23/05/1999 (entrevistado por Maria Ercilia e José Roberto de Toledo)
FEATHERSTONE, Mike. O desmanche da Cultura. Globalização, pós-modernismo e identidade. São Paulo: Studio Nobel, 1997.
HILLMAN, James. Cidade & Alma. São Paulo: Studio Nobel, 1993.
LE GOFF, Jacques. Por amor às cidades: conversações com Jean Lebrun. São Paulo: UNESP, 1988.
LE GOFF, Jacques. O desafio da mestiçagem. Folha de São Paulo, 28/09/97. (entrevistado por Juan Carlos Vidal).
LEMOS, A. Ciber-cidades. In: http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/artigos.html (18/11/2002)
MAFFESOLI, Michel. Sobre o nomadismo: vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro: Record, 2001.
MCDOWELL, Stephen D. Globalization, local governance, and the United States Telecommunications Act of 1996. In: WHEELER, J.O., WARF, B. e AOYAMA, Y. (eds.), Cities in the Telecommunications Age: The Fracturing of Geographies. New York: Routledge, 2000. pp. 112-129.
MITCHELL, William, E-topia: Urban life, Jim – but not as we know it. Mit Press, Cambridge, MA. 2000.
MORAES, Patrícia Barros. Cidades Digitais no Brasil. In: http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/seminario/programa.htm (26/08/2002).
OLALQUIAGA, Celeste. Megalópolis: sensibilidades culturais contemporâneas. São Paulo: Studio Nobel, 1998.
PULS, Mauricio. Colapso das cidades imaginárias. Folha de São Paulo, 15/10/2000.

Notas
[1] Lei de Telecomunicações
[2] http://www.salvadoratende.com.br/

*agradeço ao prof. André Lemos pela inspiração.

publicado como:
STANGL, André O Policentrismo Cultural nas Cidades Digitais. In: LEMOS, André. (org.). Cibercidade: as cidades na cibercultura. Rio de Janeiro: E-papers, 2004, p. 219-34.

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