Quem tem medo do relativismo?

A multiplicidade das verdades não impede um mundo comum

Andre Stangl1

Toda evidência, toda certeza, toda posse possuída de verdade é religiosa no sentido primordial do termo: religa o ser humano a essência do real e estabelece, mais do que uma comunicação, uma comunhão.

Edgar Morin

Aquele que pensa ter encontrado a verdade definitiva está enganado. Existe um verso muito citado, em sânscrito, que também aparece no Tao Te King chinês: “Aquele que pensa que sabe, não sabe. Aquele que sabe que não sabe, sabe. Pois, neste caso, saber é não saber. E não saber é saber”.

Joseph Campbell

A cena já é clássica: alguém acorda e inspirado por alguma vontade quase divina de justiça posta em suas redes um desabafo, seja no espectro político que for, à esquerda ou à direita, e imediatamente após a postagem descobre que sua indignação se baseava em uma fake news2. O que fazer? Deletar a postagem e se desculpar? Para quê? O fato pode não ser real, mas a indignação continua verdadeira e, para muitos, isso basta. Esse quadro alegórico tenta ilustrar o paradoxo que uma parte da sociedade vive hoje. Esse artigo tenta reunir alguns quadros, conceituais e/ou da vida cotidiana, na esperança de apontar algum caminho que nos permita recompor um mundo comum, ainda que sob visões distintas e relativas, um mundo compartilhado sob o prisma descentralizado do mosaico de nossas vidas digitalizadas.

Uma forma de compreender as configurações desse novo mundo fragmentado, onde cada um de nós pode ser muitos, já que múltiplos são os ambientes que habitamos, nas redes e fora delas, é recorrer ao conceito de ecologia cognitiva. Ou seja, uma forma não essencialista de redesenhar e reencenar os percursos de nossa situação atual. Todo ecossistema é uma rede de relações, cada relação pressupõe uma posição, ainda que transitória dentro do curso de ação. Nas ecologias cognitivas, os sujeitos são atores-rede e essa preposição já pressupõe alguma abertura, pois a forma de compreender o mundo estará sempre em relação a outro ator-rede, sejam eles humanos ou não.

Revisitando as ecologias cognitivas

A ecologia foi a primeira disciplina moderna a reunir outros domínios e práticas, indo no caminho inverso das tentativas de purificação epistemológica. Por sua conformação, inspirou outras abordagens, como a cibernética e os estudos das mídias. Por analogia, podemos entender a ideia de ambiente como um tipo de meio, ou seja, de mídia. McLuhan (2001) dizia que “o meio é a mensagem”. Por isso o conceito de ecologia cognitiva é uma boa imagem para os estudos que tentam olhar para a forma como olhamos, pensamos e percebemos o meio em que ocorrem as relações mediadas pelas linguagens. Um dos primeiros a atualizar essa imagem foi Pierre Lévy, que a definia assim:

Vivemos hoje uma redistribuição da configuração do saber que se havia estabilizado no século XVII com a generalização da impressão. Ao desfazer e refazer as ecologias cognitivas, as tecnologias intelectuais contribuem para fazer derivar as fundações culturais que comandam nossa apreensão do real. […] as categorias usuais da filosofia do conhecimento, tais como o mito, a ciência, a teoria, a interpretação ou a objetividade dependem intimamente do uso histórico, datado e localizado de certas tecnologias intelectuais. Que isto fique claro: a sucessão da oralidade, da escrita e da informática como modos fundamentais de gestão social do conhecimento não se dá por simples substituição, mas antes por complexificação e deslocamento de centros de gravidade. (LÉVY, 2004, p. 5-6).

