cultura nas redes

Cultura nas redes (2013)1

 Andre Stangl2 

Todas as formas de violência são buscas de identidade”
Marshall McLuhan

Preâmbulo baiano

 Imaginemos a vida de um jovem, classe média, consumidor de cultura, arte e/ou entretenimento pop na capital baiana na virada da década de 80 para 90. Na TV aberta, salvo engano, existiam um ou dois programas de videoclips, nas bancas circulava a Revista Bizz, os jornais locais davam pouco espaço ao tema e na cidade inteira existiam dois ou três sebos de discos, onde se podia encontrar as novidades, as raridades e as amizades. Em Salvador, uma cidade com características muito especiais, a cultura popular fervilhava nos bairros periféricos, com blocos afros e bandas de axé, mas, para os jovens que sonhavam com as capas da Bizz, a cultura local era um tormento que se propagava nas ondas do rádio. Ser punk, dark ou grunge sob o sol escaldante da cidade era se chocar com toda uma cidade. Nesse contexto, roupas e cabelos eram formas inequívocas de identificação e se tinha a nítida impressão que todos se conheciam. No entanto, na província baiana, quando acontecia algum show do chamado circuito alternativo era frequente a relativa ausência de público. Nos dois ou três bares da cidade frequentados pelos alternativos, era comum a ladainha culpando o axé, a mpb e o dendê pelas mazelas e dificuldades da cena. Era difícil o acesso a discos, filmes e livros, sem falar em peças de teatro e exposições. Mas como seria a vida desse jovem hoje? Será que a Internet e suas possibilidades mudaram sua realidade? Como e de que forma essa mudança se dá?

Culturas em crise

Para Marshall McLuhan, o desenvolvimento da escrita e do alfabeto geraram uma forma compartimentada de ver o mundo. O alfabeto é uma classificação fonética sem sentido, uma extensão visual de nossa fala. O sentido cultural para o homem de culturas letradas é dado pela leitura, uma forma lenta de compartilhar informação que vem perdendo espaço desde a invenção do telégrafo. Segundo McLuhan (cf. MCLUHAN, 2001, p. 231), o jornal funciona como um mosaico que nos ajuda a organizar a forma como percebemos a realidade. Quando olhamos a capa de um jornal, temos uma sensação de atualização que nos traz uma ideia organizada do caos da nossa realidade.

Se olharmos a evolução da diagramação e das temáticas nas capas dos jornais, desde o seu surgimento, veremos que a forma desse mosaico é um indicativo das transformações que a sociedade estava vivendo. Na época que McLuhan escreve, no começo dos anos 60, vivia-se a transição da cultura centrada no livro para uma cultura elétrica e instantânea. Segundo ele, a cultura do livro é uma forma privada e confessional que induz ao “ponto de vista”, ou seja, uma forma individual de ver o mundo. Já o jornal é uma criação coletiva que depende da participação e da recepção comunitária. Os jornalistas podem até determinar o tipo de exposição dos assuntos, destacando ou omitindo fatos, mas seria simplista falar em indução ou controle do real. A relação entre os jornais e seus leitores é bastante complexa e tem sido objeto de diversas teorias no campo da comunicação (cf. MATTELART, 2011).

Para além da clássica crítica ao determinismo tecnológico mcluhaniano, nos interessa o exercício criativo de enxergar as inter-relações possíveis entre humanos e não-humanos na gestação de uma nova percepção cultural. Para McLuhan, as manchetes jornalísticas foram diretamente influenciadas pela comunicação telegráfica e a gama de assuntos abordados no jornalismo diário espelha a diversidade de interesses humanos, dando indicativos da crise da atenção linear (na visão da clássica cultura tipográfica). O fato dos jornais poderem anunciar toda espécie de produtos numa única página inspirou o surgimento dos shoppings, que também oferecem toda espécie de produtos em um único espaço (cf. MCLUHAN, 2001, p. 227).

