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Pontos de Cultura – por uma politica cultural mestiça, digital, tropicalista e global (2010)

Andre Stangl

O povo sabe o que quer/
Mas o povo também quer/
o que não sabe
Gilberto Gil

Para compreender o alcance, a profundidade e as dificuldades de um programa como os Pontos de Cultura, implantado pelo Ministério da Cultura (MinC) do governo do Brasil, primeiro será necessário contextualizá-la dentro do cenário da cultura local. O Brasil é um país com uma realidade social complexa e desigual, um povo mestiço, uma geografia descomunal e umademocracia recente. Sobre esse contexto, em seu discurso de posse, o atual Ministro da Cultura, Juca Ferreira, nos lembra que:

Apenas 13% dos brasileiros freqüentam cinema alguma vez por ano; 92% dos brasileiros nunca entraram em um museu; 93,4% jamais freqüentaram alguma exposição de arte. Reparem que quase todos os dados estão na casa dos 90, alguns chegam aos 70, 78%, o que significa que menos de 30% dos brasileiros, no máximo, estão incorporados a algumas dessas atividades. Cerca de 80% nunca assistiram a um espetáculo de dança, embora 28,8% saiam para dançar freqüentemente, ou seja, valorizam a dança. Mais de 90% dos municípios brasileiros não possuem salas de cinema, teatro, museus e espaços culturais multiuso. O brasileiro lê, em média, 1,8 livros per capita ano contra, por exemplo, 2,4 da Colômbia e 7 da França; aqui 73% dos livros estão concentrados nas mãos de apenas 16% da população. O preço médio de um livro no Brasil é de R$ 25,00 (11,26 euros), o que é elevadíssimo, quando se compara à renda dos brasileiros das classes C, D e E. Dos cerca de 600 municípios brasileiros que nunca receberam uma biblioteca, 405 ficam no nordeste e apenas dois no sudeste. (FERREIRA, 2008)

Esses são dados recentes e dão uma ideia do abismo social e conceitual que separa a realidade da imensa maioria da população brasileira das facilidades de acesso a informação nos centros urbanos no sudeste do pais, região que concentra os principais meios de comunicação de massa, TVs, jornais, revistas, etc. Nessa região, onde estão as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, está concentrada também a “elite” cultural do pais. Ainda que nas periferias dessas cidades cresça a presença do resto do Brasil, o imigrante encontra pouco espaço para suas manifestações culturais.

O Projeto Pontos de Cultura foi criado em 2004. O seu nome se deve a uma analogia com os meridianos do Do-in, técnica terapêutica que estimula ou seda pontos energéticos. Nas palavras do então ministro Gilberto Gil:

Para fazer uma espécie de do-in antropológico, massageando pontos vitais, mas momentaneamente desprezados ou adormecidos, do corpo cultural do País. Enfim, para avivar o velho e atiçar o novo. Porque a cultura brasileira não pode ser pensada fora desse jogo, dessa dialética permanente entre a tradição e a invenção, numa encruzilhada de matrizes milenares e informações e tecnologias de ponta. (GIL, 2003)

O projeto surge como uma alternativa, que inverte a logica clássica da criação de centros culturais. Isto é, ao invés de construir estruturas físicas que envolvem altos custos com manutenção e contratação de funcionários, a proposta dos Pontos de Cultura é valorizar os processos culturais e

[…] estimular as produções culturais já existentes e dispersas em todo o país. […] Desde o princípio havia uma real intenção de envolver uma parte da sociedade que estava afastada do campo de atuação do Estado. “Comumente excluído das políticas públicas, com o Ponto de Cultura as expressões tradicionais se afirmam como sujeitos diferenciados na forma de fazer política”. Portanto, ainda que alguns Pontos de Cultura sejam instituições que já possuam relações com o Estado – a exemplo de sindicatos atuantes e Organizações Não-Governamentais bem estruturadas –, são com comunidades tradicionais, grupos indígenas, quilombolas, dentre outros, que o Projeto mais se identifica. Dessa forma, ele dá visibilidade a expressões que não eram até então objeto da política governamental. (LACERDA, 2010)