O maior desafio de usar o conceito ecologia cognitiva está justamente na simultaneidade de sua manifestação. Vivemos e experimentamos aspectos da oralidade, da escrita e da eletricidade simultaneamente no ambiente digital. Mas é justamente a materialidade dessas experiencias que nos permitirá reconhecer alguma diferença. A observação e a experiência em cada uma dessas ecologias cognitivas nos permite identificar e criar padrões performativos. A utilidade dessa estratégia, ou seja, a simples distinção da experiência de conversar pessoalmente e através das redes pode nos ajudar na recomposição da confiança como o elemento estabilizador de nossas práticas comunicativas, sem a qual não há como conviver.

Por exemplo, enquanto ecologia cognitiva, o jornal mistura aspectos da oralidade e da escrita. Ao longo do tempo foi absorvendo cada vez mais a velocidade das mídias eletrificadas, ao ponto de, hoje, as notícias serem quase imediatas. O jornalismo atual vive uma crise sem precedentes, o surgimento das redes digitais deslocou a centralidade informativa das grandes mídias. Nos últimos tempos, a velocidade das informações amplificou a sensação de incerteza, abrindo espaço para a propagação de fenômenos como o das fake news3. Nas redes, as bolhas informativas se retroalimentam e as consequências políticas e sociais dessa nova configuração transborda das redes para a vida cotidiana. Estamos desaprendendo a conviver, o ódio e o silêncio reinam, isolando cada vez mais os grupos e as visões de mundo.

Como reverter isso? Como recuperar o espaço do diálogo? O jornalismo profissional tem apostado suas fichas na recuperação de sua relevância institucional abraçando, em geral, um projeto requentado de objetividade e da imparcialidade dos fatos4. Multiplicam-se as agências de checagem (fact-checking), mas a sensação que dá é de que estão enxugando gelo. Basta ver os últimos resultados eleitorais. De que adianta negar que notícias são construídas e até inventadas se até a ciência, bastião moderno da objetividade, já não pode negar a complexidade de sua institucionalização. Como nos lembra Bruno Latour:

As pessoas já não esperam das ciências verdades definitivas. Passamos da confiança total à dúvida absoluta. É pena, pois as ciências são meios de produção de verdade no mundo. É preciso não ser ingênuo nos dois sentidos e ter confiança nas instituições respeitando a fragilidade científica. Há resultados certos e seguros. As ciências são muito mais poderosas do que dizem os seus críticos e muito mais frágeis do que pensam os ingênuos. […] O objetivo da ciência não é produzir verdades indiscutíveis, mas discutíveis. Nem as ciências naturais e exatas produzem verdades indiscutíveis. (SILVA, 2017)

Mas então como fica o papel do jornalismo de balizar o real? Como separar o que é notícia real do que é fake news? A experiência cotidiana tem nos mostrado como é difícil fazer alguém mudar de opinião, mesmo quando apresentamos dados e fatos “indiscutíveis”. Por outro lado, a ciência também enfrenta uma crise de credibilidade e enquanto instituição segue sofrendo ataques e críticas, alguns injustos e outros nem tanto. Até obviedades como o papel da humanidade no crescimento das variações climáticas e o formato da terra têm sido relativizadas. Não são poucos os que acusam os desdobramentos das pesquisas sobre a construção do conhecimento científico, as CTS5 como as causadoras desse enfraquecimento institucional.

As pessoas se queixam das fake news e da pós-verdade, mas isso não significa que sejamos menos capazes de raciocinar. Para conseguir manter um respeito pelos meios de comunicação, a ciência, as instituições, a autoridade, deve haver um mundo compartilhado. […] Para que os fatos científicos sejam aceitos, é preciso um mundo de instituições respeitadas. (BASSETS, 2019)

Quem tem medo do relativismo?

Em maio de 1994, uma série de debates com curadoria de Antônio Cícero e Waly Salomão, reunidos sob o nome de “Banco Nacional de Ideias – O Relativismo enquanto visão do mundo”, tentou, como disse Salomão, “pegar o touro a unha”. O evento6 gerou um livro com as conferências e os comentários. A conferência de Richard Rorty se destaca por sua conhecida defesa pragmatista do relativismo.

