Uma Etnografia da Prática Epidemiológica

Uma Etnografia da Prática Epidemiológica (2000)
Andre Stangl

01. objetivo

O estudo parte do acompanhamento, em campo, da prática epidemiológica desenvolvida pelo ISC (Instituto de Saúde Coletiva – UFBA) no Projeto de “Avaliação do Impacto sobre a Saúde do Programa de Saneamento Ambiental de Salvador e Cidades do Entorno da Baía de Todos os Santos”- Projeto Bahia-Azul[1]. Centrando na ótica/perspectiva dos técnicos e prestadores de serviços (entrevistadoras, motoristas, etc.), propomos um retrato antropológico do imaginário dos atores que, de fato, efetivam a ação/intervenção epidemiológica. Aqueles que, sem a visão mais teórica ou do conjunto, seguem ordens, mesmo porque, assim, acreditam estar fazendo o melhor por sua comunidade ou cidade. Utilizando para isso diário de campo, registros fotográficos e nossas próprias impressões, buscamos a reconstrução desse imaginário de ‘cura coletiva’ e a relação deste com seu alvo: a população.

02. duas perspectivas

Existem, então, em nossa proposta duas perspectivas, a primeira é a de quem executa a intervenção epidemiológica e a segunda é a de quem sofre a intervenção. Para dar conta delas nos parece imprescindível a inserção no momento do contato entre as duas, ou seja, no campo. Para concretizar esta perspectiva de compreensão e contextualização etnográfica da prática epidemiológica, tal qual ela acontece, foram necessários o acompanhamento e a observação sistemática da rotina de trabalho de alguns dos atores em sua prática cotidiana. A observação tem como estratégia principal a participação nas atividades desenvolvidas pelos atores, portanto, através da observação-participante, foi possível participar da rotina de trabalho destes, transformando o distante em familiar. O envolvimento no cotidiano da prática epidemiológica foi uma forma de buscar fatores que possam estar implicitamente relacionados ao processo argumentativo entre pesquisadores (os teóricos) e técnicos (os atores), ou seja, entre os que dizem (produzem o discurso) e os que fazem (executam a intervenção). Podemos, assim, contrapor discursos, visualizar melhor a participação dos ‘atores’ na rede de relações, na diversidade de pontos de vista e na construção do sentido da própria prática epidemiológica. O que torna possível a compreensão da prática e da teoria como aspectos simétricos e interdependentes na produção do conhecimento epidemiológico.

Portanto, é importante que fique claro que a nossa perspectiva em nada diferia da perspectiva do técnico que conosco dividia suas atividades, sendo, então, a perspectiva da população, uma incógnita a ser delineada a partir da relação entre estes dois pólos de ação. Estando agora clara e definida a delimitação das duas perspectiva, fica a possibilidade de junto ao material etnográfico coletado contrapor nossas próprias impressões. A auto-reflexividade, implícita à abordagem etnográfica, possibilita que para cada contexto de investigação seja moldada uma forma peculiar de inserção e abordagem. Assim, mudando-se o contexto, muda-se também nossa perspectiva. Estaremos aqui adotando a perspectiva dos atores da prática epidemiológica.

No decorrer da etnografia, fomos identificando os diferentes atores envolvidos no processo da prática epidemiológica – pesquisadores, técnicos e responsáveis pela coleta e análise de dados – buscamos registrar e comparar os discursos acerca da praxis de intervenção com o discurso oficial. De fato, interessava-nos mais um saber sobre os discursos da prática concreta de intervenção. Nas observações do cotidiano de trabalho, fomos obtendo acesso a um discurso prático, não oficial, que encontra respaldo nas ações ordinárias – o dia-a-dia – do homem comum das equipes de pesquisa. Nosso principal instrumento eram os diários de campo, registrando as diferentes interpretações que surgiam das observações sistemáticas das rotinas de trabalho. O “observador como participante”, segundo Minayo (1992), é uma estratégia utilizada de maneira complementar, na qual o etnógrafo interage com o meio, se relaciona com os participantes efetivos de uma prática, trava conversações informais com eles e busca dados que possam ser cruzados com os dados colhidos em outros contextos. Era imprescindível, portanto, não apenas informar-se sobre o discurso oficial, mas misturar-se no meio e com ele interagir.

