A Caverna da Mediação

A Caverna da Mediação e a perspectiva não essencialista da Comunicação

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Referência: STANGL, Andre. A Caverna da Mediação e a perspectiva não essencialista da Comunicação. In: PRADO, J. A. B. E.; SATUF, I. (Org.). Comunicação em Ambiente Digital. 1. ed. Covilhã: Labcom, 2019. p.149-169.

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O real não está na saída nem na chegada:
ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”
João Guimarães Rosa

Negar as aparências para afirmar as essências, desde o começo daquilo que convencionamos chamar Filosofia, o real é negado para assim revelar a verdadeira realidade que em geral é inacessível para a maioria dos mortais. O método para despertar nossa atenção e guiá-la na direção correta, desde Platão tem consumido muitos metros de papel e tempo. Sim, o ideal também depende de algum material, no caso da filosofia platônica os papiros eram o material para o suporte da escrita manual. Não deixa de ser curioso, pensar que a sobrevivência das ideias platônicas dependeu de um laborioso processo de transformação material. Segundo a Wikipédia, o papiro é feito com a parte interna do caule da planta Papiro (Cyperus papyrus), esse caule é cortado em tiras que são molhadas e organizadas em camadas sobrepostas e cruzadas, em seguida essas tiras serão prensadas. Por fim, “a folha obtida é martelada, alisada e colada ao lado de outras folhas para formar uma longa fita que era depois enrolada. A escrita dava-se paralelamente às fibras”.1

Sem a sobrevivência do pensamento grego através desse suporte, o nosso pensar hoje seria outro. Talvez, nem na antiga Grécia, a delicada meditação que nos legou a tradição filosófica teria florescido sem que os primeiros filósofos escrevessem. Ou seja, sem a escrita dos primeiros filósofos a descrição da realidade (physis) ainda seria privilégio exclusivo dos mitos. Pois bem, como já foi dito, muito já se escreveu sobre a importância dessas primeiras linhas, mas ainda é pouco o espaço dado ao papel do papel, o meio pelo qual a escrita fluiu até os dias de hoje. Ainda que as linhas que hoje lemos e escrevemos não tenham mais as “fibras” de antes delimitando sua disposição no espaço.

Ao que parece, ainda precisamos nos demorar mais sobre esse papel dos meios, estudando as diversas trajetórias da mediação comunicacional contemporânea, pois assim essa realidade compartilhada com os meios, essa physis múltipla que hoje é tão debatida nas redes, pode então, quem sabe, ser recriada.

Meios e mediações

São múltiplos os usos do termo mediação ao longo da história. Seria um considerável desvio de rota tentar refazer o percurso etimológico do termo, pois muitas seriam as chaves interpretativas e as possibilidades de aproximação: mídia, medium, medo(?), medir, (re)medios, medi(tar), etc. Em vez disso, vamos passear por alguns usos do senso comum que, muitas vezes, interpreta a mediação como o lugar da manipulação, da distância, da artificialidade e da inautenticidade.

O termo mediação atravessa muitos domínios. É muito usado no Direito, onde tem o sentido diplomático da articulação de um acordo entre partes em litígio. Mas, segundo algumas teorias de inspiração marxistas, principalmente no caso dos estudos de mídia, a mediação tende a ser vista como um tipo de distanciamento, ou alienação, entre o homem e sua verdadeira natureza, ou entre o homem e a verdade. Segundo essas teorias, a cultura burguesa, a manipulação midiática, a religião etc. seriam formas mediadas de alienar o homem de sua essência. Por isso, seria papel das teorias críticas, de inspiração marxista, nos purificar e alertar sobre os riscos da mediação.

Segundo essa perspectiva, os estudos de mídia devem denunciar a forma como o poder associado aos meios de comunicação de massa conduzem os rebanhos alienígenas, ou alienados, ao consumo e ao abate de sua liberdade. Excessivamente ideologizada, essa abordagem geralmente funciona bem para arregimentar ativistas que pregam a excomunhão de algumas empresas que ainda insistem em mediar o acesso imediato ao real. Galloway, Thacker e Wark apontam para a insuficiência dessas abordagens:

Não existem estudos de mídia que há décadas definem produção cultural como um agregado complexo de diferentes tipos de práticas inter-relacionadas produzindo diferentes tipos de artefatos inter-relacionados? Mesmo se isso for verdade, nós ainda afirmamos que os estudos de mídia hoje operam com uma concepção um pouco limitada do que são os meios. Novos tipos de paroquialismos invadiram a conversa, assim que estava começando a ficar interessante. Novos tipos de limitações e preconceitos têm tornado difícil para os estudiosos de mídia dar o passo final e considerar as condições básicas da mediação. Pois, assim como o pós-estruturalismo celebra o jogo livre (free play) da textualidade, continua a haver uma tendência que tratar os meios de comunicação “subordinados” ao texto como algo problemático, como algo que gera certa ansiedade metodológica. Se o texto (ou a tela, ou a figura plana) é um “bom” objeto no criativo jogo de interpretação, a mídia é o objeto “ruim” do poder e da vulgaridade. Portanto, temos de lutar por teoria da mídia, mesmo quando reconhecemos a sua capacidade para a estagnação e repetição (GALLOWAY; THACKER; WARK, 2013, p. 7, tradução nossa).