[…] nós, pragmatistas, não concordamos com a ideia de que devemos buscar a verdade pela verdade – não podemos considerar a verdade a meta de uma investigação. O propósito da investigação é chegar a um acordo entre os seres humanos sobre o que fazer, criar um consenso sobre os fins a serem atingidos e os meios a serem usados para isso. (RORTY, 1994, p. 125).

Para Rorty, trata-se de reconhecer que o vocabulário que herdamos de Platão e Aristóteles perdeu sua utilidade e , assim, devemos abandonar essa “escada”, em um sentido darwiniano. Na contingência de nossas vidas, qualquer recurso metafísico perdeu sentido, mesmo o recurso à razão iluminista.

[…] nós, pragmatistas, refutamos a qualificação de relativistas ou irracionalistas com o argumento de que essas definições pressupõem justamente as distinções que rejeitamos. Qualificação mais apropriada seria, talvez, antidualistas. […] Rejeitamos, isto sim, especificamente o conjunto das dicotomias platônicas. […] aquelas que tornam possível, natural e quase inevitável perguntar se algo foi encontrado ou fabricado, se algo é real ou aparente. (RORTY, 1994, p. 119-20)

Ernest Gellner7, Roger Scruton8 e Olavo de Carvalho9 estão entre os principais autores alinhados a uma visão de mundo conservadora10 e tecem as críticas mais ferozes ao relativismo. Não cabe aqui desenvolver todas essas críticas, que obviamente não são destituídas de sentido. O antropólogo Clifford Geertz (2001, p. 47), no clássico artigo sobre o “anti anti-relativismo”, afirma que não há melhor tarefa para um estudioso do que destruir um medo. E o medo que ele se propõe a destruir é justamente o medo do relativismo. Segundo ele, não é o relativismo a causa do “subjetivismo, niilismo, incoerência, maquiavelismo, estupidez ética, cegueira estética”, e essa acusação serve para nos empurrar de um modo ver para outro, que interessa aos inimigos do relativismo. Para eles, a diversidade sempre será mais superficial que a universalidade, por isso, segundo Geertz,

O medo do relativismo […] levou a uma situação em que a diversidade cultural no tempo e no espaço corresponde a uma série de expressões, algumas sadias, outras não, de uma realidade subjacente estável – a natureza essencial do homem […]. Um conceito abrangente, esquemático e faminto de conteúdo […] torna-se a base sobre a qual vem repousar definitivamente a compreensão da conduta humana, do homicídio, do suicídio, do estupro…, (em suma,) da depreciação da cultura ocidental. (p. 61).

Para aqueles que defendem a natureza humana, o mal é essencial, assim como a bondade, por isso não acreditam na possibilidade de recuperação daqueles que cometem crimes. Então, para que tentar reinserir na sociedade alguém que carrega a maldade dentro de sua alma? Por isso, é estranho ouvir de pessoas ditas de esquerda, ou progressistas, que não existe a possibilidade de conversar com o outro lado do espectro político. É como se nessa atitude deixassem transparecer (talvez sem consciência disso) a crença na natureza má de seus adversários.

Será que os inimigos do relativismo11 são apenas aqueles que querem preservar uma visão de mundo que mantenha seus interesses e privilégios? Recentemente, uma charge de 1997 do cartunista Clay Butler12 viralizou nas redes sociais, e perfis alinhados a uma visão de mundo de esquerda (e de direita também!) postaram a imagem, como sendo uma forma de denunciar os riscos políticos do relativismo e/ou do pós-modernismo13.