Dentro desse ambiente graficamente organizado, com datas e números de páginas, a informação sobre produtos culturais encontra sua principal forma de difusão, sendo a capa dos cadernos culturais a meta máxima. O Jornalismo cultural começa com os cadernos e suplementos de literatura. A primeira intenção era a formalização da crítica e do cânone literário. Segundo Daniel Piza (cf. PIZA, 2003), todas as polarizações do jornalismo cultural (erudito x popular, jornalismo x universidade, nacional x internacional, crítica x reportagem) são consequências de uma perspectiva que encara o leitor como alguém que precisa ser orientado ou auxiliado em seu consumo cultural.

Com o passar do tempo, os cadernos foram absorvendo as mais diversas manifestações culturais: astrologia, moda, música, quadrinhos, artes plásticas, cinema, teatro, etc. E diversificando seu formato em guias, resenhas, estrelinhas, opiniões, agenda, etc. Aqui se explicita a complexa relação entre jornalismo e publicidade. Quem vende? Quem informa? Segundo McLuhan,

O homem ligado ao livro tem a ilusão de que a imprensa seria melhor sem os anúncios e sem a pressão dos anunciantes. As pesquisas têm espantado até os diretores de jornais ao revelarem que os olhos erráticos dos leitores de jornais se deliciam por igual com os anúncios e os textos noticiosos. […] Os anúncios são, de longe, a melhor parte de qualquer jornal ou revista. Um anúncio requer mais esforço e pensamento, mais espírito e arte do que qualquer texto de jornal ou revista. Anúncios são notícias. O que há de mal neles é que são sempre boas notícias. Para contrabalançar o efeito e vender boas notícias, é necessária uma boa dose de más notícias, tendo em vista a intensidade por contraste e a participação do leitor. Como já se observou, notícia de verdade é má noticia (MCLUHAN, 2001, p. 237).

Folheando um jornal impresso, podemos perceber essa imbricada e complementar relação entre jornalismo e publicidade.

Ao longo das últimas décadas, os cadernos culturais assumiam cada vez mais a função norteadora do consumo cultural de uma determinada fatia da sociedade. Mas as fatídicas listinhas dos dez melhores discos e livros cada vez mais foram se distanciado das listagens dos mais vendidos. Com a expansão das redes digitais, esse abismo se intensificou. Segundo Suzana Singer (Ombudsman da Folha):

[…] a revolução das redes sociais é bem-vinda e auxilia o trabalho dos jornalistas, mas não produz um conteúdo de qualidade: “Quem diz ‘eu me informo pela internet’, ou está mal informado ou está mentindo, porque não dá. Hoje em dia, você lê três linhas de cada coisa e acha que está informado. Não é suficiente. Se, no futuro, o papel vai acabar, nem vejo nisso um grande problema, o papel material. Desde que o jornalismo de qualidade esteja com seus paradigmas. E é um jornalismo caro, por isso precisa ser sustentado. Notícia não é de graça”. (Para ela) o acesso gratuito a sites de informação será um “tiro no pé” enquanto as condições do mercado publicitário não mudarem radicalmente. O livre acesso a notícias na rede só se sustentará se publicidade migrar maciçamente para a internet. “Mesmo que você abra parte do noticiário de graça, o resto ainda tem que ser pago. É antipático, o leitor reclama muito disso na Folha, mas eu não vejo nenhuma outra solução de negócio, no momento, para abrir todo o conteúdo de graça online”. A jornalista sublinhou que a renda que sustenta os portais de informação, inclusive no exterior, é a dos jornais impressos (DINIZ, 2011).

Atualmente esse é um dos grandes dilemas do jornalismo, não só o cultural: como usar as redes para falar de cultura sem submergir ante ao fácil. Aqui se explicitam as diferenças entre a forma tradicional de difusão cultural e as novas formas que estão surgindo com as redes. Os principais jornais do país ainda tentam reproduzir em seus sites as estratégias que sempre adotaram em suas versões digitais. Isso sem mencionar a presença maciça das pautas de interesse da grande indústria cultural. Mas a forma como se lê as notícias nesses sites é muito diferente do folhear um papel. Clicamos em títulos cada vez mais telegráficos, selecionamos só o que desperta nosso interesse imediato. E agora, com as redes sociais, muitas vezes nem isso, pois cada vez menos navegamos fora destas redes.

