Usos e Sentidos do Conceito Saúde

Usos e Sentidos do Conceito Saúde (2000)
Andre Stangl

O Projeto Integrado de Pesquisa “Uma Etnografia da Prática Epidemiológica” (1) se propôs a realizar, através do método etnometodologico, uma aproximação com a prática e a rotina dos pesquisadores em Saúde Coletiva. A pesquisa foi desenvolvida tendo como base o método desenvolvido por Harold Garfinkel que incorpora elementos da Fenomenologia e prática uma releitura do processo de produção da pesquisa científica, usando, para isso, a aplicação de técnicas etnográficas. Nesta perspectiva, pretende-se romper com o método sociológico que dava maior relevo aos aspectos macrossociais. Parte-se, então, da realidade humana, intersubjetiva dos locais onde se dão a produção, as trocas, a oferta e a procura por fatos científicos.

Algumas das correntes ‘pós-mertonianas’ da Sociologia da Ciência, como o chamado “Programa Forte”, desenvolvido por Barry Barnes, David Bloor e Steve Shapin, estabeleciam que todo conhecimento possui um conteúdo social ou que toda ciência se refere à sociedade – não havendo distinção entre conteúdo e contexto (Bunge, 1993). A produção teórica do programa forte, influente nas décadas de sessenta e setenta, com o desenvolvimento dos princípios da simetria e reflexividade, permitiu viabilizar uma prática de investigação da ciência que fosse possível conciliar natureza e sociedade (fatores cognitivos e sociais), constituindo uma ‘Sociologia do Conhecimento Científico’ (Bunge, 1993; Shapin, 1995). Mas foi a partir das contribuições de Garfinkel e Cicourel, com os estudos etnometodológicos, que se mudou o foco de análise do conhecimento científico em termos de organizações científicas e práticas de cientistas para o local (“social locus”) onde os processos de construção e reconstrução se apresentam na ciência (Leydesdorff, 1992: 245). Permitiu-se, assim, à ‘nova abordagem’ estudar a produção científica como uma prática ordinária do cotidiano (Traweek, 1993; Lynch, 1993; Latour e Woolgar, 1997).

A Vida de Laboratório (1979), de Bruno Latour (e Steve Woolgar), foi uma das obras pioneiras na utilização da Etnometodologia paro o estudo dos mecanismos de construção de fatos na pesquisa científica. Similarmente aos estudos realizados em diferentes culturas, Latour aproxima a antropologia do laboratório, tratando seus pesquisadores, instrumentos e espaço, nos mesmos moldes de uma comunidade exótica e distante. Em sua investigação, busca descrever o que os atores dizem e fazem no cotidiano de pesquisa, sem, contudo, utilizar o discurso dos cientistas para explicar o que fazem, mas buscando reconhecer o “fenômeno científico” em seu próprio local de transformação, através de uma abordagem etnográfica. Ao se apropriar de um contexto sobre o qual pouco conhecia – podendo-se mesmo compará-lo a um iniciante dominando pouco o idioma e a linguagem de seus interlocutores – o autor concretiza um estudo etnográfico utilizando a ciência como seu objeto de análise. Essa desconfiança com relação ao discurso oficial dos informantes, possibilita um distanciamento em relação à Epistemologia, à Filosofia da Ciência, ou a qualquer outra metalinguagem científica.

Uma parte da etnometodologia e da Sociologia da Ciência tem sua base na investigação filosófica de Ludwig Wittgenstein. A relação está em buscar no ordinário os elementos do contexto que dão sentido aos jogos de linguagem (Lynch, 1992; Bloor, 1992). Neste ambiente, em geral chamado de Laboratório, o cientista constrói o seu ‘nó’ na rede dos conjuntos de relações, gerando-se, assim, um “jogo de linguagem” que passa a ser notada através da criação dos novos rótulos e inscritores (gráficos, tabelas, desenhos, etc.), das regras, narrativas ou metáforas,– e enfim, dos textos produzidos e divulgados. No registro das práticas cotidianas dos pesquisadores, encontramos uma descrição de seus jogos de linguagem, quando falam de saúde, por exemplo.