Da natureza ao discurso

O livro O Efeito Sofístico, de Barbara Cassin (2005), propõe uma “história sofística da filosofia”. Segundo ela, os sofistas foram os primeiros na tradição ocidental a perceber a força da linguagem, passando “da natureza ao discurso – o ser é um efeito do dizer” (p. 187). Apesar de eleitos como a escória do pensamento na maioria dos manuais de história da filosofia e acusados de representar uma “filosofia de raciocínio verbal, sem solidez e sem seriedade” (p. 8), ou ainda, segundo ela:

Não os encontraremos senão intimados em juízo às margens da fala filosófica, ou completamente fora, do lado da retórica, da ficção, do romance – do sentido sem referência, desancorado do ser. (CASSIN, 2005. p. 8).

Do outro lado, a metafísica platônica almejava ser a “Ciência primeira, por ter como objeto o objeto de todas as outras ciências, e como princípio um princípio que condiciona a validade de todos os outros” (ABBAGNANO, 2007, p. 660). Aquilo que os gregos chamaram de ciências particulares (aritmética, música, geometria, astronomia), mas que, segundo Platão, deveria ser validado por um conhecimento mais profundo, que nem a dialética alcançava.

O desejo de encontrar uma camada subjacente à realidade que fosse imutável e só pudesse ser apreendida pelo pensamento racional reflete a atração de Platão pelas ideias de Parmênides. Essas ideias propiciaram, entre outras coisas, um marco intelectual adequado às suas crenças órficas e pitagóricas sobre a purificação da alma, a ser obtida pela contemplação racional de uma realidade situada além do mundo físico inferior (a caverna). (GOTTLIEB, 2007, p. 214)

Segundo Cassin (2005), quando revisitamos as obras dos sofistas, as poucas que sobreviveram, podemos reconhecer dois grandes momentos. O primeiro “trata-se do Tratado do não-ser de Górgias, que manifesta linha por linha de que modo o Poema de Parmênides, no nascimento da ontologia, não deixa de ser um discurso entre outros, particularmente performativo” (p. 8). Depois, em resposta ao principio de não-contradição de Aristóteles, o segundo grande momento da sofística foi quando ela se:

[…] inventa, em sua relação com a retórica, a história, a literatura; e as maneiras com que reivindica – com Élio Aristides, com Filóstrato, com Luciano – a soberania de seu estatuto discursivo, capaz de englobar, engolir ou subjugar, a filosofia – uma filosofia que ela descreve como se esforçando por se lhe assemelhar sem o conseguir. (p. 8)

Para Cassin, “a filosofia pode ser simulada, não a eloquência” (p. 173). Por isso, o efeito sofístico pragmaticamente funciona. Dessacralizando e tirando o pedestal da filosofia (de inspiração platônica) como a única com condições de atingir a esfera das verdades verdadeiras. Cassin cita um trecho muito interessante de Deleuze, no qual ele destaca a noção de importância e interesse na construção do sentido.

A besteira nunca é muda nem cega. De modo que o problema não é mais fazer com que as pessoas se exprimam, mas arranjar-lhes vacúolos de solidão e de silêncio a partir dos quais elas teriam, enfim, algo a dizer. As forças repressivas não impedem as pessoas de se exprimir, ao contrário, elas as forçam a se exprimir. Suavidade de não ter nada a dizer, direito de não ter nada a dizer; pois é a condição para que se forme algo raro ou rarefeito, que merecesse um pouco ser dito. Do que se morre atualmente não é de interferências, mas de proposições que não têm o menor interesse. Ora, o que chamamos de sentido de uma proposição é o interesse que ela apresenta, não existe outra definição para o sentido. Ele equivale exatamente à novidade de uma proposição. Podemos escutar as pessoas durante horas: sem interesse… Por isso é tão difícil discutir, por isso não cabe discutir, nunca, Não se vai dizer a alguém: ‘o que você diz não tem o menor interesse’. Pode-se dizer: ‘está errado’. Mas o que alguém diz nunca está errado, não é que esteja errado, é que é bobagem ou não tem importância alguma. É que isso já foi dito mil vezes. As noções de importância, de necessidade, de interesse são mil vezes mais determinantes que a noção de verdade. De modo algum porque elas a substituem, mas porque medem a verdade do que digo. (DELEUZE, 1992, p. 161-2)14