Alguém falou em uma crise? Foi particularmente interessante o depoimento do jornalista Pedro Alexandre Sanches, no site FAROFAFÁ, defendendo a independência na prática do jornalismo cultural, sem as pressões dos interesses da indústria cultural que muitas vezes ajuda a sustentar o jornalismo tradicional.

O tipo de jornalismo (cultural) que pretendemos praticar não interessa aos modelos atuais de funcionamento da “grande” mídia. FAROFAFÁ, do modo como sonhamos, não existiria na Globo, na Folha, no Estado, etc. Até agora tampouco fora delas conseguimos existir com plenitude – suspeitamos que a “grande” mídia também seja um cartel, análogo ao do Ecad (ou seriam ambos um mesmo cartel?), no qual ninguém vá querer abrir frestas para sites e jornalistas “aventureiros”. […] Há muito nos percebemos incompatíveis com o modus operandi da indústria da qual saímos (eu e Eduardo já passamos por Folha, Veja e Estado, e cremos que nosso trabalho operário era prestigiado e reconhecido por nossos patrões, tamanha a quantidade de histórias que por lá publicamos). Sem outras saídas à vista, nos desabalamos desajeitadamente (sem paletó nem gravata, como cantaria nosso herói Marcos Valle) à caça de patrocínios, privados e/ou públicos (SANCHES, 2012).

A proposta do FAROFAFÁ, fruto da cultura 2.0, ainda assim seria uma tentativa de sobrevida profissional do jornalista cultural. Alguns anos antes a rede/site Overmundo apostava radicalmente na ampliação das vozes responsáveis pela difusão cultural. Criado em 2006 pelo Movimento Núcleo de Ideias, formado por Hermano Vianna, José Marcelo Zacchi, Ronaldo Lemos e Alexandre Youssef, por meio de patrocínio da Petrobras. O rede/site era administrado pelo Instituto Overmundo e recentemente passou a ser gerenciado pelo coletivo Fora do Eixo3. Em sua proposta inicial, o Overmundo se propunha a:

[…] servir de canal de expressão, debate e distribuição para a produção cultural do Brasil e de comunidades de brasileiros espalhadas pelo mundo afora tornar-se visível em toda sua diversidade. O Overmundo busca atacar de frente um grave problema do atual cenário cultural brasileiro: a produção cultural é cada vez maior, mas só uma mínima parcela dela consegue ser divulgada para o público. A maioria da produção cultural brasileira acontece sem quase nenhuma divulgação nacional (ou mesmo local), sem quase nenhum acompanhamento crítico sistemático, e quase sem chance de se conectar com produções semelhantes que acontecem fora de suas cidades e regiões4.

No contexto em que foi criado, o Overmundo apareceu como uma resposta interessante de difusão descentralizada de informações e produções culturais. Nos últimos anos, como podemos observar, a forma de navegação e acesso a informação, com o crescimento das redes sociais, encontra novos caminhos de propagação.

Sobre a tensão entre a forma clássica do jornalismo e a propagação da cultura nas redes digitais, podemos tecer algumas conclusões. Todo jornalismo também é uma cultura, com práticas, conceitos e preconceitos. O jornal sempre foi um produto coletivo e hierárquico. O jornal tradicional tenta reproduzir na internet, sem muito sucesso, seus objetivos clássicos de agenciamento e organização do real. O “casamento” do jornalismo e da publicidade, por enquanto, só funciona no impresso. Nas redes digitais, a redundância da informação cultural, acaba segmentando a leitura, timelines são como editorias e tendem a ser organizadas a partir de recortes identitários. Se antes olhávamos a primeira página de um jornal buscando a conexão com a realidade, hoje essa conexão se dá atualizando a leitura de uma timeline. Mas a pergunta para a qual ainda buscamos uma resposta é: que real é esse que conectamos quando olhamos uma timeline?

Culturas convergentes

Henry Jenkins oferece uma boa interpretação dos caminhos tomados pela cultura contemporânea em seu livro Cultura da Convergência (2006), no qual apresenta o desdobramento de três conceitos básicos: a inteligência coletiva, a convergência midiática e a cultura participativa. A proposta de Jenkins é entender a convergência como uma visão cultural, não apenas como uma possibilidade tecnológica. Não se trata apenas de aparelhos multifuncionais, trata-se de como pensamos e praticamos a difusão, o consumo e a produção de cultura nos dias de hoje.