Não se trata, evidentemente, de descartar a utilidade, em algumas situações, das perspectivas que operam com a dinâmica entre controle e liberação da informação. Mas essa perspectiva a priori não nos ajuda se queremos compreender empiricamente o papel das mediações comunicacionais. Como nos lembra André Lemos:

Se tomarmos o mapa das mediações, podemos prescindir de visões essencialistas e/ou instrumentalizantes dos dispositivos midiáticos e poderemos ver mais tranquilamente as redes sociotécnicas que se formam e analisar, por fim, o social que então se apresenta. Isso parece ser mais interessante para os estudos de comunicação do que partir de visões generalizantes que vão, independentemente do fato observado, dizer sempre a mesma coisa.” (LEMOS, 2015, p. 44)

Latour e as mediações

No famoso artigo de Bruno Latour sobre a mediação tecnológica, ele chega a dizer mcluhaniamente que as ferramentas são “a extensão de habilidades sociais a não humanos” (LATOUR, 2001, p. 241). Olhando para o fluxo histórico dessas mediações, Latour reconhece a possibilidade de identificar padrões ou modos. Somando as “permutações sucessivas”, “novas habilidades e propriedades” são recicladas sucessivamente (Ibid., p. 244). Nas etapas míticas de sua Pragmatogonia2, a cada recombinação entre artefatos e humanos, a escala e a complexidade aumentam, sem necessariamente estarem associadas a uma direção evolutiva, no sentido hierárquico que separa o mundo entre desenvolvidos e os outros. Segundo ele, uma característica interessante dessas passagens é a recapitulação das etapas anteriores, em um retorno que nos leva de novo a uma visão menos pura das diferenças entre humanos e não humanos. Segundo Lemos:

No caso da tecnologia e das mídias de comunicação, podemos dizer que esta dinâmica da purificação só é possível através de uma visão instrumental e essencialista da técnica que deixa os humanos ora em posição de senhores e mestres das ações (perspectiva esta que podemos chamar de sociodeterminista), ora como vítimas dos malefícios causados pela força externa, independente e autônoma, da técnica (o tecnodeterminismo). (LEMOS, 2015 , p. 39 e 40)

No site3 do projeto AIME, a mediação4 é vista como uma ferramenta útil para a Teoria Ator-Rede, como contraste da noção de intermediário, mas que, por não ter contraste na AIME, perde sua função. A mediação, então, é vista sob o prisma do modo de existência do Hábito [HAB], em que todos os intermediários mostram sua face como mediadores e ou no modo Duplo Clique [DC], em que tudo é imediato, sua existência é negada. A princípio, na AIME, a mediação poderia ser um sinônimo das passagens e dos hiatos de uma trajetória. Mas, para o pesquisador Yves Citton, a mediação (midiática) poderia ser sim um modo de existência. Assim ele formulou uma proposta e submeteu ao projeto da AIME.5

Segundo Citton (2014), o aspecto central do Modo de existência da Mediação[MED] são as alterações na forma de perceber o espaço e o tempo, seja sincronizando audiências, nos eventos ao vivo, ou realinhando remotamente, nos registros históricos de documentos milenares. Suas possibilidades oscilariam entre a retórica, que ainda hoje remaneja nossa atenção e a produção da singularidade de nossas personas públicas. Segundo ele, o modo6 [MED] poderia estar no grupo 2 ou no 3, e poderia ser assim sintetizado:

NOME – Mediático (médiatique).

HIATO – sincronização e alinhamento.

TRAJETÓRIA – ressonância, enfeitiçamento.

CONDIÇÕES DE FELICIDADE E INFELICIDADE – sucesso / fracasso.

SERES A INSTAURAR – (não especificado).

ALTERAÇÕES – influência a distância (temporal e espacial).

Latour comenta a proposta, lembrando que o desafio de seu jogo/sistema é conseguir relacionar os modos entre si, no sentido diplomático (e mediador) de encontrar os erros de categoria que poderiam ser evitados na busca da composição de um mundo comum. Assim, o modo [MED] pode ser útil como um tipo de metalinguagem semelhante ao modo preposição [PRE], que nos levaria a repensar a noção de cultura a partir de sua relação com mídia.

Se queremos desenvolver a mediação como um modo de existência, podemos usar [MED] como uma alternativa para a preposição [PRE] como uma filosofia geral. […] Em resumo, eu diria que podemos fazer pelo menos três coisas com o “midiático”. Construir seriamente um modo de existência para [MED], através da identificação de categorias de erros, o que indica um monte de especificações políticas (sincronização, atenção, etc.). […] Qual é a metalinguagem que permite estabelecer uma resistência à hegemonia dos outros modos, porque cada modo tem uma hegemonia? […] Em seguida, teria que ver como ele se comporta no cruzamento com os outros modos, se há casos suficientes onde dissemos que falta isolar algum erro [MED]. O que deve ser testado é se o antídoto [MED] constitui a contra hegemonia de todos os modos. Seria útil se ele, cada vez que dissesse: “Atenção, essa não é uma questão de mediação!” [MED] pudesse nos ajudar a encontrar outros modos. […]. No momento em que definir um metamodo – como eu fiz com [PRE] e como você quer fazer com [MED] – há uma rediferenciação dos diferentes modos existência. Pode-se bem imaginar o início a partir de [MED] como um shifter [embreagem] que permite passar de uma categoria para outra, e, em seguida, ver quais as categorias que “saem” do domínio dos Media Studies, isto é, que aparecem em contraste, que permita refazer a cartografia e que, por vezes, vai atravessar a que temos desenvolvido, mas às vezes não. Seja [PRE] ou [MED], o nascimento de uma metalinguagem põe em contraste uma série de diferenças. O que você sugere é a reconstrução de uma definição de “cultura” a partir de uma metalinguagem centrada nas mídias. (LATOUR, 2014, tradução nossa).