Atualmente existem mais de 2.500 pontos de cultura, um número que sofre flutuações, por conta das renovações ou não dos convênios. Segundo Turino (1), “em torno dos pontos de cultura há oito milhões de pessoas. Desses, 750 mil já fizeram alguma capacitação. Nós geramos, com os pontos de cultura, 25 mil postos de trabalho” (TURINO, 2010).

dados
dados (2)

Lembrando que o MinC tinha o menor orçamento do Governo, R$ 298 milhões, ou seja 0,2% do orçamento federal, nos primeiro quatro anos, e agora passou para 2 bilhões e meio de reais. Mesmo assim, se comparado a outros setores considerados prioritários, como saúde, educação, etc. ainda é um valor modesto. Os Pontos de Cultura, em 2007, consumiam 15,4% desse orçamento (cf. LACERDA: 2010), ou seja, apesar do potencial e da complexidade são ações de baixo custo. O processo de seleção se dá através de editais públicos. A partir daí, os agentes e iniciativas culturais que são selecionados por uma comissão assinam, então, um convênio com o governo e passam a receber por três anos consecutivos o valor de 60 mil reais/ano (27 mil euros), num total de 180 mil reais (81 mil euros). A Cultura digital é um aspecto importante do projeto, com a inserção de kits multimídias (computadores, câmeras de vídeo, etc) e conexão a Internet nos Pontos de Cultura. Isso permite “que grupos culturais digitalizem e publiquem sua criatividade dentro de licenças alternativas. O projeto mistura (1) software livre, (2) conceitos avançados de direitos autorais e (3) uma consciência de que a apropriação da tecnologia pelo povo é um movimento social emergente”. (MURILO, 2008). A Cultura digital também amplia as possibilidades de interligação entre os Pontos de cultura. Além disso “uma das maneiras de promover a integração dos Projetos é a realização anual do Encontro Nacional dos Pontos de Cultura, denominado “Teia”, que desde 2006 vem se constituindo como um espaço de convivência, intercâmbio, articulação e, principalmente, de fortalecimento dos Pontos de Cultura. A partir da Teia foram formados o Fórum Nacional de Pontos de Cultura e a Comissão Nacional de Pontos de Cultura.” (LACERDA, 2010)

Cultura digital

Segundo McLuhan, a imprensa criou o individualismo e o nacionalismo no século XVI na Europa. De forma semelhante, a televisão e o rádio ajudaram a criar no Brasil a ideia de unidade identitária, uma identidade nacional construída eletronicamente, fluida e transterritorial. Nesse ambiente, a cultura digital encontra terreno fértil para se expandir. Segundo dados do Cetic (3), no Brasil, em 2008, 29% dos jovens de 10 a 15 anos tinham acesso a computadores em escolas, 35% em casa e 58% através de lan-houses. Hoje, as lan-houses se configuram como um importante espaço de sociabilidade para os jovens, principalmente das camadas populares. Esses dados mostram toda a potencialidade de apropriação, de protagonismo, de criação e de difusão cultural que as redes digitais criam. Faltava apenas encontrar formas persuasivas de qualificação dessa presença na rede. Nesse contexto, a inserção da cultura digital nos Pontos de Cultura e o recente diálogo do MinC com as lan-houses semeiam de uma forma profunda uma revolução cultural de escala global. Segundo Gil:

Atuar na cultura digital é a concretização desta filosofia, que abre espaços para redefinir a forma e o conteúdo das políticas culturais, e transforma o Ministério da Cultura… Cultura digital é um novo conceito. Ele vem da idéia de que a revolução da tecnologia digital é cultural em sua essência. O que está em questão aqui é que o uso da tecnologia digital muda comportamentos. O uso comum da internet e do software livre cria possibilidades fantásticas para democratizar o acesso à informação e ao conhecimento, para maximizar o potencial dos produtos e serviços culturais, para ampliar os valores que formam nossos textos comuns, e portanto, nossa cultura, e também para potencializar a produção cultural, gerando novas formas de arte. (GIL, 2003)