Ah… Quem dera houvesse esse bom senso nas discussões no Facebook. Mas nas redes a leitura parece ainda mais literal do a das letras impressas. Prints e rt validam e condenam pela eternidade opiniões que se fossem apenas verbalizadas em mesas de bar se perderiam nas sombras da memória. Partimos sempre da crença na crença, o outro crê e eu não, eu sei a verdade verdadeira (GELLNER, 1994). No entanto, como nos lembra Latour (2002), a “crença na crença” não nos aproximou. Em seu livro sobre os “faitiches”, o feito (fait) e o fetiche (fétiche), ele relata o desafio para evitar essa rua sem saída. A verdade (ou o fato/feito) pode ser construída/percebida, criada/descoberta simultaneamente, como nos terreiros do candomblé, onde os santos são feitos. A simultaneidade não reduz o valor do verdadeiro, nem pode ser confundida com a ausência ou com a impossibilidade de falar, criar e se posicionar. A dinâmica dessa simultaneidade é a alternância, não a imobilidade. Para ele:

O relativismo não pode ser visto como uma crítica. É uma virtude. Quem critica o relativismo é absolutista. Isso é pior. O relativismo é virtuoso moral, política, religiosa e cientificamente. A verdade científica não precisa de absolutismo, mas de relativismo. O importante é estabelecer relações em todas as direções possíveis. Voltamos ao tema da “discutabilidade”. Não faz sentido que um cientista não seja relativista. Já faz alguns anos que não escuto essa crítica. É algo superado, ultrapassado, ingênuo, anacrônico. A defesa da verdade científica hoje passa justamente pelo relativismo. Talvez os filósofos ainda se interessem por esse debate, mas não os cientistas, que já mudaram seus procedimentos e parâmetros. Relativismo significa capacidade de estabelecer relações entre pontos de vista diferentes. A filosofia da ciência antigamente era simplista, ingênua e boba. Isso tudo foi importante nos anos 1950. Atacados, os cientistas buscam atualmente aliados fora do absolutismo. (SILVA, 2017)

Bolhas e modos de existência

Latour (2013) se inspira na tradição pragmatista para desenvolver sua metalinguagem de investigação sobre os modernos na obra An inquiry into modes of existence: an anthropology of the moderns (AIME). Usando as “Condições de felicidade e infelicidade”15 como critério que permitem reconhecer algo como verdadeiro ou falso, sem associá-los à sua condição de existência (se é real ou não). Essa distinção permite que cada modo de existência tenha sua própria forma de “veridicção”, como na linguística de Greimas, ou seja, é uma forma distinta de verificação, que evita a redução ontológica dos modos de existência16.

Na AIME, a opção por esse tipo de metalinguagem (regimes de enunciação e modos de existência) será uma forma de “proteger o pluralismo ontológico contra seu aniquilamento pelo esquema sujeito/objeto” (LATOUR, 2012, p. 24). Essa também seria uma forma de responder ao imobilismo pós-moderno, pois existe, sim, uma pluralidade a ser pesquisada, seja por comparações ou recriações e no sentido de buscar soluções diplomáticas que ajudem os coletivos a conviver e sobreviver. Como Latour dizia no Jamais fomos modernos:

O pós-modernismo é um sintoma e não uma nova solução. Vive sob a Constituição moderna, mas não acredita mais nas garantias que esta oferece. Sente que há algo errado com a crítica, mas não sabe fazer nada além de prolongar a crítica sem, no entanto, acreditar em seus fundamentos (Lyotard). Ao invés de passar para o estudo empírico das redes, que dá sentido ao trabalho de purificação que denuncia, o pós-modernismo rejeita qualquer trabalho empírico como sendo ilusório e enganador (LATOUR, 1994, p. 30).