Refletir sobre a ‘gramática’ da Epidemiologia descrevendo os usos e as possibilidades do conceito de saúde na construção do conhecimento epidemiológico, é interagir com este jogo de linguagem. Em nossa etnografia, encontramos o uso do conceito de saúde como o principal ponto cego no conjunto de normas, regras e crenças da prática epidemiológica. O conceito de saúde é amplo, muitas vezes parece “irredutível” (Latour, 1994), mistura-se com a idéia que temos de viver e morrer. Não é nossa pretensão explicar o que é saúde; pelo contrário, Wittgenstein nos ajuda a entender o significado como o uso do signo num contexto. Se considerarmos o conjunto de normas, regras e crenças criadas no sentido de compreender o que é saúde, seja ela individual ou coletiva, encontramos uma enorme diversidade de opções e a prevalência histórica da perspectiva, chamada bio-medicina. Essa idéia/imagem de saúde é um paradigma-verdade que se impõe (Foucault, 1979); podemos romper alguns dos velhos preconceitos da bio-medicina, fazendo articulações com os usos do conceito de saúde da própria prática epidemiológica. A descrição etnográfica do jogo de linguagem que se propõe a sanar os problemas de saúde na coletividade, aponta para o choque entre o poder do saber instituído e o poder do saber que se constrói na própria cotidianidade das populações envolvidas.

Para Wittgenstein o funcionamento da linguagem assemelha-se a um ‘jogo’, a linguagem escrita é um ‘jogo’ diferente da linguagem falada, assim como o gestual difere da pintura. Aos diversos ‘jogos de linguagem’ correspondem regras gramaticais que não devem ser confundidas com as regras didáticas de gramática, estas servem somente para o aprendizado da língua escrita. A essência de uma linguagem são suas regras, sabemos como elas são, mas, se nos perguntam sobre elas, não saberemos como explicá-las. A regra é um conceito que se esconde quando queremos fechá-lo. As palavras demonstráveis ou nomes são como etiquetas grudadas às coisas e, através de analogias com os processos de afixação destas, ou seja, com o paradigma que representa estes processos, é possível ao homem formular seus conceitos através de imagens:

“é justamente no nível dos conceitos que surgem as imagens, pois não é com palavras (de significado demonstrável) que as imagens entram nos jogos de linguagem” (Moreno, 1993:27).

O conceito de saúde é uma regra do ‘jogo de linguagem’ epidemiológico que pode ser re-aprendida através de uma terapia que lhe devolva a fluidez conceitual de uma ‘forma de vida’. A fluidez da regra é gramatical. Segundo Wittgenstein, a exemplificação das possibilidades de uso de um conceito podem quebrar o encantamento de uma imagem associada a esse conceito:

“É como se tivéssemos que penetrar os fenômenos: mas nossa investigação não se dirige aos fenômenos, e sim, como poderia dizer, às ‘possibilidades’ dos fenômenos” (Wittgenstein, 1994:65)

Como seria uma prática epidemiológica sem a busca da imagem conceitual fixa? A linguagem epidemiológica seria uma regra que pode ser entendida como uma prática em busca da superação da relação mediada do homem com sua própria saúde (Gadamer, 1996). Nossa reflexão sobre os usos do conceito de saúde na prática epidemiológica, deiticamente pretende designar demonstrando e não conceituando.