Retomando o conceito levyniano da inteligência coletiva, Jenkins descreve a convergência como um novo paradigma cultural. Segundo ele, a quantidade e a velocidade da profusão informativa acaba por inviabilizar qualquer tipo de especialização, é o que ele chama de a insuficiência da expertise. O especialista solitário hoje é superado pela inteligência coletiva e colaborativa. Focando nos fenômenos da cultura popular, como a cultura dos fãs, exemplos como a Lostpedia5, uma enciclopédia colaborativa sobre o seriado Lost, são ilustrativos do Jenkins quer dizer. Em qual veículo da mídia tradicional conseguiríamos reunir e organizar tanta informação com essa velocidade e eficiência?

Inspirado por Pierre Levy, Jenkins argumenta (cf. JENKINS, 2009; NAVARRO, 2010) que essa inteligência coletiva, potencializada nas redes digitais, está nos livrando do modelo renascentista de conhecimento, centrado na ideia do homem que conhece tudo sobre tudo. Modelo que tem reflexos até hoje no modelo de ensino das escolas, onde todo estudante deve aprender as mesmas coisas. Segundo Jenkins, podemos criar uma cultura de especialidades diversas e múltiplas formas de conhecimento. Com ajuda das redes, o conhecimento individual pode ser aprimorado e difundido coletivamente. Segundo Jenkins,

Se olharmos para a história da cultura, veremos movimentos amplos que contradizem a viabilidade a longo prazo dos modelos correntes de propriedade intelectual. Antigamente, havia uma cultura popular que permitia uma participação ampla, que dava mais ênfase ao valor social que ao valor econômico dos atos criativos, na qual não havia grande separação entre criadores profissionais e amadores, e que dependia da troca de habilidades e conhecimentos. Depois veio a cultura de massa, na qual a produção cultural foi privatizada e profissionalizada, em que a maioria de nós consumia e apenas uns poucos produziam, na qual ninguém era dono das próprias tradições culturais ou das narrativas que conduziam nossa imaginação (NAVARRO, 2010, p. 21).

O interessante da perspectiva de Jenkins é apontar para um caminho menos radical, mas mais factível das transformações em curso, potencializadas por tecnologias digitais. Jenkins questiona a ideia de uma revolução digital que substituiria os meios de massa. Segundo ele, o que estamos presenciando é uma interação crescente entre mídias tradicionais e mídias novas. O poder dos meios de comunicação de massa agora coexiste com o poder das redes sociais. Isso tem forçado os meios clássicos a desenvolver uma nova relação com os consumidores.

Recentemente, esse foi o caso da novela Cheias de Charme6. Na trama, três empregadas domésticas postam um videoclipe na internet e se tornam celebridades por conta da repercussão do vídeo nas redes7. Aliado a isso, a emissora criou um concurso8, em que empregadas postavam vídeos inspirados no das personagens. Nas redes sociais também criaram perfis das principais personagens, que por vezes faziam comentários sobre os fatos dos capítulos. A trama chegou a ter um escritório de advogados com uma especialista em Creative Commons9 e passeatas organizadas via rede para salvar as heroínas da cadeia.

Outros exemplos podem nos ajudar a perceber essas mudanças.

  • Em 2009, depois de assistir a um show do Radiohead, sua banda preferida, Andrews Ferreira Guedis resolveu fazer um DVD do show coletando imagens filmadas por outros fãs. O projeto ganhou o respaldo dos artistas que cederam o áudio do show, que por fim foi pacientemente sincronizado com as imagens editadas por Andrews10. O DVD finalizado está on-line é pode ser baixado no site do Projeto Rain Down (http://raindown.com.br/). (Esse caso se enquadra no que Jenkins chama de cultura dos fãs, onde os consumidores interferem nos rumos da produção cultural).

  • Em 2011, o vazamento nas redes p2p do disco Toy11, do David Bowie, um disco inédito do artista que por algum motivo tinha sido engavetado pela gravadora em 2001. (A indústria perdendo o controle sobre seus produtos).