Para Latour (2013, p. 315), o modo de existência da política [POL], por exemplo, caracteriza-se por um tipo de enunciação envolvente e, por isso mesmo, circular, ora marcada pela crise de representação, ora pela crise da obediência. A [POL] cria as condições que permitem a percepção de pertencimento. As suas formas de validação estão distantes do jogo de linguagem que determina o certo e o errado, ou o verdadeiro e o falso. Esse é, segundo Latour, um erro de categoria frequentemente associado a esse modo existência, que não faz essa escolha, preferindo optar entre o jogar ou não jogar, ou seja, agir ou deixar de agir, ou ainda pertencer ao grupo ou não. Basta observar como se comportam a militância política nas redes digitais para ver como funciona o círculo político.

A especificidade do círculo político não está no fato de que ele traça um círculo – impossível por construção –, mas no fato de que ele resolve praticamente esta impossibilidade, esta impraticabilidade, pela repetição obstinada, incessante, subversiva, esgotante do trabalho de representação. A distinção deve-se a esta diferença […] entre a suspensão do movimento de repetição e seu recomeço. O porta-voz verídico não é aquele que tem razão contra os outros, que é mais obedecido que os outros, que enxerga mais longe que os outros, mas aquele que se põe a dizer o verdadeiro porque percorre com novos custos o conjunto do movimento que vai da multidão à unidade, depois desta àquela, verificando duas vezes, na ida como na volta, que não existe relação direta entre a multidão e sua unidade. Inversamente, o mais fiel dos mandatários, o mais confiável dos representantes, o mais sábio dos eleitos, o mais inspirado dos dirigentes, o mais visionário dos delegados começa a mentir sempre que interrompe o percurso e se põe a explorar um tipo de capital político, esperando ser obedecido, confiando no fato de que ele é de fato e de uma vez por todas o porta-voz da multidão. Mentira e verdade não tratam, portanto, do conteúdo das palavras pronunciadas, mas da capacidade de parar ou prolongar a impossível tarefa de fusão, de tradução, de metamorfose que permite ao círculo se fechar. (LATOUR, 2004, p. 27)

Por tanto, a principal função dos enunciados políticos é transformar a multiplicidade de opiniões em unanimidade. Os mecanismos que permitem a determinados grupos validarem ou não uma informação como sendo verdadeira ou falsa são determinados pelo poder que ela tem de agregar força a uma identidade política. De nada adianta a recorrência ao conceito de fato, de verdade ou de realidade. O jornalismo, muitas vezes perdido dentro desse círculo, tanto pode servir para alimentar um lado ou o outro com a mesma notícia, pois rapidamente pode ser recrutado, passando da função de informante imparcial para a de inimigo declarado, ou aliado disfarçado.

De volta ao mundo

Na ecologia cognitiva das redes, muitas vezes a forma de validação de uma informação lembra as estratégias dos antigos sofistas. O atual clima de impotência discursiva, no qual os argumentos que parecem reverberar, nas redes pelo menos, servem apenas quando retroalimentam as convicções de bolhas, ou ilhas?, como se hoje já não fosse mais possível compartilhar um mundo comum. Independente das visões de mundo, o mundo parece não mais se importar.

Para ter fatos comuns, você precisa de uma realidade comum. Isso precisa ser instituído nas igrejas, nas aulas, no jornalismo decente, na revisão pelos pares. … Não se trata de pós-verdades, trata-se do fato de que grandes grupos de pessoas vivem em um mundo diferente com diferentes realidades, onde o clima não está mudando. (VRIEZE, 2017, tradução nossa)

Nos últimos anos, Latour tem concedido uma quantidade razoável de entrevistas, às vezes parecendo querer se desculpar por ter ajudado a abrir a caixa de pandora que permitiu aos negacionistas da crise climática e os terraplanistas questionar a credibilidade das verdades instituídas. Segundo ele, não devemos tentar disfarçar a fragilidade da construção do conhecimento, mas, sim, assumir que todos temos interesses e que não há outro meio, senão a diplomacia.

