Rede Mestiça

A rede mestiça: notas sobre Cibermestiçagem e hibridismo digital (2003)*
Andre Stangl

Resumo
Este artigo trata das transformações da identidade cultural contemporânea facilitadas com o advento das redes digitais. Este novo estágio da interconexão planetária está gestando um novo tipo de mestiçagem, a cibermestiçagem. Para entender mais profundamente o sentido da nossa relação com as máquinas, precisamos refletir um pouco mais sobre conceitos basilares como nossas idéias sobre: o que é humanidade, o que é natureza, o que é cultura, o que é natural, o que é artificial. Também precisamos voltar-nos sobre a origem de alguns desses conceitos, para, em seguida, tentar entender como esses conceitos se desenvolveram e, em alguns casos, se transformaram em opostos. Boa parte dos conceitos que ainda hoje usamos para compreender nossa relação com as tecnologias estão descritos na obra do canadense Marshall McLuhan (1911-1980). A mestiçagem tem uma lógica própria aos objetos híbridos, portanto, faz-se necessário uma revisão do modo como reconhecemos a relação entre sujeito e cultura. A malha de redes digitais que se espalha pelo planeta permite a troca e a transformação cultural numa velocidade nunca vista antes. O nosso esforço aqui é reunir alguns dos aspectos envolvidos nessa transformação do sujeito e de sua identidade.

“Como uma corda vibrante que soa, o mestiço não cessa de oscilar · de cintilar · entre as boas notícias e as más, entre a vantagem e o desprezo, a indiferença e o interesse, a informação e a dor, a morte e a vida, o nascimento e a expulsão, o tudo e o nada, o zero e o infinito, o ponto do qual jamais se fala, entre os dois focos, solar e negro, e o universo que ele semeia”
Michel Serres

Introdução
Se Gilberto Freyre fosse vivo e conhecesse a Internet, qual não seria seu espanto ao presenciar o surgimento de um novo tipo de mestiçagem, a cibermestiçagem. Agora a mistura de culturas se dá também no ambiente virtual. O que, aqui, nos propomos a chamar de cibermestiçagem, pode ser descrito como um lugar onde, no ciberespaço, as trocas culturais se dão de forma mais intensa. Pessoas de lugares e culturas das mais diversas podem hoje experimentar um novo tipo de convívio. O Ciberespaço ainda é um fenômeno recente. Aos poucos, vamos incorporando em nossa rotina procedimentos que somente são possíveis graças ao advento da Internet. Por exemplo, pagar contas, trocar piadas por e-mail, ler os jornais, fazer compras, sexo, copiar músicas e filmes, receitas e livros, entre outras coisas. Mas uma possibilidade tem sido particularmente sedutora: conhecer outras culturas. A metáfora da navegação é um dos principais símbolos da rede digital. Na frente de um computador conectado à rede, somos todos como Marco Polo. Um mundo a nossa frente a ser descoberto. Essa ·e-topia·[1] já é uma realidade, mas o mundo que descobrimos na Internet não é o mundo que encontraríamos numa viagem que envolvesse o deslocamento de nosso corpo físico. Encontramos na Internet um outro mundo que também é capaz de transformar nosso olhar. A mistura de culturas na Internet muitas vezes se dá através de um acidente, pois é natural que todos nós tenhamos o hábito de navegar em busca do semelhante. Mas também podemos, nessa busca, encontrar algo que normalmente nós não buscaríamos.

A comunicação em escala planetária propiciada pela Internet transforma o sujeito das culturas tradicionais em um novo sujeito. As listas de discussão e as salas de bate-papo são espaços onde o sujeito se reinscreve na sociedade: sexo, idade, localização, etnia e classe social tornam-se abstrações. Podemos ser um código (como por exemplo, um nickname, uma URL ou um e-mail) de uma nova e temporária identidade. Ou então o sujeito pode recriar seu sexo, idade, localização, fenótipo e classe social num processo de negociação, visando algum interesse específico. Podemos também tentar assumir nossa velha identidade, anexando em nossos novos contatos alguma descrição sobre nós mesmos. Mas, mesmo assim, já não seremos os mesmos. Na possibilidade da configuração personalizada de perfis variados que os programas de troca de e-mails[2] e arquivos oferecem, já se explicita a fluidez de nossa identidade no mundo digital. O sentido semântico torna-se a nossa nova identidade e o cimento de nossas novas relações. No caso de nossas antigas relações, surgem novas facetas, que antes no contato face a face não eram notadas. Suas posições, sua originalidade e seus gostos delimitam seu novo território e as relações construídas a partir daí estão unidas pela tentativa de compartilhar um sentido comum. O que pode ocorrer mesmo quando os participantes desse encontro são oriundos de culturas diversas. Essa cibermestiçagem é oriunda da nova identidade que assumimos na rede e da transformação de nossa própria cultura, ante as possibilidades desse novo espaço.

Segundo Alain Touraine[3], o grande problema da convivência entre culturas diferentes não está na coexistência tolerante, pois esta é possível e até simples, estando inclusive garantida pela constituição da maioria dos países. O problema que fica sem solução é a comunicação entre os indivíduos de culturas diferentes que tendem a viver em guetos, sem maiores contatos com o diferente em sua rotina. A Internet, então, pode ser uma alternativa para superar essa dificuldade, servindo como um espaço para a gestação de uma nova sociabilidade mestiça.