O shadowing de alguns atores foi uma especificidade das observações participantes. Sem uma correta tradução – mas que ficou conhecido por nossos interlocutores como o “sombra”, consiste em um acompanhamento focal de um determinado ator, ora ajudando-o na digitação de dados, ora acompanhando-o na aplicação de um questionário ou tratamento. Tê-lo como objeto de shadowing representa uma oportunidade para conhecer, compartilhar, uma rotina ou dia comum de trabalho. É difícil distinguir, na prática, onde termina uma postura de shadowing e se inicia a postura de observador-participante. Na verdade, dar continuidade a um shadowing significa flexibilidade para participar ativamente de suas relações no grupo de trabalho, assim também oportunidade para se inserir nas práticas que se desenvolvem no cotidiano do trabalho em campo.

03. narrativas

Abaixo, seguem alguns trechos extraídos dos diários de campo que ilustram um pouco da praxis epidemiológica, seu discurso e seu imaginário. O choque desta com a população, tento relatar através de impressões coletadas in loco.

01
“Saímos do anexo do ISC na Faculdade de Enfermagem, eram umas oito da manhã e além de mim estavam: o motorista (doravante chamado de Xangô[1], se mostrará um elemento importante no Trabalho de Campo) e duas estudantes de Nutrição (a primeira chamaremos Iemanjá, por sua aparente calma a segunda chamaremos Nanã, por ser severa e doce ao mesmo tempo). Candeias é uma montanha vestida de ruas, sua urbanização lembra um emaranhado de fios, ruas estreitas, caminhos confusos, muitas ladeiras. A cidade estava em obras, o que agravava a dificuldade de encontrarmos as escolas, Nanã que tinha vindo antes, na primeira etapa, recolher fezes, se confundia com a semelhança entre as ruas. Informações como o nome da escola ou a rua onde esta se encontra, não nos adiantavam muita coisa, uma vez que as referências usadas pelos habitantes da cidade vêem de suas próprias experiências cotidianas: “perto da casa de coisinho, aquele que é casado com a prima de Seu Zé…”. Após algumas tentativas chegamos na 1ª escola. A diretora se lembrava da visita de Nanã, não tivemos muita dificuldade em dar prosseguimento ao tratamento. Este consistia em localizar as crianças cujos exames de fezes apontavam alguma verminose e a depender da seriedade do caso medicá-las com ‘Albendazol’ ou recomendá-las ao Posto Médico para um tratamento mais prolongado. A criança, quando localizada, é encaminhada ao local onde nos instalamos com os remédios, a água e os pirulitos. Depois de conferida a identificação da criança, ela toma o remédio num copinho descartável de café (as vezes faz careta, as vezes parece gostar), bebe a água no mesmo copinho (prática que segundo Nanã, garante que a criança tome a dose mais correta, pois normalmente fica um resíduo no copinho) e ganha um pirulito (para tirar o gosto ruim da boca e tb, segundo Nanã, combater a crença de que doce dá verme, quando na verdade a criança, depois que está com verme, é que fica com mania de comer doce ou outra coisa, já que come por ela e por seu parasita), este é o tratamento. O remédio, ‘Albendazol’ líquido, vem com uma tarja vermelha de venda sob prescrição médica, pois entre outros efeitos colaterais pode provocar o aborto. Depois que soube disso, achei estranho o fato de não se inquirir antes, ao menos à diretora se entre as crianças escolhidas para o exame e tratamento, não existiria pelo menos uma com gravidez. Sabemos que a faixa etária estava entre 07 a 12 anos, mas tb sabemos que existem alguns raros casos de gravidez na pre-adolescência. No entanto as dificuldades de se descobrir os eventuais