@tivismo

Mudando o mundo com um link na cabeça e a rede nas mãos (2012)*

Andre Stangl

O mundo vive hoje uma explosão de mobilizações, quase todas ampliadas e organizadas através da internet. Dependendo de sua time-line, ou seja de quem você segue, todo dia tem uma ou duas denúncias importantíssimas, que se não forem repassadas imediatamente podem até tirar o sono dos mais sensíveis. Quem já não ficou em dúvida? Retuito isso? Compartilho ou dou só uma curtida? Tem períodos que numa mesma semana podem chegar duas ou três convocações absolutamente imperdíveis. Brincadeira séria essa, que às vezes pode ter consequências efetivas, vide o efeito dominó da Primavera Árabe, onde uma espantosa sucessão de revoltas clamando por mais democracia em países onde o sentido desse conceito é ainda nebuloso, se espalhou chegando a Espanha e reverberando em Wall Street. Ainda não sabemos onde esse poder nos levará, mas olhar seu rastro pode nos inspirar sobre os novos rumos e possibilidades.

Nem todo jovem é ativista, mas todo ativista tem juventude no olhar. Mudar, transformar, ajudar, sonhar. O desejo de mudança é milenar, não tem data nem lugar, a humanidade nasceu nômade pelo menos até a revolução agrícola e o proto-urbanismo que abriram o caminho para o surgimento do sofá, da geladeira e do controle remoto, bases da cultura sedentária, mas isso é outra história. Aqui nos interessa tentar entender esse barato coletivo, que às vezes consegue nos fazer levantar do sofá e tomar as ruas. A origem do ativismo se perde na história dos povos, quem terá sido o primeiro a protestar? A revolta de um protesto difere da fúria de uma guerra, é mais como um turbilhão que nasce dentro do próprio corpo social, o que nos revolta sempre é familiar, sempre está em nosso entorno e acreditamos que com nossa manifestação de desconforto com o estado das coisas, alguma coisa pode mudar.

A cultura pop glamoriza a rebeldia, James Deans, Elvis, punks, beatniks, hippies, guerrilheiros, undergrounds, rappers, etc. A rebeldia, além de necessária é bela. Curioso paradoxo, a rebeldia também vende. Mas nem por isso deixa de ser menos transformadora, a multiplicação de gadgets, celulares e filmadoras conectadas na rede, são produtos e também são as armas da Geração do Protesto 2.0. Alguns vídeos do movimento #15m na Espanha são tão bem feitos quanto peças publicitárias. Wittgenstein dizia que ética e estética são uma coisa só, talvez ele esteja certo.

A ligação entre arte e política pode ter um efeito intensificador para ambas, desde Maio de 68 com os situacionistas, o artivismo tá na praça. Nos anos 60 tinha até música de protesto, no Brasil, com a ditadura a mpb se especializou em fazer mensagens cifradas para driblar a censura, uma das mais famosas foi a parceria de Gil e Chico, na música “Cálice”. Os anos 60 foram pródigos em passeatas: Contra a Guerra no Vietnam (EUA), o Contra o Apartheid (África do Sul, 1960), Passeata dos Cem Mil (Rio de Janeiro, 1968), e por fim, o Maio de 68 (França, 1968). Este último, talvez o mais próximo do clima das mobilizações atuais, basta dar uma olhada nas frases da época (pre-tuites?): “Viva o efêmero”, “Sejam realistas, exijam o impossível!”, “É proibido proibir”, “A imaginação ao poder”, “Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo”, “Revolução, eu te amo”, “A revolução não é a dos comitês, mas, antes de tudo, a vossa. Levemos a revolução a sério, não nos levemos a sério” , “Quanto mais amor faço, mais vontade tenho de fazer a revolução. Quanto mais revolução faço, maior vontade tenho de fazer amor” , “Abaixo a sociedade espetacular mercantil” , “Os limites impostos ao prazer excitam o prazer de viver sem limites” , “O sonho é realidade” , “Acabareis todos por morrer de conforto” , “Abaixo os jornalistas e todos os que os querem manipular” , etc.