Nesta nova sociabilidade emergente, a cibersociabilidade, não existem limites geográficos ou fronteiras. Assim, um dos aspectos implícitos a essa sociabilidade pode ser a multiculturalidade, sendo este um dos movimentos sociais mais presentes no mundo de hoje e uma espécie de reação à globalização desigual que está em processo. A principal reivindicação da multiculturalidade é a preservação de um espaço para culturas minoritárias em sociedades em que outras culturas são hegemônicas (Cf. GONÇALVES & SILVA, 1998). Como, por exemplo, no caso dos negros norte-americanos que pleiteiam reformas curriculares sensíveis à sua perspectiva cultural, entre outras coisas. Acima de tudo, o multiculturalismo é a busca da convivência harmônica entre culturas diferentes. Segundo Canclini, existe uma diferença de perspectiva entre o mundo anglo-saxão e o mundo latino quanto à multiculturalidade, que pode ser assim caracterizada. Pois, enquanto na América Latina o hibridismo faz parte do discurso de construção das identidades nacionais, no mundo anglo-saxão o multiculturalismo significa um respeitoso separatismo (cf. CANCLINI, 1999:22). Assim, entendendo o multiculturalismo como mais do que simples convivência a distancia, mas como interação, este se torna um dos aspectos centrais da cibermestiçagem. Claro que na Internet também existem movimentos de reafirmação étnica, separatismos e racismo, no entanto, a mistura ainda parece ser uma tendência mais desejável.

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Figura 1 · A Internet no mundo[4]

A Figura 1 nos dá uma idéia bem clara da distribuição da Internet pelo mundo em 1999. A figura ilustra ainda uma grande concentração na América do Norte e na Europa, essas duas regiões juntas equivalem a metade dos usuários do planeta[5]. Mas já se pode notar efeitos da expansão da rede por países latinos, entre outros. Para citar apenas um exemplo, podemos observar que os chats, antes dominados pelas conversações em inglês, começam a adquirir novos sotaques, o spanglish[6]. A todo instante estão surgindo novas transformações nos espaços onde antes só quem dominava a língua inglesa conseguia interagir. Para se compreender o fenômeno da cibermestiçagem, temos que olhar para além da dicotomia local global, como na metáfora de Latour:

“Uma ferrovia é local ou global? Nem uma coisa nem outra. É local em cada ponto, já que há sempre travessias, ferroviários, algumas vezes estações e máquinas para venda de bilhetes. Mas também é global, uma vez que pode transportar as pessoas.” (LATOUR, 1994:115).

Latour chama a atenção para a nossa tendência a dicotomizar a realidade, ignorando os elementos híbridos. O hibridismo, segundo ele, está na própria forma do conhecer humano, enquanto o pensamento analítico separa e analisa para conhecer como dominar, um pensar híbrido conhece para transformar (cf. Ibid.). Em busca de compreender melhor a especificidade do hibridismo cultural, iremos recorrer ao estudo desenvolvido por Serge Gruzinski sobre o pensamento mestiço. Isso nos levará a uma melhor compreensão do fenômeno da mestiçagem e dos aspectos envolvidos na interconexão planetária apontada por Pierre Lévy.

A Lógica Mestiça
“Sou um tupi tangendo um alaúde”, dizia Macunaíma no antropofágico livro de Mário de Andrade. E é justamente esta frase que percorre o livro ·Pensamento Mestiço·, de Serge Gruzinski, de uma ponta a outra, dando-lhe uma saborosa unidade. O livro de Gruzinski adquire uma importância especial com o advento da expansão das redes digitais por países do terceiro mundo. Segundo ele, o contato entre culturas diversas sempre gera hibridismos que dificilmente são notados pelos remanescentes das culturas originais. A identidade híbrida ou mestiça é multifacetada e fruto de uma racionalidade nova. Na Internet, os frutos dessa diversidade de perspectivas culturais ainda são pouco perceptíveis ao nosso olhar que, ainda hoje, se perde ante uma aparente padronização. O livro de Gruzinski  pode nos ajudar a enxergar nossa nova identidade virtual, global e mestiça.

O francês Serge Gruzinski é essencialmente um historiador e seu livro é uma genealogia do processo da colonização espanhola no México. Perpassado por análises de filmes de Peter Greenaway e Wong Kar-wai, Gruzinski demonstra raro conhecimento da história das artes do novo e do velho mundo. Uma boa parte de seus argumentos se sustenta na interpretação imagética das pinturas do período colonial mexicano, mais especificamente, os murais da Igreja de Ixmiquilpan e da Casa del Deán em Puebla; o mapa da cidade de Cholula e o códice[7] de Bernardino de Sahagún. Além de grotescos[8], cantares antigos e textos diversos.

A sua questão central é entender de que forma as culturas se misturam e quais as conseqüências desse hibridismo. O termo Hibridismo vem do grego hybris que quer dizer destempero e excesso. É também um dos conceito centrais para se entender o legado da tradição helenista; no Fedro, Platão descreve a hybris como a transgressão da justa medida, sendo portanto uma expressão do caos com suas múltiplas faces e partes. O termo adquiriu ao longo da história um sentido de impureza e mistura. Consciente da dificuldade conceitual do hibridismo, Gruzinski opta por uma abordagem a princípio fenomenológica: “aceitar em sua globalidade a realidade mesclada que temos diante dos olhos é um primeiro passo” (GRUZINSKI, 2001:26). Mas não há como evitar a ambigüidade e a ambivalência da mestiçagem · são elas características próprias dos híbridos ·, por isso uma possibilidade de abordagem surge da descrição do fenômeno da mestiçagem e não de sua explicação. Citando Wittgenstein, Gruzinski afirma que “é difícil aceitar que ·as leis da lógica, terceiro excluído e contradição, sejam arbitrárias·, que nossa racionalidade, ou nossa ·lógica ordinária·, seja convencional, produto de uma história, de uma tradição e de um meio” (Ibid., 243). A frase de Mário de Andrade é um exemplo desse paradoxo lógico: Sou um tupi tangendo um alaúde. Segundo Gruzinski, “essa constatação choca nossos hábitos de pensamento, pois ainda hoje a presença de contradições é considerada uma marca irrecusável do irracional” (Ibid.).