casos, nos impediu de tentar essa precaução, se as diretoras seriam as últimas a saber ou se seriam as primeiras não descobrimos, mas achamos provável que em alguns dos casos a perspectiva do aborto poderia até ser silenciosamente consentida, dada as implicações de uma gravidez na pre-adolescência. Mesmo os que têm no exame o resultado negativo, ou seja, estão ‘limpos’, ganham pirulito como espécie de prêmio por terem colaborado com o exame de fezes. Este fato gerou um certo distúrbio na aulas, pois que, os que tem verme e tomam remédio ganham pirulito, isso todos entendem, agora quem não tomou remédio ganhar, pareceu uma injustiça aos que tb não tomaram remédio, mas não fizeram exame. Assim, alguns mais ousados vinham nos pedir pirulitos, só que não tínhamos o suficiente para todos. Fiz um tentativa com um dos mais insistentes entre os ‘não-examinados’, lhe pedi que não contasse aos colegas, nem deu tempo de sair da escola e lá estava ele exibindo o prêmio aos colegas e dando-lhes a receita: “é só dizer que tá com fome…”.
O processo de localização e identificação dos meninos baseia-se num conjunto de fichas que contêm o nome da escola, o nome da criança, a série e o resultado do exame. Nanã e eu íamos nas salas anunciando os nomes em voz alta. Os nomes não encontrados reuníamos numa nova listagem que era lida novamente em todas as séries, pois o índice de migração entre turmas é muito alto nestas escolas, assim como a ausência e o abandono. O próximo passo é encaminhar a criança para a sala de tratamento, que normalmente instalamos na diretoria. A criança chega meio desconfiada, as vezes nem lembra que fez exame e enquanto a gente tenta explicar, fica imaginando se vai tomar injeção, se vai doer, se o gosto é ruim, mas depois, passado o receio brincam umas com as outras: “ih… fulano tá de bichera, qua, qua..”, a pró que estava por perto repreendeu: “que é isso menino? Aqui quem que nunca teve verme?”, numa outra escola soubemos de uma professora que humilhou um aluno na frente dos outros: “tá vendo fulano? Não que me obedecer, pegou verme…”. O engraçado que eu pensei que ia ser uma festa a hora do pirulito, mas a curiosidade mesmo era saber o que era aquilo no copinho, o pirulito teve até uma menina que recusou. O motorista que estava conosco era um tipo curioso, trabalha com transporte de pessoas, as vezes leva grupos musicais para tocar em outras cidades. Sua competência foi reconhecida: ele foi o único motorista chamado para a segunda etapa do projeto, recebe por dia de trabalho e a kombi que usamos era sua. Ele estava de tal forma envolvido no tratamento que em momento algum deixou de nos ajudar, mesmo sem nada receber por este outro serviço, ele contribuía de livre e espontânea vontade, sem que nós pedíssemos nada. Numa escola chegou a repreender uma professora que vendo a caixa cheia de remédios foi surpreendida surrupiando alguns: “minha senhora, se a gente pudesse dar a gente dava, mas os remédios são contados e são só pras crianças dos exames”. Por sinal, este foi um outro conflito ético que enfrentamos, pois quando as crianças não eram localizadas, as caixas ficavam sob responsabilidade da diretora para que esta entregasse os exames e medicasse as crianças ausentes. Será que de fato chegaram ao seu destino? E as crianças com giardia que encaminhamos para um tratamento mais demorado nos Postos Médicos, será que foram? Após visitarmos as escolas selecionadas na amostragem, dado o avançado da hora, umas três e meia da tarde, fomos almoçar, como de praxe procuramos um restaurante a quilo, pois assim o motorista que informalmente nos ajudava, informalmente se alimentava.”