As explorações de McLuhan

Por quais aproximações e desvios somos levados quando revisitamos a obra de Marshall McLuhan (1911-1980) transportados e inspirados pela obra de Bruno Latour? Aqui não temos espaço para desenhar todos os pontos da proximidade e/ou da distância, nas diversas rotas de investigação possíveis entre autores tão profícuos. Vamos tentar focar em algumas situações onde a obra de um ajuda a criar instabilidades e deslocamentos na obra do outro. Assim quem sabe, através desse percurso, um novo, e por outro lado milenar, espaço se revele, criado/percebido fora/dentro da misteriosa caverna das mediações. Um lugar que quando confrontado, no espaço e no tempo, com nossas existências digitalizadas, parece apontar caminhos interessantes para as pesquisas no domínio das comunicações.

McLuhan já tinha explorado as diferenças cognitivas dos ambientes mediados, como no caso da pintura e da poesia (MCLUHAN; PARKER, 1975), apesar de não ter chegado a conhecer a digitalização e suas ramificações. Algumas das provocações e das ideias de McLuhan foram criadas/encontradas em um tipo experimental de “antropologia simétrica”7, fruto da colaboração com o antropólogo Edmund Carpenter. Foi quando ele conheceu o mundo acústico, ou a ecologia cognitiva oral dos esquimós, isso provavelmente o ajudou a exercitar um certo tipo de simetria. McLuhan passeia entre literatura, filosofia, narrativas históricas e antropológicas, compondo um mosaico que tenta descrever nossa relação com os mais diversos objetos técnicos.

Segundo Harman (2010), um aspecto que aproxima Latour e McLuhan é o interesse dos dois por qualquer tipo de objeto técnico, por mais banal e trivial que seja. Partindo destes não humanos, eles tecem suas teorias e cartografias, como, por exemplo, no caso da polia para Latour (LATOUR, 1994, p. 108) e do estribo para McLuhan (MCLUHAN, 2001, p. 205). Os dois, no entanto, parecem mais preocupados com as relações e não fazem qualquer esforço de chegar a algum tipo de essência, como afirma McLuhan, “objetos não são observáveis, apenas as relações entre os objetos são observáveis” (In STEARN, 1967, p. 292)Nesse sentido, possivelmente a leitura de Whitehead, compartilhada pelos dois (COUPLAND, 2010; LATOUR, 1995), teve um papel fundamental e inspirador.

Então será que podemos pensar nas “extensões” de McLuhan como um tipo de relação? Será que essa imagem produz um tipo de confusão que leva a atenção à figura (homem), esquecendo do fundo (extensões)? Quando ele enumera os híbridos, os interpretes de sua obra o reduzem (purificam) focando na figura humana: a bicicleta é a extensão das pernas, os óculos são extensão dos olhos, a faca é a extensão das unhas, o chapéu é a extensão do cabelo, o carro e as roupas são extensão de nossa pele. Mas se o foco de McLuhan são as relações porque então não revisita-lo sem empurra-lo para o essencialismo humanista?

As sondas exploratórias de McLuhan ilustram as traduções e os movimentos de nosso foco de atenção, entre nossos corpos e os objetos técnicos, não mais purificados, nem isolados, mas imersos em redes de atuação que conjugam nossas identificações. Mediações como extensões, em um ambiente invisível para nós como água é para os peixes, mas que só percebemos quando somos chocados por antiambientes. O (meio) ambiente, então, age e, se age, é ator. Essa percepção foi tachada por muitos críticos como “determinismo tecnológico”8.

É frequente ouvirmos críticas às novas tecnologias. A questão do determinismo tecnológico vem sempre à baila para estancar as esperanças ingênuas no uso humano dos mais diversos artefatos. Por outro lado, é também frequente ouvirmos elogios, mostrando o caráter emancipador que os dispositivos e redes técnicas trouxeram e ainda trazem para a humanidade. Ambas as perspectivas, tomadas de forma exclusiva, estão equivocadas. (LEMOS, 2015, p. 30)

Vivemos em um turbilhão informacional, o ambiente eletrificado, uma ecologia cognitiva que desde o telégrafo tem se intensificado. Essa a “água” que nos envolve não é mais a mesma do telégrafo, mas ainda é fruto do mesmo tipo de fluxo, o elétrico. Não podemos esquecer que a digitalização é uma forma de eletricidade. Humanos e não humanos compondo um novo ambiente, transportando e deslocando sentidos que antes estavam estacionados por mediações estabilizadas (pelo menos na crença tipográfica do racionalismo moderno). A “extensão” entendida (e estendida) como um tipo de mediação, pode ser visualizada na transformação ou tradução de um meio em outro meio9.