Um fato deve estar instalado numa paisagem, sustentado pelos costumes de pensamento. São necessários instrumentos e instituições. As vacinas são o exemplo de um fato que precisa de uma vida pública. Se eu sair pela rua com uma seringa tentando vacinar as pessoas, serei considerado um criminoso. Se a vida pública é deteriorada por pessoas que consideram que – não importa o que você disser – este não é o mundo delas, os fatos não servem para nada. (BASSETS, 2019)

Não é necessário recorrer a nenhum realismo primariamente materialista, nem ao espectro da razão, nem aos fatos. Devemos recompor o mundo comum com o mundo, não importa o que vamos usar para interpretar o grito do mundo, se concordamos que há um grito, há esperança. Os filmes apocalíticos e as distopias que inundam as telas sempre apontam a convergência de ações entre grupos adversários, infelizmente, quando quase já não existe mais tempo.

O problema é esse sentimento de perder o mundo. Já existia antes, mas eram os artistas, os poetas, que o sentiam. Agora é um sentimento coletivo. (BASSETS, 2019)

Precisamos conversar sobre… conversar

Se os desafios da convivência foram aumentados com a ecologia cognitiva das redes, talvez seja com as redes que vamos aprender a recompor as práticas que nos permitiam conviver. Quando as redes, por exemplo, servem de ponte para transitarmos entre as ecologias cognitivas, como é o caso de uma série de iniciativas como a dos canais do Youtube Spotiniks e Quebrando o Tabu, que têm reunido pessoas com visões distintas para conversar presencialmente.

“Quando fazemos o convite, a gente acha que a pessoa não vai topar, mas eles ficam até felizes”, diz Guilherme Melles, diretor de criação e conteúdo do Quebrando o Tabu. Já estiveram no chamado “Fura Bolha”, feito em parceria com a Plataforma Democrática, os deputados Marcelo Freixo (PSOL-RJ) e Janaina Paschoal (PSL-SP). “Juntamos pessoas extremas, e a gente acha que vai dar uma treta incrível. Mas quando conversam olho no olho, são simpáticos. Não necessariamente mudam de ideia, mas fica provado que a internet engana bastante no quanto a gente se odeia”, comenta Melles. (ZANINI e LINHARES, 2019)

Exemplos como esse nos mostram que a razão não é suficiente para determinar a validade ou não de um argumento. O contato olho no olho envolve os participantes em uma ecologia cognitiva em que as emoções são percebidas por gestos e expressões faciais, com isso elementos mais complexos que a escrita e os emojis entram no jogo e permitem que alguém escute com empatia aquilo de que discorda.

Portanto, podemos dizer que não é útil falar em pós-verdade ou fake news, mesmo porque afirmar isso é um paradoxo lógico como aquele que diz: o “enunciado que estou a proferir é falso”. O jogo de espelhos no qual caímos quando tentamos analisar essa afirmação pode nos servir de aviso. Nossa atual confusão não é um problema de falta de sentido. Sentidos existem muitos, até por isso compartilhamos coisas inúteis (pelo menos sob o ponto de vista do grupo adversário). São múltiplas as possibilidades de verdades17 e até de algumas mentiras. Talvez seja só uma questão de velocidade e, nesse sentido, a desaceleração é um bom caminho.

Bibliografia

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VRIEZE, Jop de. Bruno Latour, a veteran of the ‘science wars,’ has a new mission. ScienceMag, Paris, 10 out. 2017. Disponível em: <https://www.sciencemag.
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Notas

1Doutor em Comunicação (Eca-USP), astangl@gmail.com Artigo completo publicado nos anais do VIII Simpósio Nacional de Ciência Tecnologia e Sociedade – ESOCITE.BR – 2019 – GT “Periferalidade e subalternidade na produção do conhecimento”.