02
“O silêncio impera na sala e só é quebrado pelo som da digitação e pelas conversas de Oxóssi pelo telefone. Em uma delas ele se queixa da dificuldade de realização da pesquisa da dengue Apenas metade das casas foram localizadas na sorologia da dengue, o trabalho da dengue foi muito mal feito (…) “aquela menina não conhece casa nenhuma, ela apenas finge que conhece”. O tom da conversa que estava alto diminui, não dando mais para entender muita coisa, percebo apenas que estão falando sobre salários. O tom volta a subir quando Oxóssi fica sabendo que uma de suas colegas teve um parasitológico positivo para estrongiloidíase, ele então dispara “Bebo veneno, mas não bebo aquela água, outro dia estava morrendo de sede e comprei uma Coca-Cola”. Em outra, alguém liga se queixando de uma das famílias entrevistadas que estava criando dificuldades para o prosseguimento da pesquisa. Oxóssi rebate: “Não podemos forçar ninguém a permanecer na pesquisa, se a família está criando dificuldades desligue ela (…). Não adianta ficar batendo-boca com esta gente, quem é ignorante sai do projeto (…) Se em uma casa tem um cachorro que a morde toda vez que você entra, você vai continuar indo lá? É a mesma coisa. (…).”

03
”Do carro do ISC até a chegada no centro de saúde, tudo parecia estranho. O motorista muito calado e o estagiário, Ogun, permanece no percurso como se não o conhecesse. Ogun comenta comigo que sempre há uma certa rejeição por parte dos médicos e enfermeiras. No centro, o olhar da médica, profundamente desconfiada, talvez assustada: – o que vocês querem?!?
A enfermeira responsável ainda não havia chegado e nada garantia que viria, ela era o nosso contato no centro, a pessoa que deveria nos ajudar. Nossas informações não batiam, tínhamos uma lista de nomes de crianças, fornecida pelo DIRIS (órgão que distribui os remédios que não estão a venda), mas a médica não se recordava de nenhum dos nomes. Sua desconfiança não diminuíra, Ogun tentou explicar mais uma vez: – somos do ISC, e estudamos os casos de tuberculose em crianças de 7 a 14 anos. Ela parece conhecer o ISC, chega a citar alguns nomes. Perguntamos sobre os arquivos, ela está meio ocupada mas se dispõe a nos ajudar, fica ainda a dúvida se por atenção ou por desconfiança e como se tivesse medo de que algo fosse descoberto ou armado contra ela. “Nós não arquivamos raio x, por serem uns trambolhos que bagunçam tudo e vocês o que são?” (…) “Ingrid, a menininha que eu atendi ontem… (olhando nossa lista) QUEM FOI O NERD QUE BOTOU TODOS OS FORMULÁRIOS FORA DA ORDEM?!?”. A expressão ‘nerd’ me chama atenção, não foi gratuita: é como se ela, ao saber que somos universitários, buscasse uma interação. “Começam o tratamento… largam… é uma nojeira!”. Estamos numa sala contígua ao consultório onde ela examina os pacientes, aqui tudo indica algum descaso, poeira, aridez, frieza; enquanto ela conversa com uma funcionária, sente-se no ar algo de enervante, Ogun não esconde seu desânimo, como se pensasse ‘será num lugar assim que irei trabalhar?’. A funcionária fala com uma mulher na porta: – você é Stella, né? Eu já ia anotando seu nome errado… A médica que nos atende ainda é jovem (uns 40), passada sua desconfiança revelou-se uma pessoa bastante simpática, nos contou que a maioria de seus colegas se recusa a trabalhar com tuberculose, por ser uma doença de pobres e portanto não dar lucro. Assim, há falta de médicos que trabalhem nos postos com tuberculose, o que acaba gerando para ela um aumento de demanda. “Os suspeitos, gente que vem encaminhada, pedem-se exames que confirmem o diagnóstico, mas os pacientes não voltam”. Ela comenta que o PPD não é um fator confiável, pois a sub-nutrição altera o seu índice, “inclusive, o ISC”, confirma