Criando e descobrindo realidades

Quando nos deslocamos entre ambientes cognitivos distintos e tentamos descrevemos esse processo estamos falando de mediações. McLuhan falava que os artistas conseguiam antecipar nossa experiência de deslocamento entre ambientes distintos, criando antiambientes capazes de nos chocar, “nos tirando o chão”. A caverna platônica, de alguma forma, instaura essa noção do antiambiente como elemento que nos transporta de uma forma de perceber o real para outra. Mas por outro lado, também instaura o ideal metafísico de uma essência pura e imutável.

Para Platão, o filósofo ideal é aquele que consegue enxergar, para além dos aspectos práticos do mundo, a natureza imutável e objetiva das coisas, isto é, as Formas (p.235). (…) O desejo de encontrar uma camada subjacente à realidade que fosse imutável e só pudesse ser apreendida pelo pensamento racional reflete a atração de Platão pelas ideias de Parmênides. Essas ideias propiciaram, entre outras coisas, um marco intelectual adequado às suas crenças órficas e pitagóricas sobre a purificação da alma, a ser obtida pela contemplação racional de uma realidade situada além do mundo físico inferior (a caverna). (GOTTLIEB, 2007, p. 214)

Experimentando ecologias cognitivas diversas, relativizamos nossa noção do real. Mas isso não significa necessariamente abandonar a realidade, no máximo possivelmente podemos multiplicá-la. Segundo Latour, o Modo de existência da Ficção [FIC] está mais próximo de uma forma simultânea de criar e perceber, do que da criação artística que se reconhece restrita ao campo do imaginário e do simbólico. Latour aproxima o termo de seu advérbio “ficcionalmente” para indicar uma proximidade criativa entre materiais e números, como ocorre nos mitos e cosmologias. A [FIC] instaura obras que podem multiplicar os mundos e se opõe à visão limitante de objetividade realista do modo Duplo Clique [DC].

E tem sido justamente através da [FIC] que Latour tem feito alguns experimentos de despertar “antiambientes” (como diria McLuhan). Foi assim com a experiência multimídia de Paris: Invisible City10, em 1998; com a curadoria da exposição Iconoclash. Beyond the Image Wars in Science, Religion and Art, em 2002, onde juntou os ambientes da religião, da ciência e da arte contemporânea (ver LATOUR, 2008); com a reencarnação digitalizada da pintura “Noces de Cana” de Véronèse.11 Ou com a exposição Making Things Public: Atmospheres of Democracy12 onde se propôs a repensar a representação política. E, mais recentemente, partindo das colaborações no site/projeto da AIME, os experimentos diplomáticos, pedagógicos e artísticos do laboratório COP21: Make it Work13, da peça Gaia Global Circus14 e da exposição/livro Reset Modernity!.15

Sobre essas experiências, Latour afirma que se aproximou das artes e dos seres da [FIC] como um meio de buscar novas formas de sensibilização para a grave questão da crise ambiental.

[…] me aproximei da arte para lidar com isso, pois é preciso criar instrumentos que nos sensibilizem e que nos levem a pensar, algo que ligue as “estatísticas da ciência” e formas de sensibilização ao que elas indicam. Não há muita gente trabalhando para que nos tornemos mais sensitivos ao que ocorre com Gaia. Temos de reconstruir a nossa sensibilidade. É preciso dramatizar, considerar o fim do mundo, e então desdramatizar, para analisar criticamente a questão. Na arte, você pode fazer os dois, dramatizar e desdramatizar. (…) Se você apenas analisa, não sensibiliza, se você apenas grita “fogo”, todos saem correndo. É preciso gritar fogo, mas fazer com que as pessoas se mantenham na sala e pensem (LATOUR, 2014b).

Para Latour, os seres da ficção [FIC] “ficcionalmente” indicam uma proximidade criativa entre materiais e números, como ocorre nos mitos e cosmologias. A [FIC] é, segundo ele, uma forma de instaurar obras que podem multiplicar os mundos e, portanto, se opõe à visão limitante de objetividade realista do modo Duplo Clique [DC]. Nada mais distante da perspectiva distópica, da teoria crítica da comunicação, que enxerga nos meios de comunicação de massa formas alienantes de controle do imaginário (Adorno, Althusser, Baudrillard, entre outros). De nada adianta tentar denunciar as intenções do poder reduzindo as possibilidades de interpretação. Uma totalidade epistemológica de tonalidade ideológica reduz também as alternativas de compor mundos distintos.

Como na denúncia do simulacro feita por Baudrillard, uma metáfora, que já foi muita usada nas análises das mediações comunicacionais, como um indicativo melancólico e saudosista de uma época em que tínhamos acesso não mediado ao real. Comentando McLuhan, a perspectiva ourobórica de Baudrillard, como se diz, joga a criança, a água e o balde fora.

Numa palavra, medium is message não significa apenas o fim da mensagem, mas também o fim do medium. Já não há medeia no sentido literal do termo (refiro-me sobretudo aos media electrônicos de massas) – isto é, instância mediadora de uma realidade para uma outra, de um estado do real para outro. Nem conteúdos nem forma. É esse o significado rigoroso da implosão. Absorção dos pólos um no outro, curto-circuito entre os pólos de todo o sistema diferencial de sentido, esmagamento dos termos e das oposições distintas, entre as quais a do medium e do real – impossibilidade, portanto, de toda a mediação, de toda a intervenção dialéctica entre os dois ou de um para o outro (BAUDRILLARD, 1991, p. 108).