2O conceito de fake news é controverso. Jornalistas, em geral, não admitem que uma notícia possa ser falsa. O fato jornalístico é naturalizado e sempre será real, por isso muitos questionam o termo fake news. Prefere-se atualmente o termo desinformação.

3Como disse Obama: “No mundo das novas mídias, ‘tudo é verdade e nada é verdade’” Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/11/1833744-no-mundo-das-novas-midias-tudo-e-verdade-e-nada-e-verdade-diz-obama.shtml>

4Ver Projeto Credibilidade – Disponível em: <https://www.credibilidade.org/>

5Estudos de Ciência, Tecnologia e Sociedade

6O evento reuniu pensadores brasileiros e estrangeiros, com conferências de Bento Prado Jr., Ernest Gellner, Richard Rorty e Peter Sloterdijk; e comentários de Luiz Roberto Cardoso de Oliveira, Renato Lessa, Sérgio Cardoso, Paulo Arantes, Luís Eduardo Soares, José Arthur Giannotti, Emmanuel Carneiro Leão e Fernando Gabeira.

7“De modo algum estamos condenados a um tipo qualquer de neocolonialismo ou racismo por acreditarmos que em geral, ou decerto na ciência natural, há uma verdade única, que conduz à eficiência tecnológica. Creio firmemente nisso.” (GELLNER, 1994, p. 33)

8“Acredito que o conceito de verdade é fundamental para o discurso humano, que é a pré-condição de qualquer diálogo genuíno e que o real respeito pelas outras pessoas exige um respeito ainda maior pela verdade. Portanto, não posso concordar com o que me parece, sempre que o encontro, uma maneira totalmente ilusória e até barata de argumentar, que Rorty tipificou e, de fato, aperfeiçoou. Rorty foi primordial entre os pensadores que defendem sua própria opinião como imune a críticas, fingindo que não é a verdade, mas o consenso que conta, enquanto definem o consenso em termos de pessoas como elas.” (SCRUTON, 2007)

9“Richard Rorty fará tudo o que estiver ao seu alcance para que a vida não tenha o menor sentido. Ele faz isto aliás com extrema dedicação e competência. Há quem ache que a falta de sentido é que torna os seres humanos infelizes, mas o Sr. Rorty não está nem aí. Ele defende o pluralismo democrático, a livre expressão de todos os pontos de vista. Apenas, o confronto dos pontos de vista, não podendo ser arbitrado por nenhum meio intelectualmente válido, se torna apenas uma concorrência entre desejos, cujo desenlace será determinado pela pura habilidade manipulatória do partido vencedor”. (CARVALHO, 1999).

10W. O. Quine, para citar um exemplo, apesar de conservador, defendeu o relativismo ontológico.

11Para ter uma visão mais completa sobre os amigos e inimigos do relativismo, vale ler o ótimo verbete da The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: < https://plato.stanford.edu/archives/win2018/entries/relativism/>.

12A charge original: Disponível em: <http://www.sidewalkbubblegum.com/you%e2%80%99re-standing-on-my-neck/>.

13Um bom resumo dos principais argumentos conservadores contra o pós-modernismo está no texto de Helen Pluckrose “How French “Intellectuals” Ruined the West: Postmodernism and Its Impact, Explained”. Ver a tradução. Disponível em: <https://universoracionalista.org/como-intelectuais-franceses-arruinaram-o-ocidente-pos-modernismo-e-seus-impactos/>.

14Os trechos em negrito foram os que Cassin usou na sua argumentação (p. 9).

15Expressão inspirada na “teoria dos atos de fala” de Austin.

16Portanto, não nega a possibilidade do sentido metafísico como o relativismo de Rorty.

17Nesse sentido vale consultar o verbete sobre as diversas formas de definição do conceito de verdade ao longo da história da filosofia ocidental, ver Dicionário de Filosofia (ABBAGNANO, 2007).

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