ela conosco, “andou fazendo uns testes numa escola por aqui (Brotas) não foi?!? Pois bem, depois choveu pai de criança com exame de PPD na mão pedindo tratamento pros filhos e quando eu dizia que eles não tinham nada, só faltavam me bater”. Ela costuma fiar-se no raio x. “Após o preenchimento da ficha, o paciente é encaminhado a um médico que revisa a ficha com o raio x em mãos. O raio x pode ser fornecido pelo DIRIS, quando isso não ocorre a gente tenta tirar aqui, mas a máquina daqui tá meio velha…”. Ogun, já com uma certa autonomia prossegue na pesquisa das fichas de pacientes. Seu trabalho, nesta etapa, é localizar os pacientes de 7 a 14 anos com tuberculose. As fichas são borradas e confusas, é fácil confundir-se. A médica que já tinha voltado a atender no consultório, retorna e nos convida a conhecer uma paciente em estado avançado de tuberculose, pensei que Ogun recusaria, me esqueci de sua curiosidade enquanto estudante de medicina. Uma moça, uns trinta anos, mas que de tão magra parecia ter 15. O tratamento, segundo a drª., surte rápido efeito, o que ilude o paciente, pois este ganha peso e sente-se melhor, no entanto ainda não está curado; isso talvez explique porque muitos não dão continuidade ao tratamento. Um paciente no corredor observa que estou fazendo anotações e comenta algo, acredito que tanto ele quanto a drª. pensam que minhas anotações são sobre o hospital, só que ninguém me pergunta nada.
Após a pequena aula, Ogun termina de recolher as fichas, quando então uma enfermeira nos oferece uma sala. Lá Ogun irá transferir os dados encontrados para uma outra ficha, esta elaborada pela equipe do Projeto BCG. Tentei ajudá-lo, 90% das informações são extraídas da própria experiência, um risco que para mim nada indicava, significa TP (tuberculose pulmonar) ou BK (bacilo de Kook), desisto. Ogun prossegue, o trabalho é extremamente maçante, imagino se ele estivesse sozinho, são 15:40, marcamos com o motorista as 16:00, percebo uma certa ansiedade, normalmente, segundo ele, são encontradas 3 ou 4 fichas e a transcrição é mais rápida; ele tem 8 fichas em mãos. Entendo sua pressa, Ogun é de Itabuna, Salvador o assusta ainda, estamos nas Sete Portas, a noite se aproxima e no corredor ouvimos alguém comentar que foram encontrados dois corpos baleados no mato ao lado do hospital. Rimos da situação que não deixa de ser engraçada. Uma velha enfermeira entra na sala, pergunta quem somos e ao saber que Ogun estuda medicina dispara: “o sr. sabe que é pecado transferir o sangue de um homem para outro? Tá na bíblia, quem aceitar desse sangue estará condenado. O sr. sabe que nada pode, se Deus quiser levar, ele leva mesmo”. Um pouco antes Ogun comentava comigo, intrigado com o fato de eu fazer filosofia, que estava lendo o ‘Anti-cristo’ de Nietzsche e, agora, ante a enfermeira assume uma atitude algo provocativa: “e se eu receber o sangue sem saber, se eu estivesse desmaiado? Estaria condenado?”. A velha enfermeira aponta as janelas do hospital: “isso aqui já foi invadido muitas vezes, meu filho, não tem lugar nesse mundo que você escape da Lei, mas se você não viu o boi morrer, se não foi você que mato, então eu acho que não tem problema, pode até comer. Mas se você vê, então você sofre, eu posso ser ignorante mas eu sei, tá tudo na bíblia e só ler”. Ela sai, mas deixa o convite para irmos a sua igreja. Ogun olha suas fichas, a conversa o deixa mais tenso. São 16:10h, a enfermeira responsável finalmente chega, as fichas desaparecidas são localizadas, não há mais tempo. Marca-se outro dia para terminar, na portaria o segurança nos pergunta se somos estudantes-estagiários, pois teve um carro nos procurando, só que ele não sabia que era a gente, por isso o carro foi embora…”