  • A recorrente prática dos fãs da banda Teatro Mágico12 que poderiam baixar as músicas da banda em diversos locais na rede, mas fazem questão de se cadastrar no site da Trama Virtual, baixando as faixas individualmente para a banda receber por isso, segundo o modelo de negócios do site que paga às bandas pelo consumo de publicidade no site, gerado pelo acesso dos fãs que baixam as músicas. Estima-se 300 mil cds vendidos. Na comunidade do orkut já são quase 100 mil membros; no canal do youtube, seu vídeo mais visto tem quase 730 mil exibições; no Twitter, o perfil é seguido por mais de 113 mil seguidores e a fan page do Facebook já tem mais de 132 mil fãs. Isso tudo sem gravadora e sem mídia tradicional. (A economia afetiva como estratégia de aproximação entre fãs e artistas).

  • Em 2008, Caetano Veloso, com a ajuda de Hermano Vianna, lançou o blog Obra em Progresso13, possibilitando um espaço de comunicação entre os fãs e o artista. Além de proporcionar a discussão e o diálogo sobre seu novo disco, o processo tornou a obra colaborativa. (Até artistas consagrados estão buscando formas de reaproximação).

  • Blogs e sites como: “Um que tenha”, que disponibiliza um vasto acervo de disco raros de mpb14. “Livros de Humanas”, uma biblioteca colaborativa de e-books acadêmicos15. Legendas.tv, onde grupos de fãs disponibilizam legendas de filmes e seriados de forma colaborativa16. (Isso mostra como a indústria não consegue atender a diversidades de interesses do público).

  • Em 2012, o escritor Paulo Coelho, notório defensor da pirataria17, aparece na home do site The Pirate Bay18, dando início a uma campanha que ajuda a promover artistas que apoiam o compartilhamento dos arquivos de suas obras. (A pirataria digital para alguns artistas pode ser uma aliada).

  • A cantora Adele19 foi a artista mais pirateada em 2011 no Reino Unido. Coincidentemente, ela também foi o nome do mundo da música que mais vendeu CDs, além de ter sido a primeira a quebrar a marca de um milhão de faixas vendidas através do iTunes. (Até a indústria pode lucrar com a “promoção” gerada pelo compartilhamento).

  • Fenômenos como a explosão viral de músicas como: “Minha mulher não deixa não”20, “Ai se eu te pego”21 e “Gangnam Style”22. (Mostram que agora o público pode pautar os produtos culturais na mídia tradicional).

Jenkins chama de economia afetiva essa estratégia de envolver emocionalmente o público. Segundo ele, essas experiências interativas vão ampliando nossa consciência quanto às possibilidades políticas de participação (cf. JENKINS, 2009). Como o famoso caso do Boneco de Neve, citado por Jenkins, quando os eleitores puderam enviar vídeos usando o Youtube com perguntas aos candidatos americanos à presidência. Ainda que se questione o filtro ou os critérios usados pelos organizadores para escolher os vídeos mostrados aos candidatos, foi o fato de uma animação com um boneco de neve ter sido exibida, perguntando sobre o aquecimento global, um dos aspectos mais polêmicos da experiência. Afinal, os debates sempre foram espaços onde reinava a formalidade.

Nesse tipo de experiência, não importa definir o tipo de cultura, seja popular, entretenimento ou vanguarda, ou seja, como diria McLuhan, o meio é a mensagem. A mais leve experiência interativa de alguma forma muda nossa percepção e a forma como percebemos nossa relação com a mídia. Por analogia, podemos dizer que o novo contexto cultural é semelhante a ler um livro usando os recursos de um tablet (por exemplo, a possibilidade de ampliar textos e imagens usando os dedos): uma vez que nos acostumamos com suas facilidades, passamos a perceber os livros físicos de outra forma.

Segundo Jenkins, nas empresas, o departamento jurídico quer controlar rigidamente a propriedade intelectual, o marketing quer envolver os consumidores com a mídia e os criadores ficam divididos entre empolgação e medo por perder controle sobre suas criações. Segundo ele, muitas das justificativas de proteção dos direitos autorais se baseiam na ideia de que o fã/compartilhador deprecia o valor do original. Ao permitir que muitas pessoas criem e compartilhem, você tira a originalidade e a singularidade dos conteúdos protegidos. Na verdade, os fãs e compartilhadores têm uma relação emocional com a obra e, economicamente, aumentam seu valor dando atenção ao que foi produzido ou recriado (cf. CONDE, 2011).

