Quem tem medo do relativismo?

A cena já é clássica: alguém acorda e inspirado por alguma vontade quase divina de justiça posta em suas redes um desabafo, seja no espectro político que for, à esquerda ou à direita, e imediatamente após a postagem descobre que sua indignação se baseava em uma fake news. O que fazer? Deletar a postagem e se desculpar? Para quê? O fato pode não ser real, mas a indignação continua verdadeira e, para muitos, isso basta.

A Caverna da Mediação

Entender o domínio da comunicação como um campo de estudo das mediações comunicacionais, nos leva a uma perspectiva não essencialista das tecnologias. No entanto, as mediações ainda são vistas com desconfiança e muitas vezes os pesquisadores parecem querer indicar, platonicamente, o caminho de saída da caverna das mediações. Como se fosse possível purificar e isolar epistemologicamente as ferramentas conceituais do próprio domínio. Mas não é justamente o domínio da Comunicação que pressupõe um tipo de obsolescência programada, como se autores e teorias tivessem data de validade? Como ignorar a imbricada relação epistêmica do campo com os meios estudados? A acada nova tecnologia, uma nova teoria surge, mas em geral é apresentada como se não fosse gestada pela relação entre atores humanos e não humanos.

Estratégias para uma Cartografia de Controvérsias “Culturais”: o caso dos rolezinhos nos jornais e redes digitais

O artigo explora as possibilidades de uma Cartografia de Controvérsias “Culturais”, inspirada na Cartografia de Controvérsias presente na Teoria Ator-Rede de Bruno Latour, que a princípio mapeia os debates nos domínios técnicos e científicos. O objetivo aqui foi propor um modelo de Cartografia de Controvérsias, com 12 etapas. Como exemplo da aplicação do modelo, observou-se o modo como a polêmica dos “rolezinhos” apareceu em alguns jornais brasileiros e nas principais redes digitais. Essa forma de abordagem Cartografia de Controvérsias demonstrou ser um modo produtivo de estudar fenômenos complexos, por permitir a inclusão de perspectivas diversas, sem necessariamente tentar explicar ou antecipadamente reduzir o fenômeno a uma única possibilidade interpretativa

Por uma Ontologia da Atenção Distribuída Digitalmente.

O percurso que levou a pesquisa a formular o conceito de coexistência mediada também levou a propor uma estratégia de autoconhecimento, ou autoantropologia, como prefere Marilyn Strathern, que nos ajude a lidar com a multiplicação dos ambientes de nossas ecologias cognitivas. Tendo como base indícios de que a velocidade e a intensidade do trânsito entre as diversas mediações comunicacionais instauram desvios e confusões (semelhantes a “erros” de percepção, aqui nomeados como efeito Flammarion), a pesquisa então propõe/constata o seguinte: para aprender a conviver com os desafios de uma atenção distribuída digitalmente e no sentido da diplomacia que nos levará a compor um novo e múltiplo mundo, talvez seja necessário reaprendermos a nos livrar da atenção.