04
“eu sou (?) (?), minha função é pesquisadora… a gente vai pro campo coletar os dados que a gente passa para o Instituto… nosso trabalho é basicamente são duas vezes na semana, a gente vai, eu vou, especificamente, eu pra Piripiri, que é a 1025, e vou pra 118 que é Lobato…a gente faz visita de casa, mais ou menos são, hoje na minha área, 40, 37, 39 crianças, a gente vai saber como ela passou durante a semana…a gente vai avali…éee…vai coletar dados sobre de uma maneira geral como ela passou, se ela teve alguma doença, se surgiu algum dado novo ou se ele… durante a semana não teve nenhuma alteração, e a outra parte que a gente faz também além da coleta de dados é uma parte de observação, a gente observa…em que, quais condições a gente encontra a criança naquele dia que a gente foi…éee…está vestida, se tá nua, se ela e outras crianças se tá de pé descalço, se tá comendo no chão, é uma parte estritamente de observação, e no nosso ca…quer dizer, no meu caso, não sei no caso das outras, no meu caso, a maior dificuldade é que muitas vezes o horário que a gente vai a gente não encontra com as crianças às vezes, e não encontra as situações específicas da ficha de avaliação, normalmente o máximo que a gente consegue encontrar a criança, ou ela tá descalça brincando ou…ela tá…tá nua porque vai tomar banho, ou tá nua porque não gosta de andar de roupa, mas as outras questões específicas da nossa ficha é um pouco mais difícil pra gente avaliar, embora eu particularmente gosto de de manhã eu gosto de ir de tarde, gosto muito de ir em horários diferenciados pra ver se a gente consegue…éee…perceber alguma coisa de diferente, mas normalmente ou a gente pega a criança sem…não sei como se diz, descalça brincando, é muito pouco provável a gente pegar mãe com pratos, que às vezes as cozinhas são, não são abertas, esse pessoal já lavou pratos, são questões específicas que a gente…o horário que a gente passa, a criança ainda não tomou banho ou tomou banho quando acordou mas a gente não viu…então essa parte de observação pra gente éee…e em algumas partes específicas, a nossa dificuldade só é essa…”

04. reflexões

A leitura dessas quatro narrativas, momentos de um processo contínuo e maior, podem servir de base para a discussão de algumas impressões. E não mais que isso, dado que o filtro para estas impressões está no próprio observador dessas situações. O trabalho de campo nos põe no lugar certo na hora errada, pois vemos, participamos, mas não podemos parar ou estacionar as inúmeras ocorrências ao nosso redor. Não podemos aprisionar o momento, para então dissecá-lo e analisá-lo. Assim, somente depois do ocorrido, com a ajuda da nossa memória, podemos re-narrar algo então totalmente impregnado de nossas próprias impressões.

Reunindo alguns elementos presentes nas narrativas podemos tentar algum viés que nos esclareça um pouco mais sobre as relações representadas. Na primeira, fica ressaltada a participação do motorista: “Ele estava de tal forma envolvido no tratamento que em momento algum deixou de nos ajudar, mesmo sem nada receber por este outro serviço, ele contribuía de livre e espontânea vontade, sem que nós pedíssemos nada. Numa escola chegou a repreender uma professora que vendo a caixa cheia de remédios foi surpreendida surrupiando alguns: – Minha senhora, se a gente pudesse dar a gente dava, mas os remédios são contados e são só pras crianças dos exames”.

Na segunda, um pouco do discurso e das concepções de quem lida com a ação e a população: “Não podemos forçar ninguém a permanecer na pesquisa, se a família está criando dificuldades desligue ela (…). Não adianta ficar batendo-boca com esta gente, quem é ignorante sai do projeto (…) Se em uma casa tem um cachorro que a morde toda vez que você entra, você vai continuar indo lá? É a mesma coisa. (…)”.