Como pode ser visto no simulacro revisitado na trilogia Matrix dos irmãos Wachowski16, o real só pode ser acessado miticamente, para o horror dos iconoclastas. Mas de que adianta um réquiem para a morte do [DC] que nos lega a indefinição niilista da desconstrução absoluta? McLuhan aposta no retorno das narrativas míticas, semelhantes aos meios frios que, segundo ele, nos envolvem – pois são mediações incompletas, em que precisamos preencher a informação, como a foto desfocada –, a narrativa mítica também é uma evocação.

Uma vez que a era eletrônica nos leva inevitavelmente para um mundo de visão mítica, […] convém que nos livremos do “sentido de mito” como irreal ou falso. Foi o intelectualismo fragmentado e literário dos gregos que destruiu a visão mítica integral para a qual estamos agora voltando. O poeta-pintor William Blake foi um dos precursores dessa consciência, mas Giambattista Vico, o predileto de James Joyce, precedeu Blake nessa consciência (MCLUHAN; FIORE, 1973, p. 185).

As artes, a literatura e a poesia podem nos ajudar a reconhecer o sentido da linguagem mítica em nossa ecologia cognitiva. A digitalização da informação e sua propagação intensificam nossa percepção mítica, talvez por isso vemos a multiplicação dos boatos via rede. É como se estivéssemos vivendo um tipo de pós-história, pois, segundo Flusser:

Os inventores do alfabeto viram, nos criadores de imagens e nos mitólogos, inimigos, e não distinguiram, com razão, uns dos outros. A criação e a adoração de imagens (magia), tanto quanto o sussurro escuro e circular (o mito), são dois lados da mesma moeda. O motivo por trás da invenção do alfabeto foi superar a consciência mágico-mítica (pré-histórica) e garantir espaço para uma nova (histórica) consciência. O alfabeto foi inventado como código de consciência histórica. Se nós devemos abrir mão do alfabeto, isso se dará provavelmente porque estamos nos esforçando para superar a consciência histórica (pós-história). Estamos cansados do progresso, e não apenas cansados: o pensamento histórico comprovou-se irracional e homicida. Essa é a razão verdadeira (e não a desvantagem técnica do alfabeto), pela qual estamos preparados para desistir desse código (FLUSSER, 2010, p. 49).

O Reciclo mítico da verdade

Isso pode ajudar a entender a multiplicação da verdade (a pós-verdade) e das teorias conspiratórias17, quase míticas, que chocam as sensibilidades que ainda se afinam exclusivamente com a perspectiva cognitiva das culturas letradas (McLuhan), ou a consciência histórica (Flusser). O 11 de Setembro realmente aconteceu? Bin Laden de fato morreu? O homem pousou mesmo na lua? Na cultura do homem letrado tínhamos a impressão de que documentos e registros bastavam para comprovar os fatos, com um simples Duplo Clique [DC]. Como nos lembra Eduardo Viveiros de Castro:

Dito de outra forma, o antigo postulado da descontinuidade ontológica entre o signo e o referente, a linguagem e o mundo, que garantia a realidade da primeira e a inteligibilidade do segundo e vice-versa, e que serviu de fundamento e pretexto para tantas outras descontinuidades e exclusões — entre mito e filosofia, magia e ciência, primitivos e civilizados — parece estar em via de se tornar metafisicamente obsoleto; é por aqui que estamos deixando de ser, ou melhor, que estamos jamais-tendo-sido modernos (VIVEIROS DE CASTRO, 2007, p. 95).

É como se o acesso à realidade18 dependesse de nossos mitos e sonhos distribuídos. Falar do social sem dar atenção às suas redes e mediações é como tentar isolar uma partícula do tempo. No filme A Origem (Inception, 2010), dirigido por Christopher Nolan, Leonardo DiCaprio é uma espécie de hacker chamado Dom Cobb e sua especialidade é invadir sonhos. Como se nossas cabeças fossem computadores e nossos sonhos seções escondidas quando estamos em stand by, ou seja, dormindo. A metáfora é interessante, mas o que mais me chamou a atenção no filme foram os “totens”, um objeto pessoal que os invasores usam quando estão sonhando no sonho de outra pessoa para evitar confundir sonho e realidade. A única forma de saber se estão acordados é interagindo com esse objeto que só eles mesmos sabem a forma ou o peso, um artifício que valida o real. Apesar da aparente contradição, essa ideia de usar um artifício para conhecer a verdadeira realidade é, sem dúvida, uma das grandes questões do chamado mundo moderno. Latour denomina esse objeto de “faitiche”.19

No filme de Nolan, há uma cena em que o personagem Dom Cobb explica à sua “aluna” Ariadne como se constrói/percebe um sonho, criando e descobrindo simultaneamente. Exatamente como o “faitiche” de Latour, para quem a feitura de santos nos terreiros do candomblé brasileiro seria o melhor exemplo dessa simultaneidade (LATOUR, 2002, p. 106). Mas essa simultaneidade não pode ser confundida com uma ausência, ou com a impossibilidade de falar, criar e se posicionar. A dinâmica dessa simultaneidade é a alternância, não a imobilidade.