Quando analisadas de perto, as relações entre colonizadores e colonizados demonstram complexas relações de troca. Para Gruzinski, o produto do choque entre duas culturas não será mais algo do campo de entendimento exclusivo de nenhuma das duas, será algo novo que só novos parâmetros de entendimento ajudam a compreender. Assim, quando Gruzinski cita o caso das pinturas nos murais da Igreja de Ixmiquilpan[9], o que se relata é o surgimento de uma nova estética que ultrapassa os olhos do renascimento europeu e do entendimento dos povos pré-hispânicos.

“Elementos europeus e índios formam uma trama estranha, fascinante e inextrincável. Atribuiremos ao Renascimento as guirlandas vegetais enfeitadas de acantos, os capitéis carregados de granadas (?), os rostos agressivos, apavorados ou angustiados dos combatentes, os perfis careteiros, grotescos e pontudos, a nudez dos jovens guerreiros exibindo nádegas carnudas, os centauros, os hipogrifos e as criaturas monstruosas de espécie fitomorfa.  As poses dos guerreiros vencidos e agonizantes são inspiradas em modelos europeus, tal como a tensão dramática que marca as cenas e os personagens. (…) Em contrapartida, atribuiremos ao mundo ameríndio a ausência de profundidade, a cor uniforme do fundo (…), a figuração estereotipada dos atores · cabeças representadas de perfil, peito em visão frontal·, o cromatismo e os pigmentos. (…) O armamento e a roupa dos guerreiros são de origem ameríndia. (…)   Esse inventário sumário valoriza a natureza heterogênea da obra. Mas de tanto separarmos as peças que a constituem, acabamos perdendo de vista a singularidade e a estranheza das combinações.” (Ibid., 122-4).

O entrelaçamento de símbolos cristãos e pagãos nessa pintura também nos ajudam a perceber a complexidade dos elementos híbridos. Segundo Gruzinski, o coração representado no emblema agostiniano tanto pode ser o símbolo fraternal do amor cristão quanto ·uma referência ao sacrifício humano·, prática comum aos povos pré-hispânicos da região em questão. Temos a tendência de enxergar os elementos isoladamente, o que, no caso das obras híbridas, sempre revela uma incompletude, nem uma coisa nem outra. O desafio está justamente em perceber a obra híbrida como ela mesma é, ambivalente e ambígua. “O híbrido não é a marca deixada pela continuidade da criação. É o produto de um movimento, de uma instabilidade estrutural das coisas” (Ibid., 179). Evitando lhe restringir a polissemia, podemos com ela aprender uma nova forma de percepção.

O termo ameríndio ixiptla traduzia para os monges o conceito de imagem, assim, o ixiptla de um santo era sua imagem. A tradução dessa noção trazia para os nativos a idéia de representação, uma concepção até então desconhecida para eles. Mas até que ponto essa tradução era efetiva? Gruzinski relata o conflito que surge da idolatria que os nativos presumivelmente nutriam pelas imagens dos santos. Instruídos pela catequese a referenciar os santos pelas imagens, os nativos referenciavam as imagens que, segundo a perspectiva deles, eram os próprios santos e não suas representações. A linguagem também se transforma com o fenômeno da mestiçagem, surge um novo idioma planetário e este “é também a expressão de uma retórica mais elaborada que deseja ser pós-moderna e pós-colonial, e na qual o híbrido permitiria se emancipar de uma modernidade condenada por ser ocidental e unidimensional” (Ibid., 41). Para além dos estereótipos do exotismo, o hibridismo impõe uma nova mentalidade da qual, segundo Grunziski, uma parte do chamado pensamento pós-moderno é filha. O fenômeno do hibridismo cultural atinge diversas sociedades das mais diversas formas.

“Mesmo reconhecendo que todas as culturas são híbridas e que as misturas datam das origens da história do homem, não podemos reduzir o fenômeno à formulação de uma nova ideologia nascida da globalização. O fenômeno é a um só tempo banal e complexo. Banal porque o encontramos em escalas diversas ao longo de toda a história da humanidade e porque, hoje, ele é onipresente. Complexo, porque parece impalpável quando pretendemos ir além dos efeitos da moda e da retórica que o cercam.” (Ibid., 41-2).

O fenômeno da miscigenação não é novo, sua memória se perde na história humana. Povos nômades foram os semeadores da espécie no planeta. A consolidação do estado-nação europeu se deu, pelo contrário, com a maturação do sedentarismo de alguns povos (cf. HALL 2001). Desta sedimentação nasceu uma revolução tecnológica: as grandes navegações. E novamente os nômades semearam outros portos, passados alguns anos, um pouco mais de 500, outra revolução tecnológica empurra os nômades em sua cíclica missão: a interconexão planetária. Mas dessa vez algo mudou, o semear agora se dá no campo simbólico da cultura.  A mistura agora pode se dar apenas em nossas mentes, o mestiço de hoje é um novo olhar. Stuart Hall analisando a chamada crise de identidade do mundo contemporâneo afirma que:

“Em toda parte, estão emergindo identidades culturais que não são fixas, mas que estão suspensas, em transição, entre diferentes posições; que retiram seus recursos, ao mesmo tempo, de diferentes tradições culturais; e que são o produto desses complicados cruzamentos e misturas culturais que são cada vez mais comuns num mundo globalizado.” (Hall, 2001:88).

Para Hall, a complexidade do fenômeno da hibridação cultural está nas múltiplas implicações que estes cruzamentos podem ter, desde um reforço nas identidades locais,  passando pela questão da ·geometria do poder· ou mesmo o impacto da compressão espaço-temporal (cf. Ibdi., 80). Sobre este último, Hall afirma que “o tempo e o espaço são também as coordenadas básicas de todos os sistemas de representação. (…) Assim, a narrativa traduz os eventos numa sequência temporal ·começo-meio-fim· (…). Diferentes épocas culturais têm diferentes formas de combinar essas coordenadas espaço-tempo” (Ibdi., 70).