Na terceira, tentamos entender o cotidiano de quem está no campo: “(…) Ogun comenta comigo que sempre há uma certa rejeição por parte dos médicos e enfermeiras. (…) Ogun não esconde seu desânimo, como se pensasse ‘será num lugar assim que irei trabalhar?’. (…) Ogun, já com uma certa autonomia prossegue na pesquisa das fichas de pacientes. Seu trabalho, nesta etapa, é localizar os pacientes de 7 a 14 anos com tuberculose. As fichas são borradas e confusas, é fácil confundir-se. A médica que já tinha voltado a atender no consultório, retorna e nos convida a conhecer uma paciente em estado avançado de tuberculose, pensei que Ogun recusaria, me esqueci de sua curiosidade enquanto estudante de medicina.”

Na última narrativa vemos um pouco mais das expectativas de quem vai a campo: “eu gosto de ir de tarde, gosto muito de ir em horários diferenciados pra ver se a gente consegue…éee…perceber alguma coisa de diferente, mas normalmente ou a gente pega a criança sem…não sei como se diz, descalça brincando, é muito pouco provável a gente pegar mãe com pratos, que às vezes as cozinhas são, não são abertas, esse pessoal já lavou pratos, são questões específicas que a gente…o horário que a gente passa, a criança ainda não tomou banho ou tomou banho quando acordou mas a gente não viu…então essa parte de observação pra gente éee…e em algumas partes específicas, a nossa dificuldade só é essa…”

Quando tentamos confrontar a perspectiva do agente epidemiológico com a perspectiva de quem sofre sua ação, algo nos remete ao choque entre padrões culturais. Não podemos nos colocar no lugar da população (que sofre a ação), mas podemos por contraste delimitar um pouco de sua perspectiva no momento de contato entre as duas perspectivas. No geral, a impressão é uma só: uma atitude pacificada, como se estivessem diante de uma autoridade. Quando não existe esta postura de consentimento silencioso, existe a exclusão: nunca foi observado em campo uma tentativa de diálogo. Se tentávamos explicar que estava sendo feita uma pesquisa para a Universidade, não se estabelecia, normalmente, um entendimento, mas sim uma aceitação passiva, por esta estar associada ao Governo. Muita vezes, simplificávamos a explicação: “somos do Bahia-azul”. Explicação esta, sugerida pelo uniforme que usávamos em campo.

Estaria, então, a prática epidemiológica no limite de um relativismo cultural? Citando um exemplo de Burke (1999):

”As cruzadas higienizadoras no Ocidente, ao longo dos séculos 19 e 20, foram muitas vezes ofensivas culturais da classe média para impor seus costumes a operários e camponeses. Ou foram tentativas de mães da classe média de uma cultura, a norte-americana, por exemplo, de impor seus padrões de criação infantil aos imigrantes do sul da Itália, digamos, ou da Polônia, como se mães européias não soubessem como cuidar de seus bebês. E, no entanto, o que dizer da relação entre tais práticas e a mortalidade infantil.?”

No exemplo acima, podemos pensar a prática epidemiológica como um padrão de saúde cultural dominante (as concepções de higiene das mães americanas) e seus agentes como representantes dessa verdade. Lembrando do que Foucault (1979) disse quando descreveu a reação de certos grupos religiosos à medicalização autoritária: “não serão elas (as reações) uma forma atual de luta política contra a medicalização autoritária, a socialização da medicina, o controle médico que se abate essencialmente sobre a população pobre”. Sem esquecer que complexas relações de poder envolvem os atores da prática epidemiológica, enquanto assalariados ou enquanto seres que mesmo sem o brilho social dos ‘doutores’, sentem e exercem um tipo de poder de cura e status. Assim, quando o motorista Xangô repreende a professora, o que sustenta sua argumentação são as complexas relações de construção de sentido de seu discurso e, por trás de seu interesse espontâneo de colaboração, seus ‘quinze minutos de fama’. Inclusive, como seria esse ‘brilho’ ou status social na Saúde Coletiva? Será que entra nessa ‘magia’ o uso de símbolos como: uniformes, cartazes, logomarcas, etc.? Ou será que o poder que fala mais forte é o da institucionalização? Associando-se, assim, esta ‘magia’ ao poder do Estado? Este ‘brilho’ que ‘enfeitiça’ os atores e que contagia a população, pode ser entendido enquanto cultura hegemônica.