Entretanto, houve realmente alguém que esqueceu o Ser? Sim, aquele que acredita sinceramente que o Ser foi esquecido para sempre. Como diz Levi-Strauss, “o bárbaro é antes de tudo o homem que crê na barbárie”. Aqueles que deixaram de estudar empiricamente a ciência, as técnicas, o direito, a politica, a economia, a religião e a ficção perderam as pistas do Ser distribuídas entre os entes. Caso, ao desprezar o empirismo, você se afaste das ciências exatas, depois das ciências humanas, depois da filosofia tradicional, depois das ciências da linguagem, e então você se recolha em sua floresta, certamente ira sentir uma falta trágica. Mas é você que sente falta, não o mundo. Os seguidores de Heidegger transformaram esta fraqueza notável em uma força. “Nada do que sabemos é empírico, mas não importa, porque o mundo de vocês é vazio de Ser. Nós projetamos a pequena chama do pensamento do Ser contra tudo, e vocês que têm todo o resto, não têm nada.” Pelo contrário, temos tudo, porque temos o Ser, e os entes, e nunca esquecemos a diferença entre o Ser e os entes. Realizamos o projeto impossível de Heidegger que acreditava naquilo que a Constituição moderna dizia sobre si mesma sem compreender que isto era apenas a metade de um dispositivo mais vasto que nunca abandonou a velha matriz antropológica. Ninguém pode esquecer o Ser, já que nunca houve mundo moderno e, por isso, nunca houve metafísica. Nós ainda somos pré-socráticos, pré-cartesianos, pré-kantianos, pré-nietzscheanos. Nenhuma revolução radical poderá separar-nos destes passados. Sim, Heráclito é um guia mais confiável que Heidegger: “Einai gar kai entautha theaus” [Também aqui os deuses estão presentes] (LATOUR, 1994, p. 66).

Latour acerta quando se posiciona mais perto de Heráclito do que de Heidegger; não se trata de lamentar nada, amor fati diria o estoico Nietzsche.20 O esquecimento do ser, a angústia, a náusea, a melancolia e todas as formas de nostalgia pelo desencantamento moderno do mundo perdem o sentido quando miramos a proximidade dessa simultaneidade anterior à contraposição entre Ocidente e Oriente. Nossa a-modernidade, coexistindo como todos os entes, sem culpa, sem medo e sem negar suas possibilidades. A lamentação não é pragmática, nem a multiplicação das possibilidades é uma volta ao imobilismo pós-moderno.

De fato, pelo menos, por curiosidade, ou mesmo por sina, uma das grandes preocupações dos Modernos tem sido como escolhemos, definimos, compartilhamos, esquecemos, criamos ou amamos aquilo que nos acostumamos a chamar de realidade. Em nossa tradição, Platão é um dos heróis (ou mesmo um dos vilões, como diria Latour), em um dos mais importantes capítulos dessa história.21 A caverna de seu mito permanece lá, como a Caverna de Chauvet filmada por Herzog, fechada e preservada, alimentando nossa distinção entre real e ilusório, entre realidade e sonho, entre ciência e ficção, entre sanidade e loucura, entre digital e virtual, etc. Sim, nesta última oposição, uma novidade: a digitalização na posição habitualmente atribuída ao real, pois aqui está o x de uma questão que tem gerado muita confusão. A digitalização não é uma desmaterialização, na verdade, é como uma multiplicação dos pães. Mas continua tangível e perecível, como toda matéria. Foi lendo Whitehead que Latour teve o insight sobre o sentido da irredutibilidade, o desafio permanente da re-produção [REP] (LATOUR, 2012b, p. 23).

A simples noção de uma substância duradoura sustentando qualidades persistentes, seja essencial ou acidentalmente, expressa um resumo útil para muitas finalidades da vida. Mas sempre que tentar usá-lo como uma declaração fundamental da natureza das coisas, comprova-se um equívoco. Surgindo a partir de um erro e que nunca teve sucesso em qualquer uma de suas aplicações. No entanto, teve sucesso: pois consolidou-se na linguagem, na lógica aristotélica, e na metafísica. Por seu emprego na linguagem e na lógica, não é – como já dissemos – uma sonora defesa pragmática. Mas na metafísica o conceito é puro erro. Este erro não consiste no emprego da palavra “substância”; mas no emprego da noção de uma entidade real que é caracterizada por qualidades essenciais, e permanece numericamente em meio às mudanças de relações acidentais e de qualidades acidentais. A doutrina contrária diz que uma entidade real nunca muda, e que é o resultado de tudo o que pode ser atribuído a ela no caminho da qualidade ou das relações. Restam, portanto, duas alternativas para a filosofia: (i) um universo monista com a ilusão de mudança; e (ii) um universo pluralista em que a “mudança” significa a diversidade entre as entidades reais que pertencem a uma certa sociedade de tipo definido.(WHITEHEAD, 1978, tradução nossa).