A discussão sobre a praxiologia do conceito de saúde passa a abranger, então, uma gama de interlocutores que vão além da tradicional distinção entre as chamadas ciências hard e soft, em direção a uma ciência que se busque reconhecer em seu “mundo” e em seus atores/agentes. Rorty (1991), por exemplo, argumenta a favor de uma comunidade científica na qual ocorra um encontro livre e aberto, uma mistura entre concordância não forçada e discordância tolerante, longe da rigidez metodológica quanto aos modelos de verdade, objetividade e representação da realidade. Já Santos (1989:77), estendendo os vínculos entre os diferentes sujeitos, intensifica o discurso por uma nova aproximação entre ciência e senso comum (segunda ruptura epistemológica).

Assim, surge a idéia de uma Epidemiologia da Narratividade (Samaja, 1998), esta seria a redefinição social do papel do epidemiólogo, no sentido de sua reinserção no contexto da pesquisa, fruto do reconhecimento da capacidade de interação e de troca do pesquisador com a população pesquisada. Ou seja, através de uma terapia, ao nível dos conceitos (Wittgenstein), pode-se redimensionar a prática discursiva da Epidemiologia.

“Tomando-se essa nova perspectiva, a patologia, como entidade físico-computável, perde esse valor fascinante, permanecendo, contudo, referida à patologia semiótico-narrativa, isto é, aos processos reprodutivos, ao conflito e às transações que emergem dos contextos socioculturais no âmbito dos quais é produzida” (Samaja, 1998:34).

A patologia seria a própria sociabilidade que a engendra. A Epidemiologia reflete esta sociabilidade, enquanto parte do todo social. A etnografia espelha o contexto da prática epidemiológica e aponta para os pontos cegos de sua convivência com o entorno. Seja internamente, ao sustentar seu poder enquanto ciência, seja para a exterioridade quando atende demandas, sob a égide de seu suposto saber. A Epidemiologia tem tentado ignorar o que faz quando põe em suas próprias mãos a responsabilidade pela cura que não pertence a ela sozinha, esquecendo assim, o poder de transformação que a sincera interação com a população pode ocasionar. Esta seria uma das prévias conclusões críticas que nossa etnografia aponta, no ainda corrente processo de análise.

BIBLIOGRAFIA

BLOOR, D. Left and Right Wittgensteinians. In: Science as Practice and Culture. Chicago: University Chicago Press, 1992.

Bunge, M. Sociología de la Ciencia. Buenos Aires: Siglo Veinte, 1993

Foucault, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979

GADAMER, HG. The Enigma of Health, California: Stanford University Press, 1996.

Latour, B. e Woolgar, S. A Vida de Laboratório: A Produção dos Fatos Científicos. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1997.

LATOUR, B. Jamais Fomos Modernos: ensaio de antropologia simétrica. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994

Leydesdorff, L. The Knowledge Content of Science and The Sociology of Scientific Knowledge. Journal for General Philosophy of Science. 23: 241-263, 1992.

LYNCH, M. Extending Wittgenstein. In: Science as Practice and Culture. Chicago: University Chicago Press, 1992.

________. Scientific Practice and Ordinary Action: ethnomethodology and Social Studies of Science. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.

MORENO, Arley. Wittgenstein: Através das Imagens. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1993.

RORTY, R. Objectivity, Relativism and Truth. Cambridge: Cambridge Univ. Press, 1991.

SAMAJA, Juan. Epistemologia e Epidemiologia. In: ALMEIDA-FILHO, Naomar (org.). Teoria Epidemiológica Hoje: Fundamentos, Interfaces, Tendências. RJ: FIOCRUZ/ABRASCO, 1998.

Santos, B.S. Introdução a uma Ciência Pós-Moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1989.

Shapin, S. Here and Everywhere: Sociology of Scientific Knowledge. Annu. Rev. Sociol. 21: 289-321, 1995.

Traweek, S. An Introduction to Cultural and Social Studies of Sciences and Technologies. Culture, Medicine and Psychiatry. 17:3-25, 1993.

Wittgenstein, L. Investigações Filosóficas. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

[1] Pesquisa coordenada por Prof. Naomar Almeida-Filho (ISC/UFBa)

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