Sobre a questão do reforço das identidades locais ou nacionais, Hall nos lembra que cultura alguma é pura, sendo sua unidade fruto de um dispositivo discursivo que unifica a diversidade (cf. HALL, op.cit., 62). A Inglaterra, por exemplo, unifica-se sobre os matizes diversos de indianos, africanos, germânicos e etc. Hall reforça que o conceito de raça também é uma categoria discursiva, portanto, não há uma prevalência do biológico sobre o cultural.

Falar de mestiçagem[10], em um sentido mais amplo, é falar da vida em sua totalidade[11], sem que nossa visão esteja direcionada por qualquer perspectiva cultural exclusiva. É olhar o caos e aceitá-lo como parte de nós. A idéia de mestiçagem quer romper a armadura da cultura, é a identidade sem entidade, é a origem de novo, é a invenção da tradição. O pensamento mestiço fala com sotaque, mas fala sem tristeza e sem melancolia, pois não perdeu nada de seu passado, toda sua experiência é reaproveitada, não há erro nem culpa.

A nova estética do hibridismo digital
Dentro da nova conjuntura de inter-relações propiciada pela Internet, está também o desenvolvimento de uma nova estética. Podemos falar de um novo modo de ser, essa nova estética traz consigo uma nova ética. Os padrões de consumo e produção estão cada vez mais sofrendo confluências múltiplas, o que pode ser notado em diversos suportes, como a moda, o cinema, a literatura, o design e etc., mas seria exaustivotentar mapeá-la em todos seus desdobramentos. Todas as possibilidades de mistura são potencializadas pelas tecnologias digitais. Há uma nova estética na arte digital (webart, flash), no cinema digital e na música eletrônica. A tecnologia atravessa fronteiras e é usada até por aqueles que recusam a ·suposta· ocidentalização do mundo, assim por exemplo, terroristas islâmicos usam a Internet sem que este uso descaracterize sua identidade. Agora, vejamos o caso da música, pois:

“Seria praticamente impossível querer entender a popularidade do multiculturalismo, sobretudo entre os jovens sem considerar o papel da música em sua formação. Alguns estudos que analisam o assunto têm assinalado a emergência de uma nova estética musical com um pequeno detalhe: etnicamente elaborada. (…) O fenômeno musical do multiculturalismo é híbrido, ou se preferirmos, miscigenado.” (GONÇALVES & SILVA, 1998:29).

A forma mais explicita da nova estética do hibridismo digital está na música eletrônica. Artistas como Thievery Corporation, Kruder & Dorfmeister, Amon Tobin, Jazzanova, Asian Dub Fundation, Nitin Sawhney, Rainer Trüby, Yonderboi, Almamegretta, Dj Dolores entre outros são exemplos desta estética híbrida.

“Quanto mais uma determinada cultura tem fome de tecnologia e de inovação, mais o resultado dessas apropriações é interessante. O exemplo jamaicano é incontestável: dos estúdios mais pobres de Kingston saíram, nos anos 60, técnicas de gravação e mixagem que ainda hoje são copiadas pela vanguarda da música ·trance·ou ·ambient·. Também foi no gueto negro das grandes cidades americanas (o Terceiro Mundo dentro do Primeiro Mundo) que apareceram as colagens rítmicas do hip hop, da house, do techno, renovando as concepções de composição musical e da relação música/tecnologia que dominavam a indústria fonográfica. E nos estúdios de Lagos, Nigéria, de Colombo, Sri Lanka, ou do Cairo, Egito, estão sendo produzidas outras novas maneiras de se fazer ou pensar a música que certamente irão ser reapropriadas por músicos do resto do mundo. E assim por diante.” (VIANA, 2000)

O sujeito dessa nova estética estaria numa espécie de TAZ[12]. Por isso, a comunidade que a representa é pós-étnica (Cf. Semprini, 1999:30). Esta nova estética também estaria permeada pela influência das novas tecnologias de produção musical, como os softs de edição, que permitem samplear e mixar loops de ritmos diversos. Assim, a música Raí pode ser misturada com a bossa nova, o reggae pode realçar mais suas ·raízes· asiáticas e a música italiana, explicitar sua influência moura. As possibilidades são infinitas. Claro que o fenômeno de hibridismo cultural na música não é exclusivo dos dias de hoje, nem da música eletrônica, artistas como Beatles, Led Zepplin, John Coltrane, Gilberto Gil, Debussy, etc., também por motivos diversos, fizeram esse crossover.

A Rede Polissêmica
Segundo Pierre Lévy, estamos passando por uma crise do sentido, o que pode indicar uma transformação das clássicas culturas identitárias em uma ·pós-cultura· planetária (Cf. LÉVY, 2000:25). O sentido cultural é simbólico e contextualizado, assim, na interconexão da sociedade global interagindo em sistemas de redes telemáticas, o sentido torna-se polissêmico, em outras palavras, multicultural.

“Devemos compreender que as culturas identitárias, como tais, são impasses. Se conservamos dela apenas o aspecto identitário, uma cultura não é, então, nada além de um grupo de pessoas que se imitam. Mas, sobretudo, fechando-nos em culturas identitárias, nos separamos dos que são diferentes, e isso pela única e falsa razão de que eles nasceram (por acaso) em um meio que comportava outros modelos de identificação, diferentes dos nossos. A imitação não é um mal em si, pois ela é a base de todas as iniciações, de todas as aprendizagens. Mas a imitação deve ser ultrapassada pela criação, e a identidade pela abertura. As culturas identitárias nos dividem. Elas nos opõem. Elas tornam a alteridade, a diferença e a mudança ameaçadora para nós. Elas correm o risco de nós aprisionar no medo e no ódio.” (Ibid., 2001:128).

Segundo Lévy, estamos substituindo o saber-estoque pelo saber-fluxo, pois no ciberespaço não há como se fixar um sentido exclusivo, referente a uma só matriz cultural, a Internet reflete este momento da cultura global (Ibid., 2000:25). Estamos todos buscando uma nova forma de dizer e ouvir, somos todos estrangeiros, pois estamos todos numa nova realidade. Uma realidade, por que não dizer, cibermestiça e glocal (global + local).