Como disse Latour: “fomos do virtual para o material, não do material para o virtual”.22 O fluxo da digitalização está rematerializando seus códigos, as impressoras 3D estão recompondo aquilo que antes se dizia intangível. Uma frase postada no Twitter, pelo perfil do projeto AIME, citando uma conferência de Latour, dá uma chave interessante para pensar essa rematerialização operada pela digitalização: “Um pouco de digitalidade inclina a mente do homem à virtualidade, mas digitalidade em profundidade traz a mente dos homens para a materialidade”.23 Se pensarmos a coexistência mediada digitalmente como camadas, a superfície, ou seja, o contato mais comum com as redes, e-mail, vídeos, games etc. nos leva a uma sensação de virtualização, algo como um deslocamento, o aqui agora se multiplica, gerando a coexistência de espaços. Eu aqui em frente ao laptop e eu ali no bate-papo, ao mesmo tempo, como se uma parte fosse física e outra imaterial. A segunda camada, mais profunda de perceber essa situação, é um tipo de conexão mais próxima dos místicos e dos físicos, uma complementariedade entre os universos, o físico e o virtual, digitalmente mediados, uma coexistência que antes não era percebida, uma alternância semelhante aos frames de uma película, que olhados isoladamente se distinguem, mas, em movimento, nos transportam para outro mundo, o do cinema, um transporte que não desloca só o corpo, que não exclui um lugar em função do outro. A coexistência tem essa característica, algo do sol-ao-meio dia, noite e dia, um híbrido que se movimenta. Por isso, é tão forte a metáfora do totem no filme A Origem. Sem nossos dispositivos perdemos o chão, somos lançados no reino das virtualidades, saímos da caverna…

Considerações finais

Nos famosos versos atribuídos a Cervantes24, o “Sonho que se sonha só / É só um sonho que se sonha só / Mas sonho que se sonha junto é realidade”, no entanto “junto” aqui, poderíamos dizer, não se refere apenas aos humanos. Juntar é conectar, nosso acesso ao real sempre foi mediado, seja pela linguagem, pelos sentidos, por instrumentos, ou por outras pessoas. McLuhan atravessa pontes entre o sensível e o constituível, recoloca o horizonte do provável na escala de nosso passado remoto. Sejamos tribos, urbanas ou não, a questão da desconexão ou da conexão é um ponto de vista. Na verdade, uma ponte de vista, estando sempre em relação a algo, ser é deslocar, transportar no tempo ou no espaço. O contato, figura da conexão, é tátil, estando em um ambiente, que nos envolve. McLuhan falava da percepção, ou a falta de percepção, do peixe na água. Por sinal, essa imagem ficou mais bonita no famoso discurso de David Foster Wallace (2009), “This is water”, em que todos os elementos dos cotidianos são descortinados, em um flash de consciência, na atenção plena do ordinário/extraordinário. Todos esses exemplos, de alguma forma nos lembrando, jamais fomos desconectados, ainda que essa conexão seja sempre relativa.

Uma forma de entender o funcionamento e as características da conexão é entendê-la como um tipo de mediação. Nesse prisma, a mediação assume então a condição de link, ponte ou passagem que alimenta e anima todas as formas de coexistência. A digitalização transformou a informação dos discos, dos livros, das fotos, dos filmes, dos mercados, dos corpos e das mentes em eletricidade. Se o telefone (elétrico), como disse McLuhan, tinha nos transformado em seres desencarnados, a digitalização nos reencarna, como diz Latour, em perfis, rastros, textos, fotos, vídeos, compras etc. A eletrificação tinha (tem) a velocidade e a compressão das distâncias, tão imediato quanto o ambiente acústico. A informação elétrica vem de todos os lados. Sem as limitações geográficas da voz, a luz nos globalizou. A digitalização, por outro lado, traz um outro tipo de experiência corporal. Donna Haraway dizia que: “A tecnologia não é neutra. Estamos dentro daquilo que fazemos e aquilo que fazemos está dentro de nós. Vivemos em um mundo de conexões – e é importante saber quem é que é feito e desfeito” (HARAWAY, 2009, p. 32).

O mantra dos alternativos, “somos todos um”, era olhado de soslaio pela percepção cientificista, masculina e dominante. Para alguns, Haraway é uma clássica representante do viés, perigosamente irracionalista, que encobriu obras lapidares de autores como Jung, Castaneda, Bateson, Capra etc. Mas qual o risco de um olhar que leve em conta a coexistência, ou a interconexão entre tudo? Seria o risco de esse olhar expandir o conceito de mente, como um tipo de cognição distribuída25? Assim, estaríamos margeando os limites do racional, ou daquilo que é aceito pela comunidade científica. Mas, no entanto, o desafio de estudar empiricamente essa composição é justamente a tarefa de seguir os rastros das mediações que permitem esse tipo de coexistência, independentemente do contexto limitante, seja ele cultural, espacial ou temporal.

De qualquer forma, os não humanos desta rede são pouco reconhecidos como agentes que poderiam nos ajudar a entender como se comportam as pontes entre essas interconexões. Podemos dizer que “jamais fomos desconectados”, mas não podemos negar que alguma coisa se modificou com o surgimento da digitalização. As mediações que podem compor nossas coexistências agora podem ser visualizadas, elas deixam rastros e podem ser facilmente recolhidas e analisadas com ajuda de novos atores, softwares e hardwares.

Goya, o pintor, por outro lado, “desenhou” com uma frase aquilo que ainda é o maior dos temores do mundo moderno: “El sueño de la razón produce monstruos”. O medo da barbárie, do irracionalismo, do obscurantismo, medo que Nietzsche explorou até a última gota e que até hoje alimenta os consultórios dos psicanalistas e psiquiatras. Uma criança, desde cedo, já consegue distinguir racionalmente, ou relacionalmente, entre fantasia e realidade. O ambiente cognitivo ajuda nessa delimitação, a conversa com os adultos, os desenhos animados, a convivência com outras crianças etc. Mas esta racionalidade acaba quando a noite se aproxima e começam a surgir os “monstros” escondidos em seu quarto. Sem a luz mediando, a razão não está mais sozinha…

Bibliografia

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WHITEHEAD, Alfred North. Process and Reality: an essay in cosmology (1929). New York: Free Press, 1978.