Segundo Almeida-filho (1997), “os efeitos de discursos técnico-científicos, como os da Clínica e da Epidemiologia, retornam e rebatem sobre a constituição do imaginário social contemporâneo”. Assim, parece claro que a intervenção epidemiológica usa de todo um aparato institucional para impor seu modo de ver e explicar as causas de uma epidemia ou para propor uma intervenção. “Na verdade, a população com que os epidemiologistas lidam na sua prática concreta é a população de suas bases de dados, às quais somente o processo de produção de evidências é capaz de dar uma certa garantia de referência. (…) Esta garantia resulta de um sutil e complexo processo de negociação, quase que um termo de compromisso implícito firmado pelos investigadores envolvidos, participantes de redes mais ampliadas de suporte discursivo e institucional.” (Ibdem). Assim, estaria na base da própria Epidemiologia enquanto discurso estruturado, o processo de convencimento de seus colaboradores. Sem isso, ela não se sustentaria enquanto prática. Não nos propomos aqui discutir sua eficácia, mas, sim, partir da perspectiva de seus atores e confrontar essa perspectiva com a da população, para assim compreendê-la um pouco melhor.

Segundo Burke, o problema do relativismo cultural chega ao seu limite ético quando se trata do respeito a vidas humanas, sob esse aspecto, então, é valido romper e desrespeitar a diferença cultural. “O problema é ainda mais delicado no caso de costumes sociais ou opiniões éticas que prescrevem tratar alguns grupos como inferiores, sejam eles escravos, servos, hindus intocáveis, mulheres, ciganos e assim por diante. Como podemos respeitar os pontos de vista incongruentes de grupos dominantes e dominados? Se quisermos respeitar as opiniões éticas de outras sociedades, temos de decidir o que significa “outra sociedade”. Não podemos supor um consenso de valores.”. (1999).

Assim, não está aqui em julgamento a prática epidemiológica, mesmo porque seu tribunal estaria acima dos homens. Fica assim, sem resposta, a solução desse conflito, mas uma sugestão nos é dada pela própria questão levantada: seria então, o caso de valorizar a cultura ou o homem? Se optamos pela primeira caminhamos para a dessubstancialização (Cf. Almeida-Filho, 1997) que Foucault falava nas “Palavras e as Coisas” (1966), se pela segunda, voltamos ao beco sem saída do ‘homem como medida de todas as coisas’, o sofismo pós-moderno. O conflito entre estas duas posições está no cerne do debate sobre a crise da contemporaneidade e parece sofrer uma diluição quando suspendemos as implicações éticas envolvidas para, então, aceitar a prática enquanto prática. Mesmo que por trás dessa simplificação se esconda apenas o medo e a crença, no ocidente, da morte.

Bibliografia

ALMEIDA-FILHO, N. A Clínica e a Epidemiologia. Rio, APCE-ABRASCO, 1997.
BURKE, P. Mal-estar na civilização: Debate sobre relativismo cultural encontra seus limites no respeito à vida humana. Folha de São Paulo, Domingo, 02 de Maio de 1999.
FOUCAULT, m. O Nascimento da Clínica. São Paulo, Forense, 1979.
MINAYO, M.C. de S. O Desafio do Conhecimento. São Paulo, Hucitec-Abrasco, 1992.

[1] Pesquisa coordenada por Prof. Naomar Almeida-Filho (ISC/UFBa).

publicado como:
STANGL, André. Uma Etnografia da Prática Epidemiológica: Usos e Sentidos do Conceito de Saúde. In: VI CONGRESSO BRASILEIRO DE SAÚDE COLETIVA, Salvador. Anais – VI Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, 2000.

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