“A pós-cultura nada tem a ver com o pós-moderno, porque o pós-moderno nega encarniçadamente toda idéia de progresso e, ainda mais, de progresso universal. Ora, do ponto de vista da pós-cultura, o estado ao qual chegamos é melhor que o estado de cultura. A pós-cultura é um progresso, pois ela se desperta ao mesmo tempo para duas realidades que só se tornam figuras significantes uma tomando a outra como fundo: o caráter de criação contínua da cultura e a unidade da humanidade.” (Ibid., 29).

Tentativas[13] como o projeto ·MTV Coordinates· ainda parecem muito suscetíveis aos interesses da indústria cultural americana, mas inegavelmente já trazem consigo algo de um polissemismo multicultural. Neste projeto, que envolveu as 21 filiais da MTV[14] no mundo, cada uma produziu cinco fotos sobre um dos 21 temas propostos[15]. Depois, cada filial criou uma vinheta usando as fotos produzidas sobre um tema, assim, por exemplo, a MTV Brasil fez uma vinheta sobre o tema ·corpo· usando algumas das 105 fotos geradas ao redor do mundo. Os resultados podem ser vistos no site da MTV Latina ou na programação da MTV local. Não deixa de ser curioso observar que experimentos como esse ainda são raros.

Mesmo com os recursos hoje disponíveis de interconexão, as tentativas de integração ou interação entre culturas diversas parecem mais freqüentes nos esportes e no comércio do que no desenvolvimento de uma linguagem híbrida. A literatura, o cinema, a música, a culinária e a moda entre outras expressões culturais, há muito tempo já refletem o intercâmbio cultural da humanidade. E no caso do ·MTV Coordinates· foram justamente imagens e sons que formaram a base discursiva do projeto[16]. A Internet parece ser o espaço propício para o desenvolvimento de uma miscigenação planetária, mas ainda parece prisioneira de uma comunicação essencialmente escrita.

O ciberespaço, enquanto zona de interseção, funciona como um laboratório onde se engendra essa nova linguagem. Mas, para entender e reconhecer essa nova linguagem, será preciso reconfigurar a nossa relação com a linguagem. No ciberespaço, é como se estivéssemos em uma semiosfera, segundo André Semprini, um espaço da gramática desta nova linguagem (SEMPRINI, 1999:121). E, ao que parece, entre as características gerais desta nova linguagem, existe a possibilidade de uso dos recursos multimídia (flash, sons, gifs animados, etc.). Assim, essa polifonia de formatos acaba sendo mais próxima e adequada ao sentido polissêmico do hibridismo cultural.

O relativismo pode ser visto como um dos aspectos principais da polissemia no ciberespaço. No processo de construção do sentido multireferencial ou híbrido, toda verdade é contingente e contextual. Algo que parece absurdo, dentro dos parâmetros de uma epistemologia monocultural (Cf. Semprini, 1999:81).

A Internet Mestiça
Experiências como as dos sites Audiogalaxy[17] e make-world[18] e do evento Satellite Cabaret podem servir para nos demonstrar um pouco da importância que a Internet assume no fomento da reconstrução da identidade contemporânea. O extinto Audiogalaxy reunia links para arquivos de mp3 do mundo inteiro (P2P). Em 13/04/2002 às 03:42h (horário de Brasília) a distribuição proporcional de internautas conectados ao audiogalaxy era a seguinte[19]:

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Figura 2 – Internautas conectados ao Audiogalaxy

Recentemente ·fechado· pela Justiça com a vitória de uma ação movida pela RRAI, o site se organizava por estilos musicais, assim, na busca de um artista específico, acabava-se por conhecer outros ·semelhantes·. Nas páginas em que se encontravam os links para as músicas, também havia espaço para a inclusão de comentários sobre os artistas. Nestes espaços, curiosas misturas ocorreram, como, por exemplo, na página com músicas do grupo Jazzanova:

Message board : jazzanova
03/29/02 robeerg – cool loco ..estos japoneses!!!
desde cuando los japoneses cultivan el tecno con bossa…es mi pregunta???…los japoneses tienen onda con los brasileros en la musica ….no visiten brasil estuve hace poco por alla..y es peligroso sobre todo rio

03/30/02 RREEDDFFOOXX – re: cool loco ..estos japoneses!!!
Desde quando os Jazzanova são japoneses??? Alemaes…

04/10/02 220363 – re: cool loco ..estos japoneses!!!
brasil es posiblemente el mejor pais en sudamerica al menos en musica. y tu ignorancia te delata…

04/12/02 chatomil – re: cool loco ..estos japoneses!!!
jazzanova no fusiona techno con bossa ademas de que son alemanes.

04/14/02 cub79 – re: cool loco ..estos japoneses!!!
i think we in germany call it just kind of nujazz… it’s just, that they pick up everything that grooves your ass off, gotty see em live… you’ll love it

04/14/02 Iroel85 – re: cool loco ..estos japoneses!!!
Jazzanova is from berlin….I love em!

Uma estranha polifonia de sotaques: Japão, Espanha, Brasil ou EUA? O participantes deste pequeno fórum ficam aturdidos ante a estética híbrida da banda alemã. O que hoje, no caso, é chamado de nujazz tem elementos dos ritmos brasileiros e africanos, somados ao jazz e à  música eletrônica.
No site make-world, Europeus, Latinos, Asiáticos e Africanos desconstroem juntos os limites de suas próprias culturas através de filmes, texto, música, etc. A fórmula ·0 YES border=0 Location=yes· simboliza a busca dessa nova subjetividade. A fronteira (border) é o zero, nulidade que nada significa e o local a afirmação do espaço sem que haja a fixação da cultura ao lugar. O site em sua página inicial proclama:

“Fazer o mundo é um comando único usado para atualizar completamente um sistema de operação. é desenhado para seguir os últimos desenvolvimentos uma vez que os recursos locais são sincronizados. digitar “fazer o mundo” na linha de comando reconstrói e renova todo o sistema enquanto ele está rodando.” [20].