Outra cria dos anos 60, a internet nasce de um projeto militar na mesma época. O uso político das redes digitais de comunicação está presente desde sua criação, a Arpanet, foi uma proto-internet criada como estratégia militar para evitar o colapso das redes de comunicação caso houvesse uma guerra nuclear. O projeto da Arpanet foi desenvolvido pela DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency), uma agência do Departamento de Defesa do Governo Americano, criada para ser a resposta americana à embaraçosa surpresa que foi o lançamento do satélite soviético Sputinik em 1957. Dá para que a utilização política das redes é uma parte fundamental do próprio DNA das redes, sendo a ética hacker um bom exemplo dessa percepção. Os protocolos que regulam as trocas de dados na rede permitem formas decentralizadas de emissão e recepção de informação ao mesmo tempo que permitem seu aprimoramento de forma colaborativa e aberta. Desde a criação do e-mail na década de 70 e da www no final dos anos 80.

Em 1° de Janeiro de 1994, dia da promulgação do NAFTA (uma forma institucionalizada de panelinha comercial entre os EUA, Canadá e México), começam as ações do Movimento Zapatista em Chiapas no México. Considerado o primeiro caso de ativismo digital, todas suas ações são compartilhadas através do site www.ezln.org., considerado o marco inicial da convergência entre ativismo e redes digitais. Para o pesquisador Massimo Di Felice, co-organizador do livro Votan Zapata, A Marcha Indígena e a Sublevação Temporária, o movimento zapatista inaugura uma nova forma de conflito divulgando seus comunicados pelas redes, conectando-se, assim, a outros movimentos sociais globais e permitindo o acesso à informações e a atuação conjunta da sociedade civil internacional que passou a desenvolver um papel ativo no conflito entre o governo mexicano e as comunidades indígenas através da rede. Em outras palavras, foi a descoberta da pólvora, com a internet surge um novo protagonismo sócio-político que só é possível graças a descentralização das redes, o que dificulta qualquer tipo de censura e potencializa as formas de articulação e mobilização.
Em 1999, as manifestações contra o encontro da OMC (Organização Mundial do Comércio) em Seattle, também seguem esse rastro, usando as redes para se organizar. Como uma forma de furar o silêncio da grande mídia, o movimento que acabou por gerar a criação do projeto Indymedia, o Centro de Mídia Independente, a primeira experiência de jornalismo colaborativo na rede. Estão aí, lançadas as bases do netativismo, ciberativismo, ativismo digital, ou ativismo 2.0, essas são algumas das formas de chamar o fenômeno, que em 2011 foi eleito a personalidade do ano pela revista Time.

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No livro a Galáxia da Internet, o sociólogo espanhol Manuel Castells, traça um histórico da arquitetura aberta da rede e suas implicações sociais e políticas, além de fazer uma analise interessante sobre esse novo panorama. Segundo ele, o individualismo no mundo contemporâneo também funciona em rede. Na Internet explicitamos nossos preconceitos, excluindo ou bloqueando todos aqueles que pensam de forma diferente da nossa. Isso ilustra o paradoxo da vida social contemporânea entre egoísmo e medo, solidão e curiosidade. Ao mesmo tempo que bloqueamos o diverso, nos expomos tuitando e postando coisas no reality show das redes. No entanto, apesar da tentação de vivermos só olhando para o próprio umbigo na rede as redes se cruzam. Um bom exemplo disso são as TTs do twitter. Segundo Castells, a Internet tornou-se uma espécie de ágora (a praça onde os gregos debatiam na antiguidade) digital. Os movimentos sociais de hoje adotam a estrutura das redes e são essencialmente mobilizados em torno de valores culturais. Apesar de herdeiros dos movimentos anteriores, atualmente, estes movimentos não se limitam apenas aos interesses de uma classe, nem se estruturam de forma hierarquizada. Os movimentos sociais de hoje pretendem conquistar poder sobre a mente (noopolitik), não sobre o Estado (realpolitk). A cidadania digital (Netizen), que segundo ele, objetiva reconstruir o mundo de baixo para cima.

A cultura digital, enquanto fenômeno, é um recorte conceitual recente. E como todo conceito tem suas particularidades, controvérsias e contradições. Pode-se dizer, que aquilo comumente compreendido como cultura digital, começa com a difusão das redes digitais, a internet, a redes das redes. Nesse ambiente tecnológico, uma estrutura multi-centralizada de informações, interações e serviços, realizou aquilo que apenas se prenunciava na era dos satélites e das antenas de TV: a experiência do sentir/existir global. Essa é também a experiência de uma nova consciência cultural, ainda em gestação, mas que todos os dias dá sinais de crescer e querer ser. O curioso é que misteriosamente nossa percepção gosta dos contrastes, das dicotomias, assim, onde se vê luz, pressente-se também, em sua ausência, a escuridão. Ou seja, é quando sentimos/existimos globalmente que experimentamos com mais intensidade nossa identidade cultural local. Um exemplo translúcido disso, é a propagação das cores verde e amarelo na época das copas. Um dos poucos episódios midiáticos que permitiam nossa afirmação em escala global, pelo menos antes das redes, para nós que não somos assim, tão chegados em guerras, ainda que nem tão pacíficos como se gostaria. Pois bem, com as redes, a coisa muda um pouco, ainda estamos longe de reconhecer nossas cores (identidade) nesse novo ambiente.