Culturas e redes

Segundo Alberto Melucci, a identidade implica na capacidade de perceber a temporalidade de sua ação, uma percepção que permite aos atores estabelecer relações entre o passado e o futuro, amarrando, assim, sua ação aos seus efeitos (cf. MELUCCI, 1996). Sendo essa “invenção do presente” o grande elemento transformador das estruturas simbólicas da sociedade. Se estamos falando de culturas em redes, estamos falando do compartilhamento identitário de uma temporalidade. É notável que nas timelines onde predominam brasileiros um tema seja recorrente: a programação da Tv. No twitter são frequentes os trending topics criados por acontecimentos na TV Globo. 

O Brasil, como disse Vilém Flusser (cf. FLUSSER, 1983), é um país pós-histórico: não passamos pela etapa civilizacional da escrita. Aqui, a cultura do livro teve um papel menor na formação de nossa identidade, sendo o rádio e a televisão as formas mais presentes de construção de nossa identidade cultural.

Como nos lembra Hermano Vianna, citando o livro “A small greek world” de Irad Malkin:

Ao contrário dos romanos, centralizadores, a civilização grega (…) sabia que “o que apaga diferenças e consolida identidade não é a proximidade e a permanência, mas sim movimento, distância e conectividade” (VIANNA, 2012).

Segundo Vianna, a lição grega persiste e podemos ver que nos contextos digitais a consolidação das identidades tem algo dessa herança. A identidade cultural nas redes, para mim, é um permanente paradoxo. Quanto mais pós-identitária é sua potencialidade, mais forte fica o sentimento de pertencimento. Estão aí todas as bandeiras indígenas nas redes, Guarani-Kaiowá, Aldeia Maracanã, etc.

Como dizia McLuhan: “todas as formas de violência são buscas de identidade” (cf. MCLUHAN, 2005). A aldeia global imaginada por ele não é um espaço de convivência tranquila e pacífica. Pelo contrário. Para ele, essa reaproximação geraria mais violência e tensão, ainda que simbólica. Usar uma camisa com a imagem de sua banda preferida pode ser uma forma sutil de agressão. O gosto gera o desgosto. A Tropicália tocou nisso e Rogério Duarte, um de seus ideólogos, comentou que ideia era provocar “uma discussão moral mais profunda, onde as valorizações tradicionais de bom gosto, de mau gosto, de macho e femêa, tudo isso foi jogado por terra” (DUARTE, 2003, p. 138). O consumidor eclético, ou mesmo o artista que passeia por muitos estilos, muitas vezes é acusado de falta de caráter e identidade. Mas não seria essa pós-identidade, justamente, a identidade que nos permitiria uma convivência menos agressiva na imensa aldeia de nossas redes?

Na convergência digital das culturas vivenciamos uma nova cultura poli-canônica e pós-cultural, o que, para Pierre Levy, é um avanço, pois:

A pós-cultura nada tem a ver com o pós-moderno, porque o pós-moderno nega encarniçadamente toda idéia de progresso e, ainda mais, de progresso universal. Ora, do ponto de vista da pós-cultura, o estado ao qual chegamos é melhor que o estado de cultura. A pós-cultura é um progresso, pois ela se desperta ao mesmo tempo para duas realidades que só se tornam figuras significantes uma tomando a outra como fundo: o caráter de criação contínua da cultura e a unidade da humanidade (LEVY, 2000, p. 29).

As culturas são como ecossistemas de linguagens, assim, qualquer intensificação de trocas simbólicas é sinal de riqueza e fortalece o sistema. Sistemas isolados são mais frágeis, o “corpo” cultural se fortalece ao se expor e, ao se contaminar, sua imunidade cresce. As redes digitais são como fronteiras e, como dizia McLuhan, nas fronteiras a identidade perde o sentido (cf. MCLUHAN, 2005).