Um convite à subversão cultural que através da sincronia entre todos elimina as diferenças e as fronteiras. O ponto é estar integrado à nova identidade, não importa onde todos juntos podem refazer o mundo. O site tem uma publicação em formato pdf que pode ser baixada gratuitamente. Nela se encontram textos dos participantes do festival que deu origem ao site. São textos das mais diversas partes do mundo, todos em inglês, mas tentando refletir a formação dessa nova identidade, prenunciada por Mcluhan e concretizada pela Internet.

Um outro exemplo das possibilidades de fusão oferecidas pela conexão em banda larga foi o show Satellite Cabaret, realizado simultaneamente em Salvador (Bahia) e Grenoble (França) no dia 7 de dezembro de 2002. O show consistiu na reunião de músicos de diferentes culturas para uma jam session via banda larga. O evento que foi fruto da colaboração entre o 38o Festival Rugissants e o IV Mercado Cultural impressionou a quem assistiu, via net[21] ou em um dos dois teatros. Pois o que surpreendia era ver ali concretizada uma espécie de mestiçagem digital.    Figura 3 – Show Satellite Cabaret – 07/12 /2002

Conclusão
As conseqüências da convivência entre culturas diferentes na Internet ainda são pouco discutidas e suas manifestações mais características ainda são embrionárias. A rede como um todo é um híbrido digital de nós mesmos. A lógica da identidade digital não é como usualmente pensamos uma simples tautologia, um arquivo não é igual a outro, mesmo que tenham conteúdos idênticos. Não estão no mesmo espaço, nem no mesmo tempo, cada arquivo tem seu próprio contexto, seja ele um disquete ou um diretório. Ele não está preso ao contexto, mas se seu contexto mudar, ele também muda. A cópia não é o mesmo é o outro em outro lugar. O mesmo se dá com a identidade cultural individual na rede digital, a existência de uma totalidade não elimina a presença individual, mas esta não é, nem nunca será, determinada pela cultura no singular. A cultura digital é inderteminada, é híbrida, é misturada e remixada. Existe a possibilidade de uma nova sociabilidade com a Internet,  numa cibermestiçagem. Onde não-existem lugares (no border), existe uma totalidade de culturas. A identidade renasce como parte dessa nova totalidade, livre para migrar.

·As famílias de técnicas emergentes com o fim do século XX · combinando informática e eletrônica, sobretudo · oferecem a possibilidade de superação do imperativo da tecnologia hegemônica e paralelamente admitem a proliferação de novos arranjos, com a retomada da criatividade. (…) Desse modo, a técnica pode voltar a ser o resultado do encontro do engenho humano com um pedaço determinado da natureza · cada vez mais modificada ·, permitindo que essa relação seja fundada nas virtudes do entorno geográfico e social, de modo a assegurar a restauração do homem em sua essência.· (SANTOS, 2003:165)

Ainda segundo Milton Santos, estaríamos vivendo o início de uma nova história – uma história universal, de fato, estaria por começar agora. Não há hoje evento particular, seja uma guerra, uma gripe ou um conceito, este hoje tende ao universal. Esperamos que seja esse um universal plural, que seu sentido seja dinâmico como somente a vida pode ser. A construção da identidade plural é um dos elementos chaves desse processo. A Internet contribui para a complexidade dos fatos contemporâneos gerando sempre uma perspectiva concreta da diversidade de ângulos. Com a guerra do Iraque podemos constatar que mesmo a verdade já não importa tanto, ter acesso hoje, é mais importante que ter a certeza do que sabemos. Se de fato queremos a Aldeia Global, devemos abrir mão de uma “verdade” em nome das múltiplas possibilidades da verdade. Onde se possa adotar uma epistemologia multicultural, que empurre o que for certeza para o virtual e puxe o que for plural para o atual.

Bibliografia
BEY, Hakin. TAZ: zona autônoma temporária. São Paulo: Conrad, 2001.
CANCLINI, Nestor García. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: ed. UFRJ, 1999.
CHALIAND, Gérard. O ritmo das migrações.(Entrevistado por Betty Millan). Folha de S.Paulo, 30/08/1998.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio Eletrônico. Versão 3.0. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
GONÇALVES, L.A.O. & SILVA, P.B.G. O Jogo das Diferenças: O multiculturalismo e seus contextos. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.
GRUZINSKI, Serge. O Pensamento Mestiço. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos. Rio de Janeiro: Ed.34, 1994.
LEÃO, Emmanuel Carneiro. Introdução. In: ANAXIMANDRO. Os Pensadores Originários: Anaximandro, Parmênides, Heráclito. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.
___________. A Internet e a Crise do Sentido. In: PELLANDA, Nize Maria Campos e PELLANDA, Eduardo Campos. Ciberespaço: Um Hipertexto com Pierre Lávy. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000.
____________.  A Conexão Planetária: O mercado, o ciberespaço, a cosnciência. São Paulo: Ed. 34, 2001.
MITCHELL, William, E-Topia: Urban life, Jim · but not as we know it. Mit Press, Cambridge, MA. 2000.
PALÁCIO, Marcos. Por mares doravante navegados: panorama e perspectivas da presença lusófona na Internet. In: LEMOS, A. e PALÁCIOS, M. (orgs.). Janelas do Ciberespaço: Comunicação e Cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2000.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Do pensamento único à consciência universal. São Paulo: Record, 2003.
SEMPRINI, André. Multiculturalismo. Bauru: EDUSC, 1999.
Stavans, Ilan. As Vozes do Spanglish. (Entrevistado por Marcos Flamínio Peres). Folha de S.Paulo, 20/05/2001.
TOURAINE, Alain. Poderemos viver juntos? Iguais e Diferentes. Petrópolis: Vozes, 1999.
VIANA, Hermano. Fome e Tecnologia. In: Nação Zumbi. Rádio S.A.M.B.A.: Serviço ambulante da Afrociberdelia. Rio de Janeiro, Ybrazil?Music, 2000. (Cd com encarte).