1Ver: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Papiro&gt;

2“Neologismo inventado por Michel Serres, segundo o esquema morfológico de “cosmogonia” para designar uma genealogia mítica dos objetos.” (LATOUR, 2001, p. 353).

3O site <http://www.modesofexistence.org/&gt; é um projeto de investigação colaborativa que complementa o livro An Inquiry into the Modes of Existence – AIME (LATOUR, 2013). O projeto coordenado por Bruno Latour, tentou reunir documentações que ilustrassem o funcionamento e as contradições do “Modos de existência” que constituem a experiência moderna, apesar dos discursos e das crenças que tentam justificá-la.

4Ver verbete mediattion.

5Em uma postagem no blog do projeto, a proposta é analisada. Ver: <http://modesofexistence.org/entretien-avec-bruno-latour-les-medias-sont-ils-un-mode-d’existence/&gt;.

6Na AIME os modos de existência são agrupados em cinco grupos distintos, como está previsto, por suas próprias preposições, ou pela semelhança e importância entre suas funções na metalinguagem que permite a investigação da AIME.

7Para Latour a simetria, se impõe como desafio. “Como falar simetricamente de nós como dos outros sem acreditar nem na razão nem na crença, respeitando, ao mesmo tempo, os fetiches e os fatos?” (LATOUR, 2002, p. 9).

8Segundo Erick Felinto, “etiquetar alguém como tecnodeterminista ainda é ‘um pouco como dizer que tal pessoa gosta de estrangular lindos filhotinhos de cachorro’”, mas, segundo ele, a acusação tem perdido força à medida que avançam as discussões sobre o pós-humanismo. Kittler, por exemplo, não tem nenhum pudor em afirmar que “os meios determinam nossa situação” (FELINTO, 2011, p. 10-11).

9Como nos diálogos platônicos que transportavam para a escrita a oralidade das conversas. (MCLUHAN, 2005).

10Ver: <http://www.bruno-latour.fr/node/95&gt;.

11Ver: <http://www.telerama.fr/scenes/comment-la-copie-des-noces-de-cana-a-supplante-l-original, 123438. php>.

12Ver: <http://www.bruno-latour.fr/node/333&gt;

13Ver: <http://www.cop21makeitwork.com/make-it-work/&gt;.

14Ver: <http://www.bruno-latour.fr/fr/node/359&gt;.

15Ver: <http://www.bruno-latour.fr/node/680&gt; e <http://modesofexistence.org/reset-modernity-an-exhibition/&gt;

16A série Sense8 dos irmãos Wachowski tem trazido a luz alguns aspectos psicológicos da experiência contemporânea de coexistência, abandonando qualquer resquício de essencialismo.

17Na Wikipédia existe uma curiosa lista das principais teorias de conspiração: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_teorias_de_conspir%C 3%A7%C3%A3o>.

18A realidade já não basta, agora é estendida, ou aumentada, o fenômeno do game Pokémon Go pode dar bons rastros para futuras pesquisas. Ver: <http://epoca.globo.com/vida/experiencias-digitais/noticia/2016/07/pokemon-go-fara-pela-realidade-aumentada-o-que-o-google-nao-conseguiu.html&gt;

19Junção de “feito” e “fetiche”, no original em francês “fait” e “fétiche”. A tradução brasileira tentou recriar o efeito usando o neologismo fe(i)tiche, mas prefiro usar o termo original (LATOUR, 2002).

20“Minha fórmula para a grandeza no homem é amor fati: não querer nada de outro modo, nem para diante, nem para trás, nem em toda eternidade. Não meramente suportar o necessário, e menos ainda dissimulá-lo – todo idealismo é mendacidade diante do necessário -, mas amá-lo…” (NIETZSCHE, 1999, p. 422).

21Talvez até seja por conta desse capítulo platônico que ainda hoje se tenta distinguir entre estória e história, mesmo que nesse caso, por ironia, se deva a uma estória (o mito da caverna) a história dessa distinção…

22On est passé du virtuel au matériel, et pas du matériel au virtuel”. Ver: <http://www.internetactu.net/2010/

06/22/bruno-latour-on-est-passe-du-virtuel-au-materiel-et-pas-du-materiel-au-virtuel/>.

23Postagem do perfil no Twitter do @AIMEproject: “A little digitality inclineth man’s mind to virtuality, but depth in digitality bringeth men’s mind to materiality”.

24Essa formulação se tornou muito conhecida na cultura pop dos anos 70, depois de ser divulgada por John Lennon e Yoko Ono e até cantada por Raul Seixas. No entanto, não consegui localizar em que obra de Cervantes está a frase, apesar de a ele ser atribuída em diversas fontes na internet. Será fake…?

25Sobre a relação entre a ANT e a cognição distribuída pesquisada por Hutchins e outros, ver nota 67 na página 94 do Reagregando Social (LATOUR, 2012a).

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