Mas aquele jovem (agora nem tanto…) que imaginamos no início do texto, hoje ainda luta para manter sua identidade. Só que num contexto onde a raridade do objeto de consumo perdeu o seu valor, o que lhe resta é negar o valor daquilo que não reconhece como sua cultura. O que vemos nas redes, infelizmente, é a intensificação das delimitações identitárias. São raros os que saem de suas zonas de conforto estético-cultural. O bom gosto persiste enquanto temporalidade formadora de identidade: o que é bom é o que me ajuda a me reconhecer como o que penso que sou. Aos herdeiros de uma época centrada no consumo através dos suportes físicos da cultura (discos, CDs, livros, DVDs), sobrevive a noção de cânone. Blogs e sites sobre música, por exemplo, sempre postam listas com as melhores produções do ano (uma coisa que fazia mais sentido quando os consumidores de música precisavam priorizar suas compras). Resta saber se, hoje, para as novas gerações habituadas a descarregar terabytes de arquivos de músicas, filmes e livros (às vezes nem isso, bastando a possibilidade de consumir na nuvem, via steaming), ainda persistem as mesmas impressões de quem podia levar um dia inteiro ouvindo um mesmo disco, até o mesmo furar…

Bibliografia

CONDE, Miguel. Entrevista: Henry Jenkins fala sobre a relação dos fãs com as narrativas. Globo Universidade. Disponível em: <http://redeglobo.globo.com/globouniversidade/noticia/2011/08/entrevista-henry-jenkins-fala-sobre-relacao-dos-fas-com-narrativas.html>. Acesso em: 15 jan. 2013.

DINIZ, Lilia. Entrevista com Suzana Singer: Ombudsman da Folha com a palavra . Observatório da Imprensa, em 16/11/2011 na edição 668. Disponível em: <http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/ombudsman_da_lt_i_gt_folha_lt_i_gt_com_a_palavra >. Acesso em: 15 jan. 2013.

DUARTE, Rogério. Tropicaos. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2003.

FLUSSER, Vilem. Pós-história: vinte instantâneos e um modo de usar. São Paulo: Duas Cidades, 1983.

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2009.

LÉVY, Pierre. A Internet e a Crise do Sentido. In: PELLANDA, Nize Maria Campos e PELLANDA, Eduardo Campos. Ciberespaço: Um Hipertexto com Pierre Lévy. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000.

MATTELART, Armand e Michèle. História das teorias da comunicação. São Paulo: Edições Loyola, 2011.

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem (Understanding Media – 1964). São Paulo: Cultrix, 2001.

__________________.

MELUCCI, Alberto. Challenging Codes. Collective Action in the Information Age, Cambridge University Press, Cambridge, New York, 1996.

NAVARRO, Vinicius. Entrevista com Herny Jenkins. Contracampos, n. 21, p. 2-26,. 2010. Disponível em: <http://www.uff.br/contracampo/index.php/revista/article/view/77/57>. Acesso em: 15 jan. 2013.

PIZA, Daniel. A terceira margem do jornalismo cultural. In: Um País Aberto – Reflexões sobre a Folha de S.Paulo e o Jornalismo Contemporâneo. São Paulo: Publifolha, 2003.

SANCHES, Pedro Alexandre. Deixa o FAROFAFÁ trabalhar! Disponível em: <http://www.farofafa.com.br/2012/03/25/deixa-o-farofafa-trabalhar/3909 >. Acesso em: 15 jan. 2013.

VIANNA, Hermano. Atenienses. O Globo, 14/12/2012. Disponível em: <http://hermanovianna.wordpress.com/2012/12/15/exemplo-de-atenas/ >. Acesso em: 15 jan. 2013.

1Agradeço aos alunos do Curso de Pós-graduação em Jornalismo Cultural da Faap/SP muitas das inspirações desse artigo.

2Doutorando na ECA/USP e pesquisador do Centro de Pesquisa Atopos. Contato: astangl@usp.br / Twitter: @astangl / site: https://andrestangl.wordpress.com/

7Veja a cena: http://migre.me/9dWiF

9Não deve ser mera coincidência o fato de Jenkins ter participado de alguns eventos na Globo – http://redeglobo.globo.com/novidades/noticia/2010/08/henry-jenkins-fala-sobre-o-poder-das-telenovelas-em-evento-desta-terca-10.html

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