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Links diversos (atualizados em 2010)

everyone is an expert
http://www.expertbase.net/
Este site organiza ações de protesto contra as fronteiras geográficas.

I CARE
http://www.icare.to/
Comunidade virtual de combate ao racismo.

noborder network
http://noborder.org/
O site reune militantes do movimento noborder (sem fronteiras).

Sarai
http://www.sarai.net/
Este site indiano reune experiencias e pesquisas sobre o ciberespaço.

Nitin Sawhney
http://www.nitinsawhney.com/
Um dos artistas sintese da nova estética mestiça e digital.

Where is Raed ?
http://dear_raed.blogspot.com
Jovem iraquiano está no centro de Bagdá e,
com o codinome de Salam Pax, dá detalhes do que vê na cidade.

Mavin
http://www.mavinfoundation.org/
Revista militante de integração entre mestiços.

Multicity
http://www.multicity.com/
Site da ferramenta de conversação multilingue Multicity, desenvolvida pelos irmãos Hanash. Este software de tradução simultânea atua no campo da correspondência vocabular e tem se mostrado útil principalmente nas transações comerciais. Através dessa ferramenta podemos conversar simultaneamente em várias línguas, mesmo que ainda de forma precária.

Audiogalaxy
http://www.audiogalaxy.com/
Extinta ferramenta de troca de arquivos mp3, o site permite a conversação via fórum, sobre os artistas e estilos linkados.

make-world
http://www.make-world.org/
Site do evento organizado em Munique em 2001 que propõe entre outras coisas uma reflexão sobre a idéia de nação.

Centro delle Culture
http://www.dialogo.org/
Site italiano que articula o diálogo entre culturas distintas através da articulação de encontros e intercâmbios.

La Nueva Ciudad de Dios
http://siruela.com/ncd/ (off line)
Uma representação multimídia da Cidade de Deus agostiniana.

Cibercultura: La rete pensa la rete
http://www.cibercultura.it/ (off line)
Portal italiano sobre cibercultura.

Travlang’s Word of the Day: What is this?
http://www.travlang.com/wordofday/
Neste site todo dia uma nova palavra é apresentada em mais de 80 línguas.

Muangolê Notícias
http://mnoticias.8m.com/index.html
Revista de notícias on-line angolana.

De Repente – Um Passeio pelo Universo das cantorias.
http://www.derepente.2x.com.br (off line)
Site de webart que funde elementos do cordel brasileiro com flash.

The African Virtual University
http://www.avu.org/
Uma universidade virtual africana.

VAMOS! Das Brasilien-Magazin
http://www.vamos.03.net/ (off line)
Uma revista on-line para brasileiros na Alemanha.

Words and Images: A Portrait of Languages
http://www.hollowear.com/gallery/word-image.html
Poemas visuais da artista Elly Sherman em 80 línguas.

The Metaverse
http://zompist.com/
Site desenvolvido por Mark Rosenfelder que reúne diversas informações sobre diversas culturas.

Lateinamerika in Berlin
http://www.lateinamerika-in-berlin.de/
site de apoio aos latino-americanos em Berlin.

RADIOmultikulti – Berlin 106,8 MHz
http://www.multikulti.de/
Site de uma estação de radio multicultural alemã.

Brasilien in XXL
http://www.brasilien.de/index.html
Site alemão sobre o Brasil

Centre d’union multiculturelle et artistique des jeunes (Cumaj)
http://www.chez.com/cumaj/
Site multicultural de artistas canadenses

Association multiculturelle Plaisance-du-Gers
http://membres.lycos.fr/association (off line)
Site de uma associação multicultural francesa.

Novacréation – Création de sites multilingues et multiculturels
http://www.novacreation.com/ (off line)
Site de uma agência digital de design multicultural.

Interamerican Institute
http://www.interamericaninstitute.org/mural_art.htm
Neste site estão algumas imagens dos murais mexicanos comentados por Grunzinsk.

Refazenda
http://www.refazenda.com.br
Agência brasileira de webdesign que experimenta em seus projetos o que se pode chamar de tropicalismo digital. Foi a responsável pelo desenvolvimento dos sites de Gilberto Gil,. Caetano, Elba Ramalho entre outros.

Mestizo
http://www.mestizo.org/
Site de uma entidade espanhola de promoção a interculturalidade.

Re:Combo
http://www.recombo.art.br/ (off line)
Uma experiência coletiva e interativa de colaboração via internet que recombina loops, ruídos e vídeos de diversos colaboradores.

Entropy8Zuper
http://www.e8z.org/
Webarte de referência multicultural.

Atlas of Cyberspaces
http://www.cybergeography.org/
Este site reúne mapeamentos da interconexão digital do planeta.

The Multicultural Skyscraper
http://www.multicultural.net/
O site representa um edifício virtual onde estariam reunidas diversas organizações multiculturais, arquivos e instituições educacionais.

Multicultureelplein
http://www.multicultureelplein.nl/ (off-line)
Site que concentra informações sobre o multiculturalismo europeu.