De qualquer forma, a cultura brasileira é um prato cheio para testar essas novas interações. As tecnologias estão no nosso DNA, nossa identidade nacional foi gestada nas Tvs e rádios, não foi lendo que o brasileiro se descobriu brasileiro. Hermano Vianna e Heloisa Buarque de Hollanda, entre outros, tem demonstrado como a periferia brasileira tem gerado modos próprios de apropriação das possibilidades da tecnologia digital. Fenômenos como o funk, o tecnobrega, as lan-houses, a pirataria, as gambiarras, etc. Ao que parece, aqui também os processos colaborativos de criação não encontram tantas resistências. Existem fortes indícios de que existe uma tendência cultural brasileira ao colaborativismo, fruto da influência das tradições afro-indígenas que se manifestam na cultura popular, em festas, cultos e mutirões. Nas artes, o Brasil estaria gestando uma “tecnofagia”, como afirma a pesquisadora Giselle Beiguelman, ou seja, uma forma híbrida de neo-tropicalismo e cultura digital, que pode ter sido influenciada pelas experimentações politico-culturais do Ministério tropicalista da Cultura de Gilberto Gil e sua trupe.

Muitas vezes questionamos a eficácia das petições on-line, dos tuitaços, sem saber se vale apena repassar aquele link, curtir aquela denúncia, alguns até por recear virar o chato da time-line. Uma saída bacana, muito usada na cultura digital brasileira é o humor. Recentemente as ruas de Salvador alagaram depois de chuvas torrenciais, alguém postou uma foto de uma avenida totalmente alagado. Logo em seguida começaram a aparecer versões hilárias da mesma cena. Veja abaixo alguns exemplos.

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Outro autor interessante para compreender o mundo de hoje, Henry Jenkins diz que a convergência das mídias colabora para a criação de uma cultura da colaboração, alterando nossa forma de participar e construindo novos modelos de convivência democrática. Basta ver a mobilização em torno de programas como BBB. Segundo ele, brincando de participar estamos desenvolvendo uma nova consciência, como uma criança que do balbucio aprende a pedir o que quer. Fazendo um pouco de esforço dá até para imaginar se não houve alguma influência no acirrado contexto da disputa eleitoral, em 2002, quando o então candidato a presidência Lula, era alvo de chacota por sua baixa escolaridade e apenas alguns meses antes o ingenuo, Bambam, que também era vítima de preconceito, derrotou seus escolarizados oponentes no 1º BBB… quem sabe?

*texto publicado na Revista Overmundo n° 5 (pdf)

Cronologia
1994 – Movimento Zapatista (México)
1999 – Manifestações contra OMC (Seattle)
2001 – Fórum Social Mundial (Porto Alegre)
2003 – Revolta do buzu (Salvador), blog do Salam Pax (Iraque)
2008 – #leiazeredo (twitter)
2009 – #forasarney (twitter)
2010 – Primavera Árabe (Norte da África)
2011 – Protestos na Espanha, Occupy Wall Street,
Churrasco da gente diferenciada (São Paulo), Marcha da Liberdade/Maconha (Brasil)
2012 – Movimento #desocupa (Salvador)

“10 táticas para transformar informação em ação”
1. Mobilize pessoas
2. Testemunhe e grave
3. Visualize sua mensagem
4. Amplifique histórias pessoais
5. Adicione humor
6. Investigue e exponha
7. Saiba trabalhar dados complexos
8. Use a inteligência coletiva
9. Permita que as pessoas façam perguntas
10. Administre seus contatos
fonte: http://www.casadaculturadigital.com.br/

links de videos
#SpanishRevolution

Video resumen Manifestación 15M Democracia Real Ya

Marcha da Maconha – São Paulo – 2011

Marcha da Maconha SP – Melhores momentos

EZLN (1/7) em 7 partes

clip do músico egípicio Amir Eid gravado na praça Tahrir em pleno protesto.

Mai68: La contestation

WTO Protests: Seattle (1/3) 3 partes

Revolta do buzu

Occupy Wall Street – USA

Desocupa Salvador

churrasco da gente diferenciada

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