Ampliando a cultura

A essência da gestão Gil no MinC (2003-2008) foi inaugurar uma nova perspectiva do conceito de cultura: uma “noção ‘antropológica’ permite que o Ministério deixe de ter seu raio de atuação circunscrito ao patrimônio (material) e às artes (reconhecidas) e abra suas fronteiras para outras culturas: populares; afro-brasileiras; indígenas; de gênero; de orientação sexual; das periferias; audiovisuais; das redes e tecnologias digitais etc.” (RUBIM, 2010). Esse alargamento cria dificuldades operacionais, mas é inegável o seu papel na promoção social, uma vez que reconhece o valor de vários setores que permaneciam excluídos.

E o que entendo por cultura vai muito além do âmbito restrito e restritivo das concepções acadêmicas, ou dos ritos e da liturgia de uma suposta “classe artística e intelectual”. Cultura, como alguém já disse, não é apenas “uma espécie de ignorância que distingue os estudiosos”. Nem somente o que se produz no âmbito das formas canonizadas pelos códigos ocidentais, com as suas hierarquias suspeitas. Do mesmo modo, ninguém aqui vai me ouvir pronunciar a palavra “folclore”. Os vínculos entre o conceito erudito de “folclore” e a discriminação cultural são mais do que estreitos. São íntimos. “Folclore” é tudo aquilo que não se enquadrando, por sua antigüidade, no panorama da cultura de massa é produzido por gente inculta, por “primitivos contemporâneos”, como uma espécie de enclave simbólico, historicamente atrasado, no mundo atual. Os ensinamentos de Lina Bo Bardi me preveniram definitivamente contra essa armadilha. Não existe “folclore” o que existe é cultura. (GIL, 2003)

Um Mistério tropicalista

A importância dessa concepção pode ser compreendida e aprofundada quando visualizamos a trajetória artística do próprio ex-ministro(4). Gil, Caetano Veloso, Tom Zé entre outros músicos e artistas foram personagens fundamentais na revolução estética e ética da contracultura brasileira nos anos 60: a Tropicália ou Tropicalismo. Para Rogério Duarte:

o Tropicalismo foi a síntese entre a criatividade ingênua do povo e a militância marxista. Descompartimentalizava tudo. O samba do morro era respeitado, mas não era arte maior. Os tropicalistas subvertem essa hierarquia. Oswald de Andrade falava da contribuição milionária de todos os erros. Usamos a contribuição milionária de todas as nossas ilusões. O Tropicalismo cumpriu uma parte da revolução, modernizando o Brasil em termos de ética. (DUARTE, s/d)

O principio ético da Tropicália está no respeito ao sentido humano de toda expressão artística, sem cânones, sem regras, sem top ten. Como diz Cláudio Prado (5), “não é uma invenção, é uma constatação da nossa possibilidade miscigenada de entender as coisas, a essência da cultura brasileira é tropicalista” (SAVAZONI, 2009). A Tropicália é herdeira da antropofagia modernista de 22, mas, mais que isso, é um reflexo da retroalimentação de informações que a aldeia global eletrônica intensifica no horizonte de nossas linguagens. Segundo Gil:

Você tem uma marca, semântica, conceitual que pode servir de referência para a compreensão disso que é a antropofagia, essa capacidade de fusão e absorção que virou uma marca desde Oswald de Andrade, passando pela Tropicália. E hoje tem um brasilificação do mundo, do modo de querer ser trágico da maneira que o Brasil é, ser alegre e triste ao mesmo tempo. Tristes trópicos e alegria carnavália. Essa capacidade talvez antecipada aqui no Brasil de viver o trágico pós-moderno contemporâneo. O Brasil é isso, um modo de ser que é adequado ao homem contemporâneo que vive universalmente. E isso era ridicularizado por todos que advogavam ainda uma modernidade para o Brasil, uma configuração mais definitiva do Brasil como um país moderno, com uma identidade nacional muito clara. Mas hoje não dá mais para negar que o Brasil nasceu para ser uma universalidade, não nasceu para ser uma nacionalidade. Essa era a crítica básica que certos setores que queriam que o Brasil fosse uma potência tal qual as potências sempre foram. A ideia de potência ligada a uma identidade, a uma materialidade instrumentalizável. E o Brasil é uma virtualidade. Como hoje a virtualidade está no plano da própria atualidade, o Brasil virou uma atualidade. Não como país, mas como mundo. É uma coisa simples… teve a China, teve a Grécia, agora tem o Brasil… (SAVAZONI, 2009)

O paradigma da mestiçagem

A Tropicália inaugura uma lógica mestiça. Segundo Serge Gruzinski, esta é multifacetada e fruto de uma nova racionalidade. A questão central é entender de que forma as culturas se misturam e quais as conseqüências desse hibridismo. O termo Hibridismo vem do grego hybris, que quer dizer destempero e excesso. É também um dos conceito centrais para se entender o legado da tradição helenista. No Fedro, Platão descreve a hybris como a transgressão da justa medida, sendo, portanto, uma expressão do caos com suas múltiplas faces e partes. O termo adquiriu ao longo da história um sentido de impureza e mistura. Consciente da dificuldade conceitual do hibridismo, Gruzinski opta por uma abordagem a princípio fenomenológica: aceitar em sua globalidade a realidade mesclada que temos diante dos olhos é um primeiro passo (GRUZINSKI, 2001). Mas não há como evitar a ambigüidade e a ambivalência da mestiçagem – são elas características próprias dos híbridos –, por isso uma possibilidade de abordagem surge da descrição do fenômeno da mestiçagem e não de sua explicação. Citando Wittgenstein, Gruzinski afirma que é difícil aceitar que “as leis da lógica, terceiro excluído e contradição, sejam arbitrárias”, que nossa racionalidade, ou nossa “lógica ordinária”, seja convencional, produto de uma história, de uma tradição e de um meio.

Para Torquato Neto, a Tropicália: “Assume completamente tudo que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra, ainda desconhecido” (WIKIPEDIA, 2010). A estética da Tropicália é um exemplo desse paradoxo lógico. Essa constatação choca nossos hábitos de pensamento, pois ainda hoje a presença de contradições é considerada uma marca irrecusável do irracional. Temos a tendência de enxergar os elementos isoladamente, o que, no caso das obras híbridas, sempre revela uma incompletude, nem uma coisa nem outra. O desafio está justamente em perceber a obra híbrida como ela mesma é, ambivalente e ambígua. O híbrido não é a marca deixada pela continuidade da criação. É o produto de um movimento, de uma instabilidade estrutural das coisas. Evitando lhe restringir a polissemia, podemos com ela aprender uma nova forma de percepção. Sobre a lógica mestiça da Tropicália, Gil comenta:

Quando era bem jovem, nos anos 60, e estava me tornando conhecido no Brasil, fui vaiado por uma platéia de estudantes universitários por ter me apresentando acompanhado de um grupo de rock. Esses estudantes achavam que as guitarras elétricas poderiam destruir a autêntica cultura brasileira. Mas sempre pensei cultura como uma obra aberta, como um software de código aberto. As trocas com o que é dos outros, a antropofagia cultural constante, fazem parte das vitalidades das culturas, e a possibilidades de trocas livres devem ser preservadas contra qualquer tentativa de imposição. (GIL, 2003)

A linguagem também se transforma com o fenômeno da mestiçagem, surge um novo idioma planetário e este é também a expressão de uma retórica mais elaborada que deseja ser pós-moderna e pós-colonial, e na qual o híbrido permitiria se emancipar de uma modernidade condenada por ser ocidental e unidimensional. Para além dos estereótipos do exotismo, o hibridismo impõe uma nova mentalidade, da qual uma parte do chamado pensamento pós-moderno é filha. O fenômeno do hibridismo cultural atinge diversas sociedades das mais diversas formas. Mas é reconhecidamente a principal característica cultural do Brasil.

O antropólogo Hermano Vianna fez em seu livro “O Mistério do Samba” um interessante mapeamento do conceito de mestiçagem na obra de Gilberto Freyre. Segundo ele, Freyre “conseguiu executar a façanha teórica de dar caráter positivo ao mestiço” (VIANNA, 1995), numa época, década de 30, em que tal característica era considerada um dos piores males no drama do desenvolvimento brasileiro. Uma nação que aspirava o ideal da europeização e repudiava todos os elementos que, com a ajuda de Freyre, iriam constituir os futuros símbolos da identidade nacional: samba, mestiçagem e clima tropical.

O fenômeno da miscigenação não é novo, a sua memória se perde na história humana. Povos nômades foram os semeadores da espécie no planeta. A consolidação do estado-nação europeu se deu, pelo contrário, com a maturação do sedentarismo de alguns povos. Dessa sedimentação nasceu uma revolução tecnológica: as grandes navegações. E novamente os nômades semearam outros portos. Passados alguns anos, um pouco mais de 500, outra revolução tecnológica empurra os nômades em sua cíclica missão: as redes digitais. Falar de mestiçagem, em um sentido mais amplo, é falar da vida em sua totalidade, é o amalgama da diversidade humana, sem que nossa visão esteja direcionada por qualquer perspectiva cultural exclusiva. É olhar o caos e aceitá-lo como parte de nós. A ideia de mestiçagem quer romper a armadura da cultura, é a identidade sem entidade, é a origem de novo, é a invenção da tradição. Essa lógica mestiça e tropicalista está no DNA do programa Pontos de Cultura, porque cada ponto é uma rede de agentes e de possibilidades culturais.

Conclusão

É obvio que muitas questões práticas, muitos ajustes institucionais, muitos debates e revisões jurídicas são necessárias para a expansão desse modelo experimental. Como lembra Albino Rubim:

Pensar, em especial em uma atividade com tanta abertura potencial, exige antes de tudo abandonar verdades prontas. Diversos temas devem ser enfrentados em todas as suas contradições e complexidades. Dentre eles podem ser lembrados as vitais relações culturais entre: tradição e inovação; local, regional, nacional e global; estado, sociedade civil e mercado; fazer e pensar; sustentabilidade ou não das atividades culturais; diferenciadas modalidades culturais e diversidade cultural. O desenvolvimento das potencialidades inscritas no programa / projeto (Pontos de Cultura) tem como requisito fundamental o fortalecimento da participação ativa e o estímulo a radicalidade dos debates. (MinC, 2010b)

Levando em conta o fato de ser um projeto ainda em curso, um work in progress, alguns aspectos ainda carecem de mais dados para serem devidamente analisados, mas, no entanto, podem ser aqui comentados. Tenho dúvidas sobre os pros e contras de se usar o rótulo “Pontos de Cultura”, muitas iniciativas espontâneas da cultura popular, ou mesmo da cultura urbana, parecem confusos com essa classificação. É comum ver no discurso de alguns agentes culturais a afirmação de que antes de ser “ponto de cultura”, já era “ponto de cultura”. Nas tentativas de organização da “classe” dos pontos de cultura, muitas vezes se percebe vícios de uma estrutura sindical, que identifica o MinC como uma espécie de patrão. Ainda que o MinC tente delegar e descentralizar seu poder, esse paradoxo pode enfraquecer a autonomia dos pontos enquanto movimento social. Mesmo porque, o primeiro passo no sentido dessa mobilização foi dado pelo governo. Mas, apesar da aparente fragilidade da identidade dessa rede, ela dá sinais de que pode se recompor de forma espontânea, uma vez que agora tem informações e nós suficientes para agir em nome do seu valor enquanto cultura.

O insight do Gil estava absolutamente correto […] verificar como que nas periferias brasileiras, como a molecada reagia à internet nessa dimensão cultural. Foi isso que deu a visibilidade internacional para essa história toda, através da capa da revista Wired. Não era simplesmente um discurso, ainda que o discurso em si já seja fantástico. O pensamento do Gil teve repercussões até dentro da UNESCO. A Convenção da Diversidade foi inteirinha pautada por uma visão da diversidade que sem o digital não existiria jamais. […] É impossível imaginar a diversidade a não ser pela sua fada madrinha que é o digital, que possibilita a distribuição. O discurso ficaria totalmente vazio se não houvesse essa compreensão prática. A periferia brasileira está avançadíssima em relação à compreensão do digital. O digital age de forma instantânea, há um fenômeno similar de compreensão do que é possível ser feito na era pós-industrial, pós-trabalho. (SAVAZONI, 2009).

A burocracia cria um dos maiores entraves do programa, uma vez que a legislação não foi pensada para construir uma relação com a cultura popular, mas sim como uma forma de manter os privilégios das “elites” culturais. Mesmo assim, numa postura muitas vezes de enfrentamento da máquina burocrática, o programa cresceu e tem forçado a criação de alternativas legais. Para a “elite” cultural do país, muitas das propostas do MinC soam absurdas, inviáveis, de mau gosto, kitsch, populares, primitivas, exóticas, atrasadas…. Por isso mesmo, na mídia controlada por essa “elite”, são raras, ou mesmo inexistente as referências ao projeto Pontos de Cultura. Aqui podemos ver aquilo que Massimo Di Felice chama de “demofobia”:

A participação ativa do público nos diversos setores da sociedade e o acesso as informações pelas massas nunca foi bem visto pela aristocracia e pelas elites. Periodicamente na história é possível reencontrar as mesmas críticas, as mesmas argumentações hostis, que em contextos e épocas diferentes, tinham aversão ao ingresso, na vida pública, da população e dos setores até então excluídos. Na época clássica, junto à participação popular propiciada pelo teatro, surgirão também as primeiras críticas que questionavam a função social de tais eventos comunicativos, como se estes encorajassem a participação excessiva das massas, constituindo influências negativas para a sociedade. (FELICE, 2008)

A experiência dos Pontos de Cultura, projeto experimental e tropicalista do Ministério da Cultura (MinC), pode ser vista e analisada sob ângulos diversos. Enquanto opção política e ética em defesa da diversidade, reflete um dos maiores desafios do mundo contemporâneo: a superação de qualquer tipo de concentração, seja de informação, conhecimento, atenção, sexualidade, estética, emocional, econômica, espiritual e temporal. Estamos passando por uma crise do sentido, o que pode indicar uma transformação das clássicas culturas identitárias em uma “pós-cultura” planetária (Cf. LÉVY, 2000: 25). O sentido cultural é simbólico e contextualizado, assim, na interconexão da sociedade global interagindo em sistemas de redes digitais, o sentido torna-se polissêmico. Em outras palavras, na cultura digital, vivemos uma intensificação das nossas trocas simbólicas em uma escala planetária. O programa dos Pontos de Cultura é uma iniciativa do MinC que toca os acordes de uma sociedade pós-humanista, pós-nacionalista, pós-cultural e pós-histórica.

BIBLIOGRAFIA

DI FELICE, Massimo (org). Do Público para as redes: a comunicação digital e as novas formas de participação social. São Caetano do Sul, SP: Difusão, 2008.

DUARTE, Rogério. Entrevista. (s/d) Disponível: http://tropicalia.uol.com.br/site/internas/entr_duarte.php

FERREIRA, Juca. Discursos do Ministro da Cultura Gilberto Gil. Brasília, Ministério da Cultura, 2008. Disponível: http://www.cultura.gov.br/site/categoria/o-dia-a-dia-da-cultura/discursos/

GIL, Gilberto. Discursos do Ministro da Cultura Gilberto Gil. Brasília, Ministério da Cultura, 2003. Disponível: http://www.cultura.gov.br/site/categoria/o-dia-a-dia-da-cultura/discursos/

GIL, Gilberto e RISERIO, Antonio. O poetico e o politico e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

GRUZINSKI, Serge. O Pensamento Mestiço. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

LACERDA, Alice Pires de; Marques, CAROLINA de Carvalho e ROCHA, Sophia Cardoso. Programa Cultura Viva: uma nova política do Ministério da Cultura. In: RUBIM, Antonio Albino Canelas (org.). Políticas culturais no Governo Lula. Salvador, EDUFBA, 2010.

LÉVY, Pierre. A Internet e a Crise do Sentido. In: PELLANDA, Nize Maria Campos e PELLANDA, Eduardo Campos. Ciberespaço: Um Hipertexto com Pierre Lévy. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000.

MINISTÉRIO DA CULTURA (MinC). Cultura Viva: Autonomia, Protagonismo e Fortalecimento SócioCultural para o Brasil. Brasília: Ministério da Cultura, 2010a. Disponível: http://issuu.com/teia2010/docs/culturaviva

__________________________. Seminário Internacional do Programa Cultura Viva – Novos Mapas Conceituais. Brasília: Ministério da Cultura, 2010b. Disponível: http://issuu.com/teia2010/docs/seminarioculturaviva

MURILO, José. Gilberto Gil: a voz tropicalista por uma cultura digital aberta. (2008). Disponível: http://www.cultura.gov.br/site/2008/08/25/gilberto-gil-aquele-abraco/

RUBIM, Antonio Albino Canelas .Políticas culturais no Governo Lula: uma análise preliminar. In: RUBIM, Antonio Albino Canelas (org.). Políticas culturais no Governo Lula. Salvador, EDUFBA, 2010.

SAVAZONI, Rodrigo e COHN, Sergio (org.). Cultura digital.br. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2009. Disponível: http://culturadigital.br/blog/2009/09/26/baixe-o-livro-culturadigital-br/

TURINO, Celio. Bate-Ponto do Jornal O Povo Online (entrevista). Disponível: http://celioturino.com.br/blog/2010/03/26/bate-ponto-do-jornal-o-povo-online/ (acessado em 15/06/2010)

VIANNA, Hermano. O Mistério do Samba. Rio de Janeiro: Zahar/UFRJ, 1995.

WIKIPEDIA. Verbete Torquato Neto. 2010. Disponível: http://pt.wikipedia.org/wiki/Torquato_Neto


Notas

(1) Célio Turino. Ex-titular da Secretaria de Cidadania Cultural do MinC

(2) Minc, 2010a

(3) CETIC.br – Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (www.cetic.br)

(4) Também vale a pena, chamar a atenção para a gestão Gil na Fundação Gregório De Mattos (Salvador, Bahia) na década de 80, pois muitos dos princípios tropicalistas de suas ideias para a politica publica da cultura já estava prenunciadas ali. (cf. GIL e RISERIO, 1988)

(5) Coordenador do Laboratório Brasileiro de Cultura Digital. Um dos responsáveis pela inserção da cultura digital no MinC.

4 comentários sobre “pontos-de-cultura

  1. astangl disse:

    Esse texto foi apresentado em Málaga (Espanha), em 09/07/2010 no evento “Repensando la metrópolis. Prácticas experimentales en torno a la construcción de nuevos derechos urbanos” – http://centrodeestudiosandaluces.es/actividades/sitios/repensando_metropolis/

    alguns links:
    – apresentação foi filmada – http://tinyurl.com/36tezyb
    – slide – http://www.astangl.net/faap/wp-content/uploads/2014/01/pontos.pdf
    – áudio de minha apresentação – http://bit.ly/cApAu6
    – vídeo q usei na abertura – http://www.youtube.com/watch?v=INtVFbiBoes

    abçs

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