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Notas

* agradeço a preciosa orientação do Prof. Gottfried Stockinger

[1] Cf. MitchelL, 2000.
[2] No Outlook Express a opção “alterar identidade”, por exemplo.
[3] Cf. TOURAINE, 1999:16-7
[4] Fonte: An Atlas of Cyberspaces. In: http://www.cybergeography.org/atlas/atlas.html (21/07/2002) (off line)
[5] Os dados sobre a distribuição lingüística na Internet ainda retratam uma predominância do inglês – 51,53% -, segundo dados da Global Reach, o que pode ser explicado por diversos fatores, como o uso de sites bilíngües e a hegemonia política e econômica dos EUA. Mas é fundamental perceber também que 48,47% dos usuários da rede falam outras línguas: Japonês 7,2%; Alemão 6,7%; Espanhol 6,5%; Chinês 5,2%; Francês 4,4%; Coreano 3,6%; Italiano 3,3%; Português 1,6% e Outros 1,6% (Cf. PALÁCIOS, 2000:189).
[6] Segundo Ilan Stavans, autor do “Dictionary of Spanglish”: “O spanglish não é uma forma homogênea e unificada de comunicação. Há diferenças agudas não só no spanglish falado por porto-riquenhos, cubanos, dominicanos e mexicanos, mas também no que é falado em Miami, San Antonio, Nova York ou Los Angeles. E também entre o spanglish urbano e rural. Do mesmo modo, o spanglish se modificou ao longo do tempo, e as formas usadas em um dado lugar no início do século 20 são diferentes das usadas hoje. (…) a mídia e a internet estão criando um certo tipo de síntese padronizada.” (Stavans, 2001)
[7] Forma característica do manuscrito em pergaminho, semelhante à do livro moderno, e assim denominada por oposição à forma do rolo (FERREIRA, 1999).
[8] Diz-se do estilo plástico que se originou na imitação de ruínas de edificações descobertas no séc. XIV, em Roma, e que foram tidas como grutas; nelas se encontraram pinturas que retratavam, sob forma de arabescos e linhas sinuosas, homens e animais (FERREIRA, 1999).
[9] Confira no site http://www.interamericaninstitute.org/mural_art.htm algumas imagens.
[10] Para Gérard Chaliand “A mestiçagem é mais aparente do que real. Historicamente é um fenômeno involuntário. As duas grandes mestiçagens que o mundo conheceu são a dos negros – o Brasil é o grande exemplo – e a dos índios – de que o México se tornou o modelo. Nos dois casos, a mestiçagem de certo modo foi uma violação. O índio se tornava mestiço, submetendo-se às normas e à língua do branco. O negro produz mulato ou mulata, miscigenando-se com o branco, que em geral não se casa com ele. Não considerando que a massa multiétnica que vejo no metrô em Londres, Paris ou Nova York seja mestiça. Os casamentos inter-raciais são relativamente raros na França e excepcionais entre os ingleses. Que eu saiba, a mestiçagem não existe nos países da Ásia ou da África. Em suma, as únicas sociedades efetivamente acolhedoras são as ocidentais -embora a gente possa criticar o racismo delas. O futuro da mestiçagem parece longínquo.” (Chaliand, 1998). Mas talvez, não esteja tão longínquo o futuro da cibermestiçagem.
[11] Segundo Emmanuel Carneiro Leão, a totalidade do real, o espaço-tempo de todas as coisas, não é apenas o reino aberto das diferenças, onde tudo se distingue de tudo, onde cada coisa é somente ela mesma, por não ser nenhuma das outras, onde os seres são indivíduos, por se definirem em estruturas diferenciais. A totalidade do real é também o reino misterioso da identidade, onde cada coisa não é somente ela mesma, por ser todas as outras, onde os indivíduos não são definíveis, por serem uni-versais, onde tudo é uno (LEÃO, 1991:11).
[12] Temporary Autonomous Zone (cf. BEY, 2001)
[13] O MIT tem um núcleo chamado sociable media group (cf. http://smg.media.mit.edu/) que desenvolve ferramentas para novas formas de interação social na Internet. Um de seus principais projetos é o chat circles (cf. http://web.media.mit.edu/~fviegas/projects/chatcircles/) que seriam representações gráficas de comportamentos individuais em salas de bate-papo. Mas até o momento não se tem conhecimento de nenhum projeto que leve em conta a diversidade cultural da comunicação no ciberespaço. Tangenciando esta discussão faz-se necessário notar o trabalho que tem sido desenvolvido pelo professor Howard Rheingold. Ele tem viajado pelo o mundo observando como as pessoas em diferentes lugares do planeta criam comunidades wireless (cf. http://www.rheingold.com/smartmobs/ )
[14] EUA, Brasil, América Latina, Canadá, Coréia, Itália, Paises Nórdicos, Polônia, Alemanha, França, Espanha, Ásia, Inglaterra, Rússia, Taiwan, Austrália, Índia, Europa, China, Japão e Holanda.
[15] Alegria, amor, beijo, beleza, caos, casa, comunidade, corpo, dançar, futebol, identidades, música, olá, rir, ritmo, sexo, silêncio, sonhar, sorriso, tocar e vida
[16] Um passeio através das diferentes versões internacionais dos sites da MTV, serve para constatarmos uma interessante característica da nova linguagem que está surgindo. Todas as versões têm mais ou menos a mesma configuração, algo semelhante ocorre com os portais (UOL, AOL, CNN, BBC, etc.). Essa padronização do formato permite que, mesmo sem entender o que está escrito, por analogia, o internauta reconheça a função dos links: uma coluna com propagandas à direita, ao centro noticias gerais, no rodapé informações sobre o site, etc. (http://www.mtv.com)
[17] http://www.audiogalaxy.com
[18] http://www.make-world.org/
[19] In: http://www.audiogalaxy.com/user/onlineUsersByCountry.php (13/04/2002). (off line)
[20] “make world is a unix command used to completely update an operating system. It’s designed to follow the latest developments once the local sources are synchronized. Typing “make world” in the command line rebuilds and renews the whole system while it’s running” In: http://www.make-world.org/(05/05/2002). Tradução Jan Alyne Barbosa.
[21] http://www.38rugissants.com

Esse artigo também foi publicado como:

STANGL, André. Notas sobre cibermestiçagem e hibridismo digital. Leituras Contemporâneas, Salvador, v. 01, n. 02, p. 54-70, 2003.  Disponível em http://www.fja.edu.br/publicacoes/p_lc_02.pdf

STANGL, André. A Rede Mestiça. 404notf0und, Salvador, v. 1, n. 30, 2003.  Disponível em http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/404nOtF0und